Cadê as Armas?
As Mercenárias
1986

Porque Merece Estar na Lista
Cadê as Armas?, o álbum de estreia das Mercenárias lançado em 1986, é uma pedra fundamental na história do rock brasileiro, destacando-se como um dos trabalhos mais viscerais e influentes da cena punk e pós-punk nacional. Com sua sonoridade crua e direta, o disco capturou a efervescência e o descontentamento da juventude paulistana em um período de transição política no Brasil. A banda, formada exclusivamente por mulheres, desafiou convenções com uma atitude rebelde e letras incisivas, solidificando seu lugar como um ícone atemporal.
Contexto
Formadas em São Paulo em 1982 por Sandra Coutinho (baixo), Rosália Munhoz (vocais) e Ana Machado (guitarra), As Mercenárias emergiram na vibrante cena alternativa da capital paulista em um período de efervescência cultural e política. A década de 80 marcava o fim da ditadura militar e o início da redemocratização no Brasil, um cenário propício para o surgimento de bandas de rock que expressavam a angústia e a crítica social. O grupo se destacou por uma postura que ia além da música, subvertendo normas de gênero e apresentando uma estética andrógina que incomodava e inspirava na cena underground, desafiando a indústria fonográfica e a sociedade conservadora.
Gravação
O álbum Cadê as Armas? foi gravado entre 1984 e 1985, no Estúdio Vice Versa, em um processo que buscou capturar a energia crua e direta da banda. Lançado em 1986 pelo selo independente Baratos Afins, teve a produção atribuída a Paulo Junqueiro, com Luiz Calanca, proprietário do selo, também desempenhando um papel fundamental na produção e na estética sonora do trabalho. A captação de som minimalista, mas eficaz, resultou em um disco de duração concisa, pouco mais de 18 minutos, que entregava sua mensagem de forma impactante. Um detalhe marcante na gravação foi a participação de músicos renomados da cena rock paulistana: João Gordo (Ratos de Porão), Edgard Scandurra (Ira!, que havia sido baterista original da banda) e Vange Leonel contribuíram com vocais de apoio na faixa "Santa Igreja".
Músicas
As dez faixas de Cadê as Armas? são cápsulas de energia punk e pós-punk, caracterizadas por sua brevidade, agressividade e letras poéticas e contestadoras. Canções como "Me Perco", "Polícia", "Imagem", "Inimigo" e "Pânico" se tornaram hinos de uma geração, explorando temas como alienação, crítica social e a opressão. As composições, muitas vezes com coautoria de diversos membros da banda, exibem uma sonoridade que remete a influências de bandas como Siouxsie and the Banshees e The Slits, mas com uma identidade inegavelmente brasileira. A linha de baixo marcante de Sandra Coutinho, as guitarras rascantes de Ana Machado e os vocais incisivos de Rosália Munhoz se combinam com a bateria pulsante de Lou para criar um som que é ao mesmo tempo cru e cativante. O videoclipe de "Pânico", aliás, foi o único produzido pela banda, eternizando a estética e a atitude do grupo.
Legado
Cadê as Armas? não é apenas um disco de estreia, mas uma obra que reverberou intensamente e se solidificou como um marco. Em julho de 2016, a revista Rolling Stone Brasil elegeu-o como o 5º melhor álbum de punk rock do Brasil, um reconhecimento que sublinha sua importância duradoura. O disco é amplamente considerado um dos mais importantes registros da música brasileira, transcendendo barreiras e conquistando reconhecimento global ao ser incluído em diversas coletâneas internacionais. Sua influência se estendeu para além das fronteiras nacionais, com a coletânea "O Começo do Fim do Mundo/The Beginning of the End of the World", que trazia faixas do álbum, despertando o interesse de críticos americanos e ingleses pela cena pós-punk brasileira dos anos 80. O álbum, que ficou esgotado por anos, foi relançado em CD em 1995 com faixas bônus ao vivo e, posteriormente, em vinil, confirmando seu status de "joia" a ser redescoberta por novas gerações. A "atitude do it yourself" e a sinceridade das quatro garotas no longínquo ano de 1986 permanecem como uma "aula para bandas iniciantes", especialmente para artistas femininas que buscam sua voz no cenário do rock.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Luiz Carlos Calanca
As Mercenárias, Edgard Scandurra, Peter Price
Edgard Scandurra, João Gordo, Marcinha Montserrat, Vange Leonel
Edgard Scandurra
Edgard Scandurra, Peter Price
Rosália Munhoz
Sandra Coutinho
Lou
Ana Maria Machado
Nico Bloise, Zé "Heavy" Luiz
Michel Spitale
As Mercenárias, Michel Spitale
Rui Mendes
