Esú
Baco Exu do Blues
2017

Porque Merece Estar na Lista
Lançado em 4 de setembro de 2017, Esú é o álbum de estreia do rapper baiano Baco Exu do Blues e marcou sua ascensão no cenário musical brasileiro. O disco é uma obra profundamente pessoal e provocadora, que consolidou a identidade artística de Baco e sua "poesia de escória", repleta de metáforas potentes e uma lírica crua e poética. Ele se destaca pela maneira como aborda temas complexos como empoderamento negro, religiosidade de matriz africana, confissões românticas e a busca por transformação pessoal, tudo isso permeado por uma sonoridade inovadora que mistura hip hop, trap e elementos da música brasileira. Esú é um mergulho nas inquietações de Baco, onde ele explora a dualidade entre o sagrado e o profano, o divino e o humano, refletindo sobre a identidade negra e a vida em Salvador. O título do álbum, um jogo de palavras entre "Jesus" e "Exu", já indica a postura desafiadora e o sincretismo que permeiam a obra. Com este trabalho, Baco não apenas ampliou seu domínio criativo, mas também dialogou com um público vasto, oferecendo uma das obras mais impactantes do rap nacional recente.
Contexto
Diogo Álvaro Ferreira Moncorvo, o Baco Exu do Blues, começou a ganhar proeminência na cena do rap brasileiro em 2016 com o lançamento da faixa "Sulicídio", em colaboração com Diomedes Chinaski. Essa música foi um manifesto crítico ao cenário do rap nacional, que, segundo eles, era concentrado nas regiões Sudeste, reivindicando maior visibilidade para a produção musical do Nordeste e Norte. A gravação de Esú ocorreu em um período conturbado na vida de Baco, que, em suas próprias palavras, estava saindo de uma depressão. O álbum, portanto, é um reflexo visceral e honesto das provações e sentimentos conflitantes que o artista enfrentava, marcando uma fase de transição e autoconhecimento após a repercussão de "Sulicídio".
Gravação
A produção musical de Esú ficou predominantemente a cargo do beatmaker Nansy Silvvs, que contribuiu significativamente para a sonoridade única do álbum. A "Intro", faixa de abertura, contou com a produção de Scooby Mauricio na base e scratches de KL Jay, dos Racionais MC's, adicionando uma camada de profundidade e prestígio ao projeto. O disco foi gravado, mixado e masterizado no Cremenow Studio por TAS. Esú se destaca pela tapeçaria fina de samples e pela base instrumental rica, que mescla elementos da música nordestina com o trap contemporâneo de Atlanta, percussão tribal e ritmos regionais. A busca por uma sonoridade própria, que reverberasse suas raízes nordestinas e africanas, foi central para Baco e Nansy Silvvs, resultando em arranjos que incorporam desde batuques de maracatu até o choro da guitarra baiana e referências ao candomblé, criando uma experiência sinestésica para o ouvinte.
Músicas
As faixas de Esú são um mosaico de referências culturais, literárias e religiosas, costuradas pela lírica densa de Baco. A música "Esú", que dá título ao álbum, é um misto de autoafirmação e autoconhecimento, onde o artista se declara "metade homem, metade Deus", abordando a dualidade e o medo que sua figura provoca. Ela faz referências a poetas como Machado de Assis e Arthur Rimbaud, e divindades como Xangô e Thor, demonstrando a vasta gama de influências de Baco. "Te Amo Disgraça" se tornou um dos maiores sucessos do álbum e da carreira de Baco, elogiada por sua abordagem "romantismo torto e profundamente honesto" sobre relacionamentos, fugindo dos clichês e explorando a realidade crua do amor. Outras faixas notáveis incluem "Abre Caminho", que mescla críticas ao racismo e intolerância religiosa com um beat envolvente, e "Capitães de Areia", inspirada na obra de Jorge Amado, que traça paralelos entre a vida dos meninos de rua de Salvador e a própria trajetória do rapper. A obra ainda explora a vulnerabilidade em "A Pele Que Habito", onde Baco se permite sangrar e sofrer como homem, e a "Intro", com a participação de KL Jay, que serve como um monólogo poético sobre as origens africanas e o homem negro. A canção "Oração à Vitória" (originalmente presente e depois excluída por questões de direitos autorais) também se destacava pelas citações a artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Nação Zumbi, evidenciando a intertextualidade rica do álbum.
Legado
Esú foi recebido com entusiasmo pela crítica e pelo público, sendo amplamente considerado um dos álbuns mais importantes do rap nacional recente. O disco garantiu a Baco Exu do Blues o prêmio de Artista Revelação no Prêmio Multishow de Música Brasileira em 2017, onde a faixa "Te Amo Disgraça" também foi eleita a Canção do Ano pelo júri. No mesmo ano, o álbum figurou entre os 50 melhores de 2017 da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), e "Te Amo Disgraça" foi indicada na categoria Música, concorrendo com grandes nomes da MPB. O sucesso de Esú se traduziu em reconhecimento popular e comercial; o single "Te Amo Disgraça", por exemplo, recebeu certificação de diamante por vendas, totalizando mais de 280 milhões de execuções nas plataformas digitais, demonstrando a enorme popularidade da música. O álbum não só projetou Baco nacionalmente, mas também solidificou seu estilo e abordagem, influenciando a cena do rap com sua "poesia de escória" e a forma como misturava elementos sagrados, profanos e autobiográficos. O impacto de Esú é tal que, em 2022, Baco Exu do Blues foi indicado ao Latin Grammy Awards, e, mesmo não sendo para Esú diretamente, a notoriedade de seu trabalho de estreia pavimentou o caminho para tais reconhecimentos. A obra é citada como um marco que "abriu as portas" de Baco no cenário nacional, redefinindo o que se esperava do rap e da música brasileira.