Molhado de Suor

Alceu Valença

1974

Capa de Molhado de Suor
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Molhado de Suor, lançado em 1974, marca a estreia solo de Alceu Valença e é amplamente considerado um álbum ousado e essencial na discografia brasileira. Ele se destaca por sua sonoridade singular, que mescla de forma inovadora a rica tradição musical do Nordeste, incorporando ritmos como frevo, baião, maracatu, coco e embolada, com a energia e experimentação do rock psicodélico, do folk e do pop. Essa fusão criou uma estética nordestina pioneira que resiste ao tempo e se tornou um modelo para as gerações futuras. O trabalho é uma demonstração da voz inconfundível de Alceu, que transcende a mera vocalização para se tornar um instrumento fundamental na trama musical. Através de letras que evocam paisagens áridas, amores intensos e um misticismo profundo, Alceu Valença se posiciona como um artista visionário, capaz de traduzir a alma do sertão em poesia e experimentação sonora. É um álbum que aborda temas como ecologia, repressão e paixão com uma sensibilidade única e arranjos instigantes. Inicialmente com vendas modestas, Molhado de Suor gradualmente conquistou status de obra-prima e objeto de culto, tornando-se uma referência para novas gerações de músicos e ouvintes. Sua capacidade de conciliar o regional com o universal, a tradição com a modernidade, o estabelece como um marco na música popular brasileira.

Contexto

Alceu Valença teve sua formação musical no sertão de Pernambuco, imerso nas tradições dos *aboiadores*, *cordelistas* e *sanfoneiros*. Posteriormente, ao se mudar para Recife aos dez anos, entrou em contato com a cultura urbana, expandindo suas referências para incluir grandes nomes da música brasileira como Dalva de Oliveira e Orlando Silva, além de ícones do rock como Ray Charles e Little Richard. Embora tenha cursado Direito, Alceu decidiu seguir sua paixão pela música. Antes de Molhado de Suor, Alceu já havia lançado o álbum "Quadrafônico" em 1972, em parceria com Geraldo Azevedo, e participado da trilha sonora do filme "Noite do Espantalho" em 1974. O período de lançamento do disco, nos anos 1970, foi marcado pela ditadura militar no Brasil, um contexto turbulento que influenciou a criação artística e o surgimento de movimentos de contracultura, como o Udigrudi em Recife. Alceu foi um dos pioneiros ao integrar a guitarra elétrica aos ritmos nordestinos, abrindo novos caminhos para a música regional.

Gravação

O álbum Molhado de Suor foi gravado no estúdio da Som Livre, localizado no Rio de Janeiro. A produção ficou a cargo de Eustáquio Sena, com a direção musical de Cássio Tucunduva, que também era guitarrista da banda Os Lobos. Os arranjos do disco contaram com a colaboração do próprio Alceu Valença, além de Waltel Branco, Geraldo Azevedo e João Cortez. Um elemento crucial para a sonoridade do álbum foi a participação de Lula Côrtes, que trouxe seu tricórdio diretamente do Recife para as sessões de gravação, adicionando toques altamente psicodélicos. Geraldo Azevedo e outros músicos importantes da cena psicodélica nordestina também contribuíram para a atmosfera única do disco.

Músicas

Molhado de Suor apresenta um repertório diversificado de canções, incluindo faixas como "Borboleta", "Punhal de Prata", "Dia Branco", "Cabelos Longos", "Chutando Pedras", a faixa-título "Molhado de Suor", "Mensageira dos Anjos", "Papagaio do Futuro", "Dente de Ocidente" e "Pedras de Sal". Uma das canções mais notáveis, "Vou Danado pra Catende", inicialmente não fazia parte da prensagem original, mas foi incluída como faixa bônus em edições posteriores devido ao seu sucesso no Festival Abertura de 1975, onde Alceu a defendeu ao lado de Zé Ramalho, Lula Côrtes e parte do Ave Sangria, e em algumas versões substituindo "Chutando Pedras". A lírica do álbum é marcada por metáforas e um tom contestador. "Dente de Ocidente", por exemplo, surgiu da observação de Alceu de uma espuma estranha na Baía de Guanabara, tornando-se uma das primeiras canções ecologicamente engajadas da música popular brasileira. "Cabelos Longos" é uma canção que começa com um lamento ao violão e evolui para riffs elétricos, enquanto "Punhal de Prata" é descrito como um lamento-rock com *aboios* psicodélicos em estilo mouro-sertanejo, adaptados à estética do rock dos anos 70. "Papagaio do Futuro" destaca-se como um côco elétrico, evidenciando a fusão de ritmos tradicionais com a instrumentação do rock.

Legado

Molhado de Suor, apesar de uma vendagem inicial modesta, transcendeu seu lançamento para se tornar um "objeto de culto" e uma referência fundamental para as novas gerações de músicos e apreciadores da música brasileira. Ele é reconhecido por ter reinventado o diálogo entre a tradição e a modernidade na MPB, estabelecendo uma estética nordestina que serviu de modelo e inspiração para trabalhos posteriores. O álbum é considerado um divisor de águas, que abriu novos caminhos ao integrar de forma inovadora os sons de Pernambuco com o pop e o rock. Sua importância é tal que, após anos de escassez no mercado, o disco tem sido constantemente reeditado por selos como Vampisoul e Três Selos/Rocinante, reafirmando seu status de clássico atemporal e sua contínua influência na música brasileira.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Arranjo [Strings, Brass]

Waltel Branco

Produção

Eustáquio Sena

Composição

Alceu Valença

Acoustic Guitar [Violão], Vocais

Alceu Valença

Bateria, Percussão

João Cortez

Dulcimer

Lula Côrtes

Flauta

Ronaldo

Guitarra [Craviola], Mandolin [Bandolin]

Piri

Percussão

Hermes Contesini

Viola, Guitarra [Craviola]

Geraldo Azevedo

Viola, Guitarra, Baixo

Cassio

Design

Lula Côrtes

Layout

Joel Cocchiararo

Fotografia

Tania Quaresma

Referências

Livros