Axé!

Candeia

1978

Capa de Axé!
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Axé!, o quinto e derradeiro álbum de estúdio do mestre Candeia, lançado em novembro de 1978, poucos dias após sua morte, é uma obra seminal que transcende a mera gravação musical, firmando-se como um dos pilares da história do samba. Mais do que um disco, ele representa um manifesto artístico, um testamento da paixão de Candeia pela raiz do samba e um grito de resistência contra a descaracterização do gênero. Sua sonoridade autêntica e visceral resgata a essência do samba carioca, honrando suas origens e seus grandes mestres, enquanto projeta a visão única de um dos maiores compositores e guardiões da Portela. O álbum não é apenas uma coleção de canções, mas uma declaração de princípios, um mergulho profundo na alma do samba que Candeia tão bravamente defendeu. Com sua sonoridade marcante e letras que refletem tanto a poesia do cotidiano quanto a crítica social, Axé! é um convite irrecusável à celebração da cultura do samba em sua forma mais pura. A habilidade de Candeia em reunir e dialogar com a tradição, enquanto imprime sua marca autoral, é o que confere a este trabalho uma importância inestimável para a música brasileira.

Contexto

O lançamento de Axé! emerge diretamente das posições e reflexões que Candeia vinha defendendo e articulando em sua vida e obra, notavelmente no livro "Escola de Samba, Árvore que Esqueceu a Raiz", escrito em parceria com Isnard Araújo. Esse livro, uma crítica contundente à mercantilização e desvirtuamento das escolas de samba, pavimentou o caminho para a proposta musical do álbum: um retorno às fontes e a valorização de figuras essenciais esquecidas pelo tempo. O álbum é, portanto, um ato de militância cultural, um esforço consciente para preservar a memória e a autenticidade do samba, que Candeia via ameaçadas. A gravação e o lançamento póstumo do disco, após a morte do sambista em 16 de novembro de 1978, conferem a Axé! um peso emocional e simbólico ainda maior, transformando-o em um legado final e definitivo de sua visão artística e ideológica para o samba.

Gravação

A produção de Axé! foi um projeto ambicioso, com João de Aquino na produção, Guti na direção de produção e Edeltrudes Marques (Dudu) na direção de gravação, ocorrida nos estúdios Transamérica no Rio de Janeiro. A equipe técnica contou com Vitor e Toninho manipulando os botões de gravação, assistidos por Rafael, Filé e Cláudio. A atmosfera nos bastidores era de camaradagem, com Seu Manuel cuidando "da birita e do café" e Lena Frias, Clovis Scarpino e Francisco Vieira "cobrando os trabalhos na coxia". O álbum se destaca por reunir um time estelar de instrumentistas e convidados especiais, criando um ambiente sonoro que remete diretamente aos pagodes autênticos. A base instrumental contou com Gordinho no surdo, Testa no pandeiro, Marçal e Luna no tamborim, e Wilson das Neves na bateria, entre outros. Além dos talentosos músicos, a presença de lendas como Alvaiade, Manacéa, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara e Chico Santana, além do coro da Velha Guarda da Portela, foi fundamental. A inclusão desses mestres do samba, muitos deles afastados dos estúdios havia anos, buscou reproduzir um legítimo pagode, com improvisação, partido alto e até "o ruído explícito de copos e garrafas", capturando a espontaneidade e a vivacidade da tradição oral do samba.

Músicas

O repertório de Axé! é um mosaico que harmoniza composições próprias de Candeia com sambas históricos, alguns deles incompletos e que foram habilmente complementados pelo sambista. Exemplos notáveis incluem "Ouro Desça do Seu Trono" de Paulo da Portela, "Vivo Isolado do Mundo" de Alcides Dias Lopes (o Malandro Histórico), e "Ouço uma Voz" de Nelson Amorim, onde Candeia adicionou versos sem desvirtuar o espírito melódico e poético original. Essa abordagem não apenas resgata preciosidades esquecidas, mas também demonstra o profundo respeito de Candeia pela linhagem do samba. Além dessas releituras, o álbum apresenta composições autorais de Candeia, como a pungente "Pintura sem arte" e a clássica "Dia de Graça", demonstrando sua maestria como letrista e melodista. Parcerias significativas também enriquecem o disco, a exemplo de "Amor não é brinquedo" com Martinho da Vila, "Mil réis" com Noca da Portela e "Zé Tambozeiro" com Vandinho. A faixa "Gamação", seguida por "Peixeiro Granfino", "Ouço uma Voz" e "Vem Amenizar", é um medley que condensa a riqueza da linguagem e das tradições do samba, com a participação ilustre de Dona Ivone Lara, Chico Santana e a Velha Guarda da Portela, que emprestam suas vozes ao coro, recriando a atmosfera vibrante de um pagode verdadeiro e espontâneo.

Legado

Axé! é universalmente aclamado como um dos discos mais importantes da história do samba, consolidando o legado de Candeia como um guardião incansável das raízes do gênero. Sua importância reside não apenas na qualidade musical impecável, mas também em seu papel como um documento etnográfico e um manifesto político-cultural em defesa da autenticidade do samba. O álbum, lançado postumamente, transformou-se em um epitáfio sonoro de um artista que dedicou sua vida a preservar e valorizar a tradição do samba, influenciando gerações futuras de sambistas e pesquisadores. Ao resgatar e harmonizar composições de mestres antigos com suas próprias criações e parcerias, Candeia não só imortalizou vozes e melodias que corriam o risco de ser esquecidas, mas também ofereceu um panorama da diversidade e da riqueza do samba carioca. A participação de figuras lendárias e da Velha Guarda da Portela não apenas enriquece a sonoridade, mas também sublinha a mensagem de continuidade e reverência à ancestralidade do samba. Axé! permanece como uma obra atemporal, um testemunho da genialidade de Candeia e um farol para aqueles que buscam a essência verdadeira do samba.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Direção Artística [Direção Artística]

Mazzola

Produção [Direção de Produção]

Guti Carvalho

Violão

João De Aquino

Violão [7-Strings]

Valter Silva

Agogô

Wilson Canegal

Cavaquinho

Volmar

Cuíca, Tamborim

Nilton Delfino Marçal

Bateria

Wilson Das Neves

Pandeiro

Testa

Surdo

Gordinho

Arte

Lobianco, Ruth Freihof

Capa

Claudio Carvalho

Texto do Encarte

Lena Frias

Fotografia

Ivan Cardoso

Referências

Livros