Cinema Transcendental

Caetano Veloso

1979

Capa de Cinema Transcendental
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Cinema Transcendental, lançado em 1979, representa um marco fundamental na trajetória de Caetano Veloso, sinalizando uma transição significativa em sua obra após um período de experimentações mais radicais. O álbum marcou o reencontro de Caetano com um público mais amplo e com a crítica, que o acolheu com entusiasmo após a recepção mista de trabalhos anteriores como Bicho e Muito (Dentro da Estrela Azulada). Este disco "ensolarado" e repleto de clássicos pavimentou o caminho para a sonoridade que dominaria a carreira do artista na década seguinte. Com uma fusão rica de estilos que abraça o pop, a bossa nova, o samba e o jazz, Cinema Transcendental se destaca por seus arranjos imaginativos e melodias cativantes, que sustentam letras de profundo poder lírico. Tárik de Souza, do Jornal do Brasil, capturou a essência dessa virada ao afirmar que, "cansado de ser moderno, no sentido vanguardista do termo, Caetano Veloso, seguindo a lição do poeta Carlos Drummond, preferiu eternizar-se. Para encurtar caminho, resolveu logo cantar a transcendência", sublinhando a busca por uma beleza mais universal e atemporal.

#66

O sucesso de faixas como “Lua de São Jorge”, “Badauê”, “Menino do Rio”, “Beleza Pura”, “Cajuína”, “Oração ao Tempo” e “Trilhos Urbanos” deu uma guinada na carreira de Caetano.

Antônio do Amaral Rocha · Rolling Stone Brasil

Leia mais

Contexto

O lançamento de Cinema Transcendental em 1979 se deu em um momento de profundas transformações no Brasil. O país vivia o processo de "abertura política" após anos de ditadura militar, um período marcado pela censura e repressão cultural. A Lei da Anistia, aprovada em agosto daquele ano, foi um divisor de águas, permitindo o retorno de exilados e marcando o início da redemocratização. Caetano Veloso, ele próprio um exilado do regime militar, navegava um período desafiador em sua carreira pós-retorno ao Brasil. Após a efervescência tropicalista e discos introspectivos durante o exílio, ele buscou novos caminhos sonoros. Seus álbuns de meados da década de 70, como Araçá Azul (1973), Bicho (1977) e Muito (Dentro da Estrela Azulada) (1978), embora artisticamente relevantes, por vezes flertaram com a experimentalidade e não tiveram a mesma ressonância de crítica e público que trabalhos anteriores ou posteriores. Cinema Transcendental representou, assim, não apenas um sucesso comercial, mas uma reconciliação com a imprensa e um abraço mais caloroso do grande público.

Gravação

O álbum Cinema Transcendental foi gravado entre os meses de julho e setembro de 1979, nos estúdios da Polygram, no Rio de Janeiro. A produção ficou a cargo do próprio Caetano Veloso, demonstrando seu controle artístico sobre o trabalho. Os arranjos de base foram desenvolvidos em colaboração com A Outra Banda da Terra, seu grupo de apoio na época, que teve participação ativa na concepção sonora do disco. A Outra Banda da Terra era composta por Tomás Improta nos teclados, Arnaldo Brandão no baixo, Vinicius Cantuária na bateria e Edu (Bolão) Gonçalves na percussão. O álbum contou com participações especiais de nomes importantes como Dominguinhos, que trouxe seu inconfundível acordeão em faixas como "Oração ao Tempo" e "Cajuína", Perinho Santana, Tony Costa e Paulão Zdanowski. Os arranjos se destacaram pela mescla de elementos acústicos e elétricos, utilizando violão (tanto em sua forma natural quanto modificado), guitarra, teclado e bateria nas canções pop, enquanto as faixas mais intimistas e regionais exploravam o violão sem efeitos, acompanhado por percussão e instrumentos como a sanfona ou a flauta de bambu. A icônica fotografia da capa, que mostra Caetano de costas olhando para o mar e o céu, não foi inicialmente pensada para o disco, mas acabou sendo escolhida pelo artista por se alinhar perfeitamente com a ideia e o título de Cinema Transcendental, e também com a letra de "Lua de São Jorge".

Músicas

Cinema Transcendental é uma coleção de canções que se tornaram clássicos da MPB, com "Lua de São Jorge", "Oração ao Tempo" e "Beleza Pura" despontando como grandes sucessos. "Lua de São Jorge" abre o disco com uma atmosfera de celebração, com sua melodia suingada e letra que saúda a lua como um símbolo da identidade brasileira. "Oração ao Tempo" é notável por sua gênese singular, onde Caetano compôs a melodia após escrever as estrofes como um poema, repetindo a estrutura musical para todas as partes, resultando em uma das canções mais regravadas de seu repertório. "Beleza Pura" foi um hit antes mesmo de ser gravada por Caetano, impulsionada pelo grupo A Cor do Som, e no disco ganhou uma roupagem influenciada pelo ijexá. Outras pérolas incluem "Menino do Rio", igualmente popular e interpretada por diversos artistas, a intensa "Vampiro" de Jorge Mautner, e a poética "Elegia", com versos de Augusto de Campos. O disco transita com fluidez entre formatos pop e momentos mais experimentais, regionais ou intimistas, exemplificados por "Cajuína" e "Badauê", esta última uma homenagem ao mestre Môa do Catendê. A habilidade de Caetano em harmonizar poesia, melodia e arranjo com simplicidade e profundidade lírica é uma constante ao longo do álbum.

Legado

Cinema Transcendental consolidou-se como um dos álbuns mais importantes da música brasileira, sendo consistentemente reconhecido em diversas listas de prestígio. Ele figura na 66ª posição na lista da Rolling Stone Brasil dos "100 Maiores Discos da Música Brasileira" e alcançou a 68ª colocação em uma enquete com 162 especialistas musicais conduzida pelo podcast Discoteca Básica. O álbum representou uma verdadeira "virada nas vendas" para Caetano Veloso, expandindo significativamente seu público e sua aceitação comercial após um período de recepção mais complexa. A crítica especializada, como a de Tárik de Souza, foi majoritariamente positiva, enaltecendo a maturidade e a transcendência poética alcançadas pelo artista. Mais do que um sucesso de vendas e crítica, Cinema Transcendental firmou a identidade de Caetano na era pós-exílio e contribuiu para redefinir os rumos da MPB no final dos anos 70, com muitas de suas canções sendo amplamente regravadas e permanecendo vivas no repertório de diversos artistas e no imaginário popular. O sucesso do disco também impulsionou uma fase de turnês mais regulares para Caetano.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Arranjo

A Outra Banda Da Terra, Caetano Veloso

Produção

Caetano Veloso

Vocais de Apoio

Lucia Turnbull, Marizinha, Paulo Zdanowski, Regina A.S. Souza, Solange, Viviane Godoi

Vocais, Guitarra

Caetano Veloso

Baixo

Arnaldo Brandão

Bateria

Vinicius Cantuária

Teclados

Tomas Improta

Percussão

Carlos Eduardo Gonçalves

Mixagem

Jairo Pires, Luis Cláudio Coutinho

Gravação

Luis Cláudio Coutinho, Paulinho Chocolate

Arte

Mariano Martins

Capa

Aldo Luiz

Fotografia

Robert Feinberg

Podcasts

Referências

Livros