Y'Y
Amaro Freitas
2024
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Por Que Esse Disco é Importante
Y'Y, lançado em 1º de março de 2024 pelo selo Psychic Hotline, representa o quarto álbum de estúdio do aclamado pianista e compositor brasileiro Amaro Freitas. O título do álbum, pronunciado "eey-eh, eey-eh", tem um significado profundo, traduzindo-se como "água" ou "rio" no dialeto do povo indígena Sateré Mawé, localizado na Amazônia. Este trabalho é uma homenagem direta à Floresta Amazônica e aos rios do Norte do Brasil, servindo como um poderoso chamado para viver, sentir, respeitar e cuidar da natureza, reconhecendo-a como ancestral e essencial para o equilíbrio do planeta. Distanciando-se do jazz brasileiro mais frenético e percussivo de seus trabalhos anteriores, Y'Y marca uma exploração mais pastoral e meditativa, sem perder a intensidade característica de Freitas. Ele continua a utilizar o piano de forma expansiva, não apenas como um instrumento melódico, mas também como um gerador de sons e um kit de bateria, com um estilo rítmico complexo e percussivo que incorpora as polirritmias do maracatu, frevo e baião, mas agora com um foco renovado nas sonoridades da floresta e na espiritualidade indígena.
Contexto
A gênese de Y'Y reside em uma profunda imersão cultural e ambiental do artista. Em 2020, Amaro Freitas empreendeu uma jornada de 4.600 quilômetros de sua cidade natal, Recife, até Manaus, na bacia amazônica. Esta experiência na exuberante floresta amazônica foi transformadora, guiando-o para um novo domínio de criação musical. Durante sua estadia, Freitas estabeleceu uma conexão profunda com a comunidade indígena Sateré Mawé, engajando-se em uma troca de conhecimento que enriqueceu sua percepção sobre a magia, as possibilidades e a necessidade de preservar a natureza e suas tradições ancestrais. Seus álbuns anteriores, como Sangue Negro (2016), Rasif (2018) e Sankofa (2021), já demonstravam sua dedicação em explorar ritmos populares e a cultura afro-brasileira, com uma abordagem rítmica muscular e complexa. No entanto, Y'Y canaliza essa sensibilidade para uma narrativa ambiental e espiritual, reforçando seu compromisso com a descolonização da música brasileira.
Gravação
A produção musical de Y'Y foi um esforço colaborativo, liderado por Amaro Freitas em parceria com Laercio Costa e Vinicius Aquino. Este último também assumiu a responsabilidade pela mixagem do álbum. As sessões de gravação foram realizadas em locais estratégicos, abrangendo o Carranca Studio, em Recife, Brasil, e o Maxine Studio, em Milão, Itália. Para aprimorar a sonoridade, foram feitas gravações adicionais em Los Angeles, Califórnia, e no Brooklyn, Nova York. A masterização foi confiada a Kevin Reeves, e as lacas foram cortadas por Kevin Gray, garantindo uma alta qualidade sonora para o lançamento. O processo de gravação fez uso extensivo de técnicas como o piano preparado, a incorporação de ruídos que emulam os sons da mata e uma variedade de percussões para criar a atmosfera orgânica e imersiva que permeia o álbum.
Músicas
As nove faixas de Y'Y são uma jornada sonora que evoca a atmosfera da floresta tropical e a rica mitologia dos seres encantados. A abertura, "Mapinguari (Encantado da Mata)", invoca uma divindade da floresta com o uso de vibes, sinos e teclas no registro superior, simulando o farfalhar das folhas e estabelecendo um tom místico. Em seguida, "Uiara (Encantada da Água) – Vida e Cura" é uma homenagem à "mãe da água", desenvolvendo um ritmo em cascata através de cordas de piano abafadas, recriando o fluxo da água. "Viva Naná" é um tocante tributo ao lendário percussionista Naná Vasconcelos, com percussões que ecoam os sons da mata. Uma das peças centrais do álbum, "Dança dos Martelos", é uma odisseia de oito minutos que se transforma em uma explosão de discordâncias graves e frases frenéticas da mão direita, evocando o caos de uma tempestade, onde Freitas emprega o piano como um tambor de 88 teclas, enriquecido por sementes amazônicas e pregadores de roupa. A faixa-título "Y'Y" conta com Shabaka Hutchings na flauta, inspirada no encontro dos rios Solimões e Negro, explorando movimentos opostos que representam as águas agitadas e as mais serenas. O álbum também apresenta colaborações notáveis: "Mar de Cirandeiras" destaca a guitarra de Jeff Parker, enquanto "Gloriosa" é adornada pela harpa de Brandee Younger, que contribui para uma aura celestial e onírica. A faixa de encerramento, "Encantados", é um ponto alto, unindo Amaro Freitas a Hamid Drake na bateria, Shabaka Hutchings na flauta e Aniel Someillan no baixo. Esta peça final serve como uma súmula urgente do álbum, lembrando a importância da conservação e o perigo de perder os refúgios espirituais celebrados em toda a obra.
Legado
Desde seu lançamento, Y'Y tem sido amplamente aclamado pela crítica especializada, consolidando a posição de Amaro Freitas no cenário internacional do jazz. O álbum alcançou uma pontuação de 85/100 no Metacritic, baseada em seis avaliações positivas e uma mista, um indicativo da recepção entusiástica. Críticos o descreveram como um trabalho que “deixa o ouvinte emocionado e revigorado” e o “LP mais explosivo e exploratório” de Freitas até então. Reconhecido por sua intrincada complexidade e capacidade cativante, o álbum foi elogiado por seu poder de proporcionar “pequenos impulsos inesperados” que levam o ouvinte a uma entrega total. Y'Y também destaca as ricas conexões da comunidade global de jazz de vanguarda negra, com contribuições de músicos renomados como Jeff Parker, Hamid Drake, Aniel Someillan e Brandee Younger. O trabalho solidifica ainda mais a interpretação "descolonizada" de Amaro Freitas para o jazz brasileiro, que, segundo a crítica, “pode muito bem quebrar noções preconcebidas do que o jazz pode ser”. O sucesso do álbum foi acompanhado por uma extensa turnê europeia, onde Amaro Freitas foi recebido com aplausos de pé e múltiplos pedidos de bis, evidenciando o impacto global e a aceitação de sua proposta artística inovadora, especialmente na França.