Frevo Mulher

Amelinha

1979

Capa de Frevo Mulher
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Frevo Mulher, o segundo álbum da cantora Amelinha, lançado em 1979, é uma obra seminal que marcou um ponto de virada decisivo em sua carreira, catapultando-a ao reconhecimento nacional. O disco apresenta uma faceta mais vibrante e extrovertida da artista, contrastando significativamente com a introspecção de seu trabalho de estreia, Flor da Paisagem. Nele, Amelinha abraça um repertório vasto e diversificado, que, embora mergulhado em temas folclóricos e ritmos nordestinos, é infundido com uma energia contagiante e um espírito festivo que se tornariam marcas registradas em sua trajetória musical. O álbum se destaca pelo seu notável experimentalismo, tecendo uma tapeçaria sonora rica onde as raízes tradicionais do Nordeste dialogam com influências internacionais do pop e do rock. Essa fusão se manifesta em arranjos que combinam elementos eruditos, populares e tradicionais, criando uma sonoridade moderna e original. As letras, por sua vez, transportam o ouvinte para um Nordeste místico e reinventado, permeado por surrealismo e um profundo sentimentalismo, conforme a própria Amelinha descreveu o álbum como o "desabrochar para as coisas. Disco de som muito alegre, grande variação, pé no chão e suor".

Contexto

No final da década de 1970, a música nordestina vivenciava um período de efervescência e visibilidade sem precedentes no cenário fonográfico brasileiro. Gravadoras importantes, como a CBS, buscavam novos talentos da região, impulsionando uma verdadeira "explosão" de artistas e sonoridades nordestinas. Nesse ambiente, Fagner, após o sucesso de seu álbum de 1976, atuava como consultor informal para a CBS, facilitando a entrada de novos nomes. Foi nesse contexto que Amelinha lançou seu disco de estreia, Flor da Paisagem, em 1977. Apesar da boa recepção crítica, o álbum não atingiu o sucesso comercial esperado, o que levou Jairo Pires, diretor artístico da CBS, a desafiar a cantora a buscar um "disco de ouro" em seu próximo trabalho. Determinada, Amelinha se mudou para o Rio de Janeiro, hospedando-se no Plaza Hotel, um ponto de encontro para diversos artistas da gravadora, incluindo um jovem e impactante Zé Ramalho, cujo lirismo místico e sonoridade fora do comum a inspirariam profundamente e dariam origem à emblemática faixa-título.

Gravação

Frevo Mulher foi gravado em 1978, com seu lançamento oficial ocorrendo no ano seguinte pela gravadora CBS, que na época era um dos principais polos de produção musical no Brasil. A direção artística, de produção e musical ficaram a cargo de Carlos Alberto Sion, uma figura central na produção de grandes nomes da música nordestina daquele período, com experiência em mesclar sonoridades regionais com arranjos contemporâneos. Os trabalhos de gravação contaram com a expertise de Carlos Signorelli como técnico, auxiliado por Gilberto Peninha e Silvino Xavier, enquanto a mixagem foi assinada por Signorelli e Eugênio Carvalho. A ficha técnica detalhada no encarte do álbum aponta para uma produção cuidadosa e profissional, característica das grandes gravadoras da época. A colaboração de Sion, que também produziu outros álbuns emblemáticos de artistas nordestinos na CBS em 1979, como Ave de Prata de Elba Ramalho e A Peleja do Diabo com o Dono do Céu de Zé Ramalho, sugere um padrão de qualidade e uma abordagem coesa na sonoridade da "geração nordestina" que despontava. É provável que as gravações tenham ocorrido nos estúdios da própria CBS no Rio de Janeiro, que eram bem equipados para as produções de grande porte da gravadora.

Músicas

O repertório de Frevo Mulher é um mosaico sonoro que mistura o vigor dos ritmos nordestinos com uma sensibilidade pop e experimental. A faixa-título, "Frevo Mulher", de Zé Ramalho, é um frevo-forró de andamento frenético, concebida sob medida e inspirada pela própria Amelinha, que se tornaria um de seus maiores sucessos. Outros destaques incluem "Santa Tereza", uma homenagem de Fagner e Abel Silva ao bairro carioca, que ressoa com sonoridade latina e a participação do grupo Tacuabê, e "Dia Branco", de Geraldo Azevedo e Renato Rocha, que ganha uma roupagem de balada com solos de guitarra, sendo a primeira canção escolhida pela artista para o disco. O álbum também explora paisagens sonoras mais introspectivas e psicodélicas, como em "Galope Razante", um galope à beira-mar com nuances esotéricas que foi a primeira canção de Zé Ramalho dedicada a Amelinha. O experimentalismo se aprofunda com o rock progressista "Divindade", apresentada a Amelinha por Walter Franco. Um ponto de ousadia e intensidade é "Que Me Venha Esse Homem", um poema de Bruna Lombardi musicado por David Tygel, que aborda o desejo sexual feminino de forma explícita, algo bastante desafiador para a época. Cátia de França contribui com o baião surrealista "Coito das Araras", inspirada na literatura de Guimarães Rosa. O disco encerra com o rock "Pedaço de Canção", de Moraes Moreira e Fausto Nilo, que conta com a participação especial da banda O Terço, celebrando a importância do rádio e da música no interior.

Legado

Frevo Mulher foi um divisor de águas na carreira de Amelinha, alcançando um sucesso comercial estrondoso e consolidando sua posição no cenário musical brasileiro. O LP vendeu aproximadamente 176 mil cópias, garantindo o primeiro disco de ouro da cantora e superando a marca de 118 mil cópias em apenas um ano de lançamento, conforme o Jornal do Brasil noticiou em abril de 1980. A faixa-título, "Frevo Mulher", tornou-se um fenômeno de popularidade, liderando as paradas de rádio (AM e FM) e sendo tocada exaustivamente em discotecas, aulas de aeróbica e festas, o que a consagrou como uma das intérpretes mais requisitadas do show-business. A canção não só se tornou um hino para Amelinha, mas também impulsionou Zé Ramalho como um compositor de sucessos, marcando a primeira turnê de ambos os artistas. Sua mistura vibrante de frevo-forró a tornou um clássico das festividades juninas e carnavalescas, figurando entre as dez músicas mais tocadas na história do carnaval de Pernambuco e mantendo-se presente nas celebrações mesmo décadas após seu lançamento. O impacto da canção foi tão significativo que o próprio Caetano Veloso afirmou que "Frevo Mulher" "mudou para sempre o carnaval da Bahia". Sua popularidade foi ainda mais impulsionada por um videoclipe produzido pelo programa Fantástico da TV Globo, exibido em janeiro de 1980. O álbum e sua faixa-título influenciaram gerações de artistas e solidificaram a identidade da música nordestina no panorama nacional, abrindo caminho para uma nova sonoridade que combinava tradição e modernidade.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Direção Artística [Direção de Arte]

Jairo Pires

Produção [Produção Musical]

Carlos Alberto Sion, Zé Ramalho

Edição [Montagem]

Alencar

Mixagem [Mixagem]

Carlos Signoreli, Eugênio Carvalho

Gravação [Técnico de Gravação]

Carlos Signoreli

Técnico [Auxiliares]

Peninha, Silvino Xavier

Direção de Arte [Direção de Arte]

Géu

Arte [Arte]

Carlos Enrique M. de Lacerda

Design, Photography By [Fotos], Texto do Encarte

Paulo Klein

Texto do Encarte

Amelinha

Referências

Livros