Caetano Veloso (1986)

Caetano Veloso

1986

Capa de Caetano Veloso (1986)
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

O álbum Caetano Veloso, lançado em 1971, representa um marco singular na discografia do artista, sendo o terceiro trabalho solo editado pela Philips. Composto integralmente durante seu exílio político em Londres, este disco capta a essência de um período de introspecção e melancolia, distanciando-se do vibrante experimentalismo de seus trabalhos anteriores. Sua sonoridade introspectiva e o uso predominante da língua inglesa conferem-lhe um caráter particular e uma atmosfera de reflexão profunda. Este trabalho não é apenas um registro musical, mas um espelho da alma de Caetano em um momento de deslocamento e saudade. Ele oferece uma perspectiva única sobre a experiência do exílio, transmutando sentimentos de desânimo em canções que, apesar da tristeza inerente, demonstram a resiliência e a capacidade criativa do artista diante das adversidades. É um disco que se destaca pela sua honestidade emocional e pela forma como Caetano explorou novas linguagens e sonoridades.

Contexto

Entre 1969 e 1971, Caetano Veloso viveu exilado em Chelsea, Londres, devido à ditadura militar brasileira. Ele dividiu residência com seu amigo e também exilado, Gilberto Gil, suas esposas e o gerente do grupo. A escolha por Londres ocorreu após a rejeição de Lisboa e Madrid, por estarem sob regimes ditatoriais, e Paris, cuja cena musical foi considerada "entediante" por Gilberto. O primeiro ano do exílio foi marcado por um profundo desânimo e saudade do Brasil para Caetano, embora ele e Gil tenham circulado ativamente pelo cenário musical londrino, assistindo a shows de bandas como The Rolling Stones e tendo seu primeiro contato com o reggae. Nesse período, Caetano foi abordado por Ralph Mace, ex-produtor da Philips Records no Brasil, que o convidou para gravar um disco em inglês. O projeto contou com a participação inicial do colega Lou Reizner, que se desligaria no final devido a desentendimentos, mas manteve seu nome nos créditos.

Gravação

O álbum foi gravado em 1970 e marcou a primeira vez que Caetano Veloso tocou violão em um de seus discos, algo incentivado por Ralph Mace. Em lançamentos anteriores, os produtores não o autorizavam a executar o instrumento, e Caetano chegou a afirmar que, se não tivesse sido preso e exilado, talvez nunca o tivesse feito. Inicialmente inseguro quanto às suas habilidades, Caetano chegou a sugerir que Gilberto Gil tocasse violão na faixa "London London". No entanto, Ralph Mace o convenceu de que suas "lacunas" eram, na verdade, o "charme da música", e que a canção "perderia a graça" se outra pessoa a tocasse.

Músicas

A faixa "Maria Bethânia" se destaca como uma emocionante dedicatória à irmã do artista, com uma letra em que Caetano pede notícias do Brasil e poeticamente transforma a palavra anglófona "better" no segundo nome dela. Musicalmente, a canção apresenta improvisações de Caetano acompanhadas pelo mesmo quarteto de cordas que participou da gravação de "Eleanor Rigby" dos The Beatles. O álbum também inclui "A Little More Blue", que foi alvo de censura parcial pela ditadura brasileira devido a uma interpretação equivocada de militares sobre a menção à atriz Libertad Lamarque. O disco é complementado por faixas como a icônica "London, London" e uma particular versão de "Asa Branca", que incorpora trechos de "Marinheiro Só" e "Quero Voltar pra Bahia", demonstrando a fusão de referências culturais presente na obra.

Legado

A faixa "A Little More Blue" sofreu censura parcial da ditadura militar brasileira, que interpretou a menção à atriz Libertad Lamarque como uma alusão à liberdade do opositor Carlos Lamarca. "London, London" ganhou nova vida em 1986 ao ser regravada pela banda de rock RPM no álbum Rádio Pirata ao Vivo. O jornalista Mauro Ferreira chegou a alegar que o sucesso "Che Sarà", de Jimmy Fontana, seria um plágio de "London, London", conhecido pelo italiano através de Gal Costa no Brasil. Em 2010, Caetano Veloso revisitou o álbum, descrevendo-o como "um documento da depressão" e expressando uma apreciação tardia pela obra. Segundo ele, a música feita durante o exílio o ajudou a se tornar um músico mais criativo e uma pessoa mais forte. Para celebrar os 50 anos do disco, Caetano realizou uma live em 7 de março de 2021, no Festival Cultura Inglesa, interpretando "London, London", "If You Hold a Stone" e outras canções de seu período de exílio. A crítica também reconhece a profundidade do trabalho; Mauro Ferreira, em análise sobre os 50 anos do disco, o classificou como "a mais perfeita tradução da alma triste do artista no período do exílio".

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Vocais, Guitarra

Caetano Veloso

Guitarra

Toni Costa

Percussão

Armando Marçal, Marcelo Costa

Masterização

Bob Ludwig

Referências