Noon Chill

Arto Lindsay

1998

Capa de Noon Chill
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Por Que Esse Disco é Importante

Noon Chill, lançado em 1997, representa um marco significativo na discografia solo de Arto Lindsay, firmando-o como um dos mais inventivos artistas a transitar entre a experimentação de Nova Iorque e a riqueza da música brasileira. Este álbum, o terceiro em sua carreira solo, aprofunda a fusão de ritmos hipnóticos brasileiros com texturas eletrônicas e o vanguardismo que sempre caracterizou sua obra. Lindsay esculpe uma sonoridade que é ao mesmo tempo sedutora e desafiadora, com sua entrega vocal singular, por vezes descrita como “narcótica”, adornando letras enigmáticas e poéticas. O disco se destaca por sua dualidade intrigante, transmitindo uma mistura de ternura e romantismo com um certo desapego e lirismo criptográfico. Ao invés de simplesmente reproduzir gêneros, Lindsay os reinterpreta, criando uma ponte sonora única entre a MPB contemporânea e a cena avant-garde. A crítica ressaltou como os ritmos brasileiros são habilmente contrapostos por texturas de teclado, gerando uma “vantagem” musical distintiva para o álbum e infundindo-o com elementos de hip hop, skronk e jungle, tornando-o uma jornada sonora imprevisível e essencial.

Contexto

Nascido nos Estados Unidos, Arto Lindsay cresceu no Brasil durante o efervescente período da Tropicália, o que o expôs precocemente à diversidade musical e cultural do país. De volta a Nova Iorque na década de 1970, ele se tornou uma figura central na cena "no wave", co-fundando a influente banda DNA, conhecida por sua guitarra atonal e performances abrasivas. Mais tarde, com o grupo Ambitious Lovers, Lindsay começou a explorar explicitamente as conexões entre o funk, R&B, experimentalismo e a música brasileira, inclusive cantando em português pela primeira vez. A partir dos anos 90, seu envolvimento com a música brasileira se intensificou, tanto em sua própria produção quanto na colaboração com grandes nomes como Marisa Monte, Caetano Veloso, João Gilberto e Tom Zé. Noon Chill integra uma trilogia de álbuns – iniciada com O Corpo Sutil e Mundo Civilizado – nos quais Lindsay solidifica essa fusão cultural, transformando suas raízes brasileiras em um caldeirão com sua veia experimental nova-iorquina, resultando em um som que o estabeleceu como um crooner pós-bossa nova e de nova MPB.

Gravação

Noon Chill foi lançado em setembro de 1997, consolidando a fase solo de Arto Lindsay. A produção do álbum contou com a colaboração do próprio Arto Lindsay, além de 7 Cycle, Andrés Levin, Melvin Gibbs e Patrick Dillett, o que contribuiu para a riqueza e complexidade sonora do trabalho. O álbum foi lançado por selos como For Life, Bar None e Rykodisc, e foi gravado em estúdio, em formato estéreo, com uma duração total de 48 minutos e 2 segundos. Para a gravação, Lindsay reuniu uma "banda de estrelas", incluindo o baixista Melvin Gibbs, o lendário percussionista de jazz Naná Vasconcelos e Vinicius Cantuária, com a participação da cantora Sussan Deyhim. Essa formação permitiu uma execução coesa e imersiva. A experiência de Lindsay na produção de outros artistas, como o trabalho com Carlinhos Brown em "alfagaMAbetiZADO", é apontada como uma possível influência para os arranjos rítmicos mais ousados e expressivos presentes em Noon Chill.

Músicas

As treze faixas de Noon Chill são um testemunho da capacidade de Arto Lindsay em criar paisagens sonoras que desafiam categorizações. As composições são notáveis por sua dualidade, misturando ternura e um certo distanciamento, com letras que transitam entre o romântico e o hermético. Os ritmos brasileiros, leves e balançados, são habilmente “compensados” pelas texturas de teclado, conferindo um toque de vanguarda à música. Canções como "Simply Are" são elogiadas por seus marcantes "sabores brasileiros", enquanto "Ridiculously Deep" se destaca por seu groove hipnótico e trance. O álbum não hesita em explorar sonoridades do hip hop, skronk e jungle, demonstrando a inquietude criativa de Lindsay. Em contraste, a enigmática "Gods Are Weak" incorpora uma seção de sopros fúnebres, sendo uma das poucas faixas que escapam à atmosfera predominantemente sensual do disco. A entrega vocal "narcótica" de Lindsay se encaixa perfeitamente nas imagens que ele pinta em suas letras, contribuindo para a experiência sensorial e instigante do álbum.

Legado

Noon Chill é amplamente reconhecido como parte de uma fase prolífica e aclamada de seis álbuns solo de Arto Lindsay, que se estendeu de 1996 a 2004, durante a qual ele se tornou um autêntico crooner de post-bossa nova e Nova MPB. Este período criativo solidificou sua reputação como um artista que soube fundir a elegância brasileira com a vanguarda nova-iorquina, influenciando uma nova geração de músicos aventureiros, como Moreno Veloso +2 e Lucas Santtana. O álbum recebeu críticas positivas de diversas publicações, incluindo DownBeat, AllMusic, Pitchfork, Spin, Uncut e The Village Voice, com a crítica elogiando a sua originalidade e a forma como Lindsay continuava a inovar. A recepção do disco sublinhou a admiração de importantes músicos, o que se refletiu nas participações especiais de nomes como Naná Vasconcelos. A abordagem vanguardista de Lindsay, que frequentemente incluía discos de remixes de seus álbuns, fez claras as conexões entre sua estética e gêneros como drum-and-bass e hip-hop, reforçando sua influência e relevância para a música contemporânea global.

Faixas

Análises

Discogs

Noon Chill – Discogs

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