Clara Crocodilo
Arrigo Barnabé
1980

Porque Merece Estar na Lista
Clara Crocodilo, lançado em 1980, representa o álbum de estreia do compositor Arrigo Barnabé, acompanhado pela banda Sabor de Veneno, e marcou um divisor de águas na música popular brasileira. Sua chegada causou um impacto significativo, angariando elogios da crítica especializada que prontamente o considerou "a maior novidade surgida na música brasileira desde a Tropicália". O álbum é um marco fundamental, reconhecido como o ponto de partida da chamada Vanguarda Paulista, um movimento musical que, além de Barnabé, albergou nomes como Itamar Assumpção e Tetê Espíndola, e grupos como Premeditando o Breque, Língua de Trapo e Rumo. Musicalmente, Clara Crocodilo distingue-se pela audaciosa incorporação de técnicas seriais, notadamente o dodecafonismo e o atonalismo livre. Essa característica posicionou Arrigo Barnabé como o pioneiro na utilização sistemática desses métodos na música popular brasileira. As letras do disco mergulham na vida urbana, explorando a neurose e a degradação das metrópoles brasileiras contemporâneas, com um olhar atento à contracultura marginal paulistana. A abordagem poética é abertamente influenciada pelas histórias em quadrinhos, e a Rolling Stone Brasil o descreveu como uma "ópera pop" que retrata a vida degradada nas cidades. O próprio Arrigo Barnabé o considera seu trabalho mais consistente do ponto de vista musical, reforçando a relevância intrínseca da obra para sua carreira e para o panorama musical do país.

Clara Crocodilo é uma usina sonora que mistura música erudita contemporânea de vanguarda, dodecafonismo, pop e rock pesado.
Antônio do Amaral Rocha · Rolling Stone Brasil
Contexto
Nascido em Londrina, em 1951, Arrigo Barnabé teve uma formação eclética, estudando piano e disciplinas teóricas no Conservatório Musical Filadélfia. Desde a adolescência, participou de um círculo de amigos que discutia temas variados, da matemática à música, onde teve contato com obras de compositores como Stravinsky e Stockhausen, o que o levou às suas primeiras composições experimentais. Após se mudar para São Paulo em 1970 e cursar arquitetura na USP, Arrigo aprofundou seu interesse por histórias em quadrinhos, que se tornaram uma referência estética e fonte de inspiração para seus personagens. Em 1974, ingressou no curso de música da ECA-USP, onde estudou composição e piano. Sua trajetória musical pré-Clara Crocodilo incluiu a formação do conjunto Navalha, que antecipou a banda Sabor de Veneno, e a vitória no Festival Universitário da Canção da TV Cultura de São Paulo em 1979 com a canção "Diversões Eletrônicas", o que impulsionou suas apresentações pelo país.
Gravação
A produção de Clara Crocodilo não foi uma escolha deliberada de "resistência cultural", mas sim uma necessidade imposta por atritos com a gravadora Polygram. O álbum estava inicialmente previsto para ser lançado pela gravadora, como parte da série "Música Popular Brasileira Contemporânea", destinada a novos talentos. Contudo, a produção independente tornou-se a única opção, sendo realizada entre julho e setembro de 1980 no Nosso Estúdio de São Paulo, sob a direção de Robinson Borba. O lançamento oficial ocorreu em 15 de novembro do mesmo ano na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, mas sua comercialização foi atrasada devido à censura, que só liberou o disco na última semana de dezembro.
Músicas
As canções de Clara Crocodilo, exceto por "Instante", exploram com crueza e realismo a vida neurótica e desumanizante nas metrópoles brasileiras contemporâneas. O lirismo do álbum é marcadamente influenciado pelas histórias em quadrinhos, focando na contracultura marginal paulistana. Todas as faixas do LP são composições seriais. As duas canções mais antigas, a faixa-título "Clara Crocodilo" (de 1972) e "Sabor de Veneno" (de 1973), utilizam séries de oito e seis alturas, respectivamente. A partir de 1974, Arrigo Barnabé passou a empregar o dodecafonismo, técnica que foi aplicada em todas as outras faixas do álbum.

Só quem viveu o início dos anos 1980 tem uma noção mais precisa do impacto causado por este álbum.
Carlos Calado · 300 Discos Importantes
Legado
Clara Crocodilo foi aclamado pela crítica especializada como o porta-voz da "terceira revolução" da MPB, sucedendo a bossa nova e o tropicalismo. O álbum foi responsável por introduzir sistematicamente a música atonal e o dodecafonismo no universo musical brasileiro, recebendo inúmeras críticas favoráveis tanto no Brasil quanto no exterior e tornando-se uma referência entre os círculos de vanguarda. No entanto, apesar de seu reconhecimento crítico e sua posição como marco da Vanguarda Paulista, Clara Crocodilo jamais alcançou um grande sucesso popular. Em 2007, a lista dos 100 maiores discos da música brasileira, elaborada pela Rolling Stone Brasil, classificou o álbum na 51ª posição, e o próprio Arrigo Barnabé o considera seu trabalho mais consistente do ponto de vista musical.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Robinson Borba
Marcus Vinicius
Eliana Estevão, Gilberto Mifune
Passoca
Suzana Salles, Vânia Bastos
Gilson Gibson
Ubaldo Versolato
Ronei Stella
Tavinho Fialho
Mario Aydar
Marcelo Galberti
Felix Wagner
Paulo Barnabé
Bozzo Barretti
Regina Porto
Rogério Benatti
Arrigo Barnabé
Mané Silveira
Chico Guedes
Marcus Vinicius
Carlos Duttweller, Francisco Braga
Luis Gê
A. C. Tonelli
