Boca Livre

Boca Livre

1979

Capa de Boca Livre
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

O álbum de estreia homônimo do Boca Livre, lançado em 1979, é um marco indelével na história da música brasileira, destacando-se não apenas pela sua beleza estética, mas também pelo seu caráter pioneiro no cenário independente. Em uma época dominada pelas grandes gravadoras, o quarteto ousou lançar um trabalho com arranjos vocais e instrumentais sofisticados, um repertório refinado e total liberdade artística, bancando a produção do próprio bolso. Este disco exala uma sonoridade límpida e arranjos certeiros, que juntos criam uma atmosfera de positividade e leveza. O estilo refinado do Boca Livre se manifesta em suas composições e nas versões de obras de outros artistas, caracterizado pelo uso de acordes vocais dissonantes e revezamentos nos solos, fugindo da métrica convencional de outros grupos. O álbum não só provou que a música de alta qualidade e com autonomia artística podia encontrar seu público, mas também se tornou um fenômeno comercial, superando todas as expectativas para uma produção independente.

Contexto

O grupo Boca Livre foi formado no Rio de Janeiro em 1978, reunindo os talentos de Maurício Maestro (contrabaixo e vocal), Zé Renato (violão e vocal), Cláudio Nucci (violão e vocal) e David Tygel (viola de 10 cordas e vocal). Antes de gravar seu álbum de estreia, o quarteto já havia participado do disco "Camaleão", de Edu Lobo, no mesmo ano de sua formação, e excursionado com o compositor através do prestigiado Projeto Pixinguinha. Naquele período, o mercado fonográfico brasileiro era cético quanto ao sucesso de grupos vocais com propostas musicais mais elaboradas, especialmente sem o apoio de grandes selos. Diante do desinteresse das gravadoras convencionais, os integrantes do Boca Livre tomaram a decisão audaciosa de financiar e produzir o álbum de forma totalmente independente, um feito raro e desafiador para a época.

Gravação

O processo de gravação e mixagem do álbum Boca Livre aconteceu entre os meses de julho e agosto de 1979, nos estúdios da Sono-Viso do Brasil, no Rio de Janeiro. A produção do disco foi uma empreitada do próprio grupo, através da recém-criada Boca Livre Produções e Gravações Ltda., reforçando o espírito de independência do projeto. Maurício Maestro, um dos fundadores do quarteto, foi o responsável pelos complexos e inovadores arranjos vocais e instrumentais que se tornariam uma marca registrada do grupo. A gravação e mixagem ficaram a cargo de Toninho Barbosa, um renomado técnico de som com vasta experiência no movimento da música independente. O disco contou ainda com a participação de dezesseis músicos convidados, enriquecendo ainda mais a sonoridade das faixas. A adaptação para CD, anos mais tarde, foi realizada digitalmente por Zé Nogueira.

Músicas

O repertório do álbum Boca Livre é uma rica tapeçaria de composições próprias e de talentosos nomes da MPB, incluindo Nelson Angelo, Toninho Horta, Milton Nascimento, Fernando Brant, Cacaso, Geraldo Azevedo e Joyce. Os próprios membros da formação original, como Zé Renato, Cláudio Nucci, David Tygel e Maurício Maestro, assinam cinco das onze canções do disco, que totaliza 33 minutos e 37 segundos de duração. Entre as faixas que se tornaram grandes clássicos, destacam-se "Toada" (Zé Renato, Cláudio Nucci e Juca Filho), "Quem Tem a Viola" (Zé Renato, Xico Chaves, Cláudio Nucci e Juca Filho), "Mistérios" (Maurício Maestro e Joyce) e "Diana" (Toninho Horta e Fernando Brant). A interpretação de "Ponta de Areia" (Milton Nascimento e Fernando Brant) também é frequentemente citada pela primorosa harmonia vocal. As letras e melodias demonstram uma preocupação com a beleza poética e o violão como instrumento central de criação, resultando em uma coleção de canções que o público abraçou imediatamente.

Legado

O lançamento de Boca Livre em 1979 foi um divisor de águas na indústria fonográfica brasileira, tornando-se o disco independente mais vendido da história do país até então, com mais de 100 mil cópias comercializadas, chegando a 150 mil segundo algumas fontes. Esse feito notável demonstrou a viabilidade de produções fora do circuito das grandes gravadoras. Diversas canções do álbum se consolidaram como clássicos da MPB, como "Toada", "Quem Tem a Viola", "Mistérios" e "Diana", que tiveram grande repercussão, inclusive sendo incluídas em trilhas sonoras de novelas. O reconhecimento da importância do álbum se estende até os dias atuais: em uma enquete do podcast Discoteca Básica com 162 especialistas musicais, o disco foi classificado na 277ª posição na lista dos "500 maiores álbuns brasileiros de todos os tempos", sendo a única obra do Boca Livre mencionada. Em 2023, o álbum foi relançado digitalmente, reafirmando sua relevância contínua para novas gerações de ouvintes.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Arranjo [Vocals, Instrumental]

Mauricio Maestro

Produção

Boca Livre

Composição

Cacaso, Carlos Fernando, Claudio Nucci, David Tygel, Fernando Brant, Geraldo Azevedo, Joyce, Juca, Lourenço Baeta, Mauricio Maestro, Milton Nascimento, Nelson Angelo, Oduvaldo Viana Filho, Toninho Horta, Xico Chaves, Zé Renato

Acoustic Guitar [Viola], Violão, Vocais

David Tygel

Violão, Acoustic Guitar [Viola], Vocais

Claudio Nucci

Violão, Vocais

Zé Renato

Baixo, Vocais

Mauricio Maestro

Gravação, Mixagem

Toninho Barbosa

Referências

Livros