Instrumental
Almir Sater
1985

Porque Merece Estar na Lista
Lançado em 1985, Instrumental marca um ponto de virada na discografia de Almir Sater e na percepção da viola caipira dentro da música brasileira. Sendo seu primeiro álbum inteiramente instrumental, ele transcende as fronteiras do sertanejo tradicional ao apresentar uma sonoridade sofisticada e experimental, mesclando raízes regionais com elementos de folk, blues, rock e até mesmo música erudita. A originalidade de Almir Sater, com sua técnica primorosa na viola de dez cordas, abriu caminho para uma nova estética do instrumento, demonstrando sua versatilidade e potencial para além dos arranjos mais convencionais. O álbum se destaca pela ousadia de incorporar instrumentos incomuns para o gênero, como o berimbau, a bateria eletrônica e a cítara, criando paisagens sonoras que evocam a vastidão dos *cerrados* e *pantanais*, mas com uma roupagem moderna e universal. Instrumental não é apenas uma coleção de músicas, mas uma declaração artística que solidificou Almir Sater como um violeiro inovador e um dos principais responsáveis pela valorização e modernização da viola caipira no cenário musical brasileiro.
Contexto
Antes de Instrumental, Almir Sater já trilhava um caminho de experimentação musical. Tendo iniciado sua carreira nos anos 70 e lançado álbuns como "Estradeiro" (1981) e "Doma" (1982), ele já era reconhecido por sua habilidade em fundir a viola caipira com influências de folk, rock, blues e ritmos fronteiriços como a polca paraguaia, a guarânia e o chamamé. Sua busca por novas sonoridades e aprofundamento cultural o levou a criar, em 1984, a "Comitiva Esperança". Nesse projeto, Sater viajou pelo Mato Grosso em uma intensa pesquisa sobre a cultura local, registrando a vida dos pantaneiros e explorando estilos regionais até então pouco conhecidos. O resultado dessa imersão foi não apenas o álbum Instrumental, mas também o documentário homônimo "Comitiva Esperança", dirigido por Wagner de Carvalho em 1986. Esse período foi crucial para a maturação de sua visão artística, permitindo-lhe incorporar as descobertas de sua jornada ao seu repertório e instrumentação.
Gravação
A produção de Instrumental foi uma colaboração entre Almir Sater e Carlão de Souza, evidenciando o envolvimento direto do artista na concepção sonora do projeto. As gravações aconteceram em importantes estúdios da época, como o Transamérica em São Paulo e o Polygram no Rio de Janeiro, garantindo uma qualidade técnica apurada para as inovações propostas. O álbum contou com a participação de diversos músicos talentosos, embora a lista completa não esteja sempre explicitada, nomes como Heraldo do Monte (violão) e Dominguinhos (acordeão) contribuíram para a riqueza das texturas sonoras. Essa colaboração de peso, aliada à visão de Sater, resultou em arranjos que souberam harmonizar a viola caipira com as introduções de instrumentos pouco ortodoxos no cenário sertanejo, como a cítara e o berimbau.
Músicas
As dez faixas de Instrumental refletem a diversidade composicional de Almir Sater, com a maioria sendo de sua autoria ou em parceria. Canções como "Corumbá", "Minas Gerais", "Luzeiro" e "Benzinho" são exemplos da capacidade de Sater de pintar paisagens sonoras através da viola, explorando melodias que são ao mesmo tempo enraizadas na tradição e abertas à experimentação. Um dos destaques do álbum é a reinterpretação do clássico "O Rio de Piracicaba", do trio Tião Carreiro, Piraci e Lourival dos Santos. A versão de Sater não apenas resgata a beleza da "moda de viola" tradicional, mas a eleva a um patamar instrumental sofisticado, incorporando os elementos modernos que permeiam o disco. A inclusão de instrumentos como o berimbau e a cítara em faixas como esta e outras, como "Doma" e "Viola de Buriti", demonstra a intenção de Sater de expandir os horizontes da música de raiz, fundindo-a com sonoridades globais e contemporâneas.
Legado
Instrumental foi aclamado pela crítica especializada, com Tárik de Souza, do Jornal do Brasil, destacando sua "nota de pessoal originalidade à uniformização de timbres da Babel do Consumo". Marco Augusto Gonçalves, da Folha de S. Paulo, elogiou a "técnica de primeira linha" de Almir Sater, que "viaja pelos cerrados, pelos pantanais e recantos da sonoridade do matão". O reconhecimento do álbum se estendeu para além dos círculos especializados, alcançando o grande público através da televisão. A faixa "Luzeiro" foi escolhida como tema de abertura do programa Globo Rural, mantendo-se no ar por mais de 38 anos e tornando-se uma melodia icônica associada à paisagem rural brasileira. "Benzinho" também ganhou destaque ao integrar a trilha sonora da novela Cabocla. A influência de Instrumental é inegável, consolidando Almir Sater como um violeiro inovador e abrindo caminho para que a viola caipira fosse vista não apenas como um instrumento folclórico, mas como um elemento capaz de dialogar com a música instrumental contemporânea e a MPB, inspirando gerações de músicos a explorar novas possibilidades com o instrumento.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Marcus Vinicius
Almir Sater
José Luiz de Carvalho, Robson Leite
Marcus Vinicius, Wilson Gonçalves
Almir Sater, Marcus Vinicius
Robson Leite, Ronaldo