Estrangeiro

Caetano Veloso

1989

Capa de Estrangeiro
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Lançado em 1989, Estrangeiro de Caetano Veloso representa um divisor de águas em sua vasta discografia, marcando um período de profunda experimentação e de abertura a sonoridades contemporâneas e globais. O álbum se destaca por sua fusão ousada de elementos da MPB tradicional com influências da world music, jazz e ritmos étnicos, particularmente africanos, que transcendem as fronteiras musicais conhecidas até então. É um trabalho que solidifica a capacidade de Caetano de dialogar com o universo musical sem perder sua identidade intrínseca e sua veia poética. Este disco é amplamente reconhecido como um dos pontos altos da produção de Caetano na década de 1980, que, apesar de também ter produzido obras mais leves, culminou nesta joia vanguardista. A produção internacional conferiu-lhe uma sonoridade desafiadora e vertiginosa, que convida o ouvinte a uma imersão em paisagens sonoras complexas e inovadoras, consolidando a posição de Veloso como um artista em constante reinvenção e profundamente conectado com as correntes culturais de sua época.

Contexto

Na transição dos anos 1980 para os 1990, Caetano Veloso já era uma figura de proa da música brasileira, com uma carreira consolidada desde os anos 60 e um histórico de ativismo político que por vezes o levou ao exílio. No entanto, sua arte nunca se estagnou, buscando incessantemente novos diálogos e estéticas. Bob Hurwitz, presidente do selo americano Nonesuch, que já havia trabalhado com Caetano em um disco anterior gravado em Nova York, manifestou interesse em uma nova colaboração. Paralelamente, o músico e produtor Arto Lindsay, que tinha uma forte ligação com o Brasil e uma grande admiração pelo Tropicalismo, desejava produzir um álbum de Caetano que pudesse projetar os preceitos tropicalistas a um reconhecimento internacional. Esse encontro de vontades e a inclinação de Caetano para a experimentação resultaram na concepção de Estrangeiro, um álbum que reflete a trajetória de um artista global, mas sempre enraizado em temas e anseios brasileiros, fechando uma década de intensa criatividade.

Gravação

O álbum Estrangeiro foi majoritariamente gravado em Nova York, no final de 1989, sob a batuta dos produtores Peter Scherer e Arto Lindsay. Essa parceria de produção foi crucial, pois Scherer e Lindsay eram conhecidos por seu trabalho com o duo Ambitious Lovers, que explorava uma fusão de música brasileira, disco e elementos da vanguarda nova-iorquina, trazendo essa sensibilidade experimental para o projeto de Caetano. O processo de gravação contou com um elenco estelar de músicos, tanto internacionais quanto brasileiros. Nomes como Naná Vasconcelos, Carlinhos Brown, Bill Frisell e Marc Ribot adicionaram camadas de riqueza e texturas únicas à sonoridade do disco. Embora a maior parte tenha ocorrido em estúdios nova-iorquinos como Skyline Studios e Platinum Island Studios, Caetano Veloso menciona que algumas partes foram gravadas no Brasil para incluir Carlinhos Brown e bateristas locais, com a mixagem e masterização finalizadas em Nova York. Roger Moutenot foi o engenheiro de gravação e mixagem, garantindo a coesão sonora dessa produção transatlântica.

Músicas

As dez faixas de Estrangeiro tecem uma tapeçaria rica e multifacetada de temas e sonoridades. A canção-título, "O Estrangeiro", abre o disco com uma narração musicada de cunho cinematográfico, evocando paisagens da Baía de Guanabara e sentimentos que ecoam o olhar de Paul Gauguin e as críticas de Claude Lévi-Strauss, além de citar Bob Dylan sobre João Gilberto. "Rai das Cores" traz influências do gênero musical argelino, evidenciando uma ótica diversa sobre o mundo. Já a introspectiva "Jasper" tem coautoria de Arto Lindsay e Peter Scherer, integrando a visão dos produtores à lírica de Caetano. Faixas como "Branquinha" (dedicada a Paula Lavigne) e "Este Amor" (para Dedé Gadelha) revelam um lado mais íntimo e lírico, sendo a última notada por sua beleza melódica. "Outro Retrato" homenageia a poesia de João Cabral de Melo Neto e a musicalidade de João Donato, com uma pegada de funk pop. A "Etc." é descrita como íntima e triste, enquanto "Os Outros Românticos", dedicada a Jorge Mautner, oferece uma crítica social perspicaz. O álbum também inclui a vibrante "Meia-Lua Inteira", composta por Carlinhos Brown, que transborda vitalidade e um inconfundível "sol brasileiro", sendo frequentemente apontada como um dos destaques do disco. "Genipapo Absoluto" encerra o álbum afirmando "minha mãe é minha voz", em contraste com a crítica social anterior, resgatando um Caetano mais conectado às suas raízes.

Legado

Estrangeiro rapidamente conquistou reconhecimento crítico e se consolidou como um marco na carreira de Caetano Veloso. O renomado crítico Robert Christgau o classificou em 27º lugar na "The 1989 Pazz & Jop Critics Poll" dos melhores álbuns daquele ano. Anos depois, em 2022, o álbum foi incluído na prestigiada lista dos "500 maiores discos da música brasileira" pelo podcast Discoteca Básica, reafirmando sua importância duradoura no panorama nacional. O impacto do álbum também se fez sentir internacionalmente, alcançando a 13ª posição na parada de álbuns de World Music da Billboard nos Estados Unidos. O trabalho chamou a atenção de músicos influentes como David Byrne, ampliando o alcance de Caetano para novos públicos e círculos artísticos. Apesar de o próprio Caetano ter expressado, em 1991, uma preferência pessoal por seu álbum homônimo de 1987, por considerá-lo com "mais verdade, mais clareza", Estrangeiro é universalmente celebrado como um de seus melhores trabalhos, representando um diálogo maduro com o Tropicalismo e uma utopia musical que continua a ser elogiada.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Produção

Arto Lindsay, Peter Scherer

Gravação [Additional Recordings]

Francis Manzella

Gravação, Mixagem

Roger Moutenot

Técnico [Assistant]

Jacaré, Jason Baker, Karen Bohanon, Oz Fritz, Patrick Dillett, Paul Angelli

Arte [Front Cover]

Hélio Eichbauer

Arte [Graphic Coordinator]

Arthur Fróes

Arte [Graphic Design]

Luciano Figueiredo

Fotografia

Pedro Oswaldo Cruz

Fotografia [Back Cover]

Jan Staller

Referências

Livros