Caetano Veloso (1971)
Caetano Veloso
1971

Porque Merece Estar na Lista
O álbum Caetano Veloso, lançado em 1971 pela Philips, representa um marco singular na discografia do artista. Sendo o seu terceiro trabalho solo, ele é um testemunho musical do período de exílio político de Caetano Veloso em Londres. Diferente da efervescência de seus discos anteriores, este álbum é permeado por uma melancolia profunda, refletindo a experiência de afastamento de sua terra natal. Distinto pela predominância de canções cantadas em inglês, o trabalho oferece uma janela para a alma do músico em um momento de introspecção e busca por novas formas de expressão. Sua atmosfera contemplativa e as letras, muitas vezes em outro idioma, marcam uma fase de reinvenção e sensibilidade artística.
Contexto
Entre 1969 e 1971, Caetano Veloso viveu em Chelsea, no coração de Londres, forçado ao exílio pela ditadura militar brasileira. Compartilhando residência com seu amigo e também exilado Gilberto Gil, suas esposas e seu gerente, o músico buscava um refúgio que também oferecesse um ambiente musical inspirador. Após descartar Lisboa, Madri e até Paris, esta última por sua cena musical tida como "entediante" por Gilberto, Londres foi escolhida como a cidade ideal para os artistas. O primeiro ano de exílio foi marcado por desânimo e intensa saudade do Brasil para Caetano, apesar de uma rica imersão no cenário musical londrino, que incluiu shows dos The Rolling Stones e o primeiro contato com o reggae. Neste período, o produtor Ralph Mace, recém-saído da Philips Records, propôs a Caetano a gravação de um disco em inglês. O projeto contou inicialmente com a colaboração de Lou Reizner, que, apesar de desentendimentos e sua saída posterior, manteve seu nome nos créditos finais do álbum.
Gravação
O álbum foi gravado em 1970 e marcou uma novidade significativa na carreira de Caetano Veloso: foi a primeira vez que ele tocou violão em um de seus discos, por incentivo do produtor Ralph Mace. Em trabalhos anteriores, os produtores não o autorizavam a executar o instrumento, levando o artista a refletir mais tarde que, sem o exílio, talvez nunca tivesse gravado tocando violão. Apesar de Caetano ter sugerido que Gilberto Gil tocasse violão após apresentar a faixa "London London" a Ralph, o produtor insistiu que a canção perderia seu encanto se não fosse tocada pelo próprio Caetano. O artista, embora inseguro quanto às suas habilidades, foi convencido por Ralph e Lou Reizner de que as imperfeições em sua técnica eram, na verdade, parte do "charme da música".
Músicas
O álbum apresenta uma maioria de canções interpretadas em inglês, uma particularidade que reflete o contexto de exílio de Caetano Veloso. Entre as faixas, "Maria Bethânia" destaca-se como uma homenagem à irmã do cantor, com letras que expressam um pedido de notícias do Brasil e um engenhoso jogo de palavras, transformando o termo anglófono "better" no segundo nome da irmã. A parte instrumental desta canção é enriquecida por improvisações do artista, acompanhado pelo mesmo quarteto de cordas que contribuiu para "Eleanor Rigby", dos Beatles. Outros momentos notáveis incluem a colaboração de Gilberto Gil na composição de "In the Hot Sun of a Christmas Day" e a interpretação de "Asa Branca", um clássico de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, que se estende por mais de sete minutos e incorpora trechos de "Marinheiro Só" e "Quero Voltar pra Bahia".
Legado
Caetano Veloso de 1971 enfrentou a censura da ditadura militar brasileira, com a faixa de abertura "A Little More Blue" tendo parte de sua letra vetada devido à menção de "Libertad Lamarque", erroneamente interpretada pelos censores como uma alusão a "liberdade" e ao opositor Carlos Lamarca. A canção "London, London" alcançou grande repercussão, sendo regravada pela banda de rock RPM em 1986 no álbum Rádio Pirata ao Vivo. O jornalista Mauro Ferreira chegou a alegar que o sucesso "Che Sarà", de Jimmy Fontana, seria um plágio desta música. Em uma reflexão em 2010, Caetano Veloso descreveu o álbum como um "documento da depressão", mas também reconheceu que a experiência do exílio e a criação deste trabalho o ajudaram a se tornar um músico mais criativo e uma pessoa mais forte. Em 2021, para celebrar os 50 anos do disco, o artista revisitou "London, London" e outras faixas em uma apresentação ao vivo, enquanto o jornalista Mauro Ferreira, em uma análise sobre o cinquentenário do álbum, o aclamou como "a mais perfeita tradução da alma triste do artista no período do exílio".
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Phil Ryan
Lou Reizner, Ralph Mace
John Iles, John Timperley
Linda Glover
Johnny Clamp