Tropicália 2

Caetano Veloso e Gilberto Gil

1993

Capa de Tropicália 2
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Tropicália 2, lançado em agosto de 1993, representa um marco significativo na carreira de Caetano Veloso e Gilberto Gil, celebrando os 25 anos do seminal disco-manifesto *Tropicalia ou Panis et Circencis*. Longe de ser uma mera revisitação nostálgica, o álbum demonstra a contínua vitalidade artística dos dois ícones, que souberam reinterpretar e expandir o espírito antropofágico do Tropicalismo. Eles misturaram a riqueza da música brasileira com a sonoridade global emergente, incorporando elementos de música eletrônica, rap e axé music, ao lado de gêneros tradicionais como a bossa nova. O trabalho é um testemunho da capacidade de Caetano e Gil de se manterem relevantes e inovadores, criando uma ponte entre o passado revolucionário do movimento e as novas linguagens musicais que despontavam. O resultado é um álbum que soa simultaneamente enraizado na cultura brasileira e universalmente contemporâneo, reiterando a abordagem de assimilar o estrangeiro sem submissão, mas sim devorando-o e misturando-o com o nacional.

Contexto

O álbum *Tropicália 2* foi concebido como uma celebração dos 25 anos do Tropicalismo, movimento cultural e libertário que revolucionou a música brasileira a partir de 1968, liderado por Caetano e Gil. Inicialmente, a ideia de um disco conjunto surgiu em 1992, para comemorar os cinquenta anos de ambos os artistas, mas a incompatibilidade de suas agendas adiou o projeto. A retomada do ideário tropicalista, que mesclava o popular e o erudito, o nacional e o estrangeiro, e o lírico com o engajamento social, foi a base para a criação deste álbum. O movimento original havia promovido uma ruptura fundamental na tradição musical brasileira, então dominada pela bossa nova, estabelecendo um novo paradigma que resgatava a identidade cultural do país ao mesmo tempo em que absorvia a cultura internacional.

Gravação

As sessões de gravação de *Tropicália 2* ocorreram entre março e maio de 1993, em estúdios no Rio de Janeiro (Nas Nuvens e Polygram) e em Salvador (WR Salvador), evidenciando a conexão com as raízes baianas dos artistas. A produção do álbum foi uma colaboração entre Caetano Veloso, Gilberto Gil e o experiente produtor Liminha, que é historicamente associado ao movimento tropicalista. Para esta empreitada, Caetano e Gil convocaram um time de músicos renomados, incluindo violonistas como Celso Fonseca e Raphael Rabello, baixistas como Dadi Carvalho e Arthur Maia, percussionistas como Carlinhos Brown e Ramiro Musotto, e sopros como Léo Gandelman, Marcio Montarroyos e Serginho Trombone. A produção foi conduzida com maestria e as gravações foram mantidas sob sigilo, gerando grande expectativa tanto na imprensa quanto no público sobre o que os dois ícones apresentariam.

Músicas

O álbum abre com "Haiti", uma faixa poderosa de Caetano Veloso e Gilberto Gil que não apenas aborda o racismo na sociedade brasileira, mas também faz uma crítica contundente ao desrespeito dos motoristas brasileiros às leis de trânsito. Essa crítica teve um impacto tão notável que levou Caetano a participar de uma série de TV educativa sobre trânsito em 1994, e os radares de semáforo no Brasil foram apelidados popularmente de "caetano". Caetano revelou que a estrutura principal da canção, incluindo o 'rap' e a melodia, era sua, com Gil contribuindo com um riff crucial que "diz tudo". "Cinema Novo", outro destaque, é um samba que celebra o movimento cinematográfico homônimo, com versos que exaltam a forma como as imagens do cinema brasileiro influenciaram as letras das canções. O disco também apresenta um lado experimental com "Rap Popcreto", de Caetano Veloso, uma colagem de fragmentos líricos, e "Dada", uma parceria com Gilberto Gil que se destaca por seu arranjo minimalista com violoncelo. Além disso, há regravações como "Nossa Gente", de Roque Carvalho, que acena para a axé music, e a versão de "Wait Until Tomorrow", de Jimi Hendrix.

Legado

Comercialmente, *Tropicália 2* foi bem-sucedido, impulsionado pelo reencontro de Caetano Veloso e Gilberto Gil em estúdio e pelo título que remetia ao movimento seminal. A recepção crítica, conforme indicado por Alvaro Neder da AllMusic, considerou o álbum um "bom entretenimento" e, em seus melhores momentos, "boa Arte", destacando seu coração melódico e sua "consciência social". Outras análises o descreveram como um disco simpático, com momentos grandiosos como a sequência de "Haiti" e "Cinema Novo". O impacto de canções como "Haiti" transcendeu o universo musical, influenciando a linguagem popular no Brasil, onde os aparelhos de fiscalização de trânsito que fotografam veículos que ultrapassam o sinal vermelho passaram a ser chamados de "caetano". O álbum ratificou a capacidade contínua de Caetano e Gil de explorar novas linguagens artísticas, conectando o legado tropicalista a expressões contemporâneas como o rap e o axé music, e consolidando a influência duradoura do Tropicalismo sobre as gerações posteriores de artistas. O lançamento foi seguido por uma bem-sucedida turnê, que incluiu apresentações com banda e formato voz e violão, em shows no Brasil e internacionalmente.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Coprodução [Assistente de Produção]

Fafá Giordano

Produção

Caetano Veloso, Gilberto Gil, Liminha

Edição [Montagem]

Ricardo Garcia

Engenheiro de Som [Assistente de Estúdio]

Guilherme Calicchio, Paquetá, Renato Muñoz, Sergio Chataigner

Engenheiro de Som [Engenheiro de Gravação]

Antoine Midani, Eduardo Chermont, Liminha, Mauro Bianchi, Paulo Junqueiro, Vitor Farias

Masterização

Chris Bellman

Mixagem

Liminha, Paulo Junqueiro, Vitor Farias

Coordenação

Beth Araújo

Capa

Flávio Colker, Luiz Stein

Fotografia

Flávio Colker

Referências

Livros