Verde Que Te Quero Rosa
Cartola
1977

Porque Merece Estar na Lista
Verde Que Te Quero Rosa, lançado em 1977 pela RCA Victor, representa o terceiro álbum de estúdio do sambista Cartola e um marco importante em sua discografia tardia. Este trabalho se insere em um período de "redescoberta" do artista na década de 1970, quando, já em idade avançada, ele finalmente teve a oportunidade de registrar em estúdio a vasta riqueza de seu cancioneiro, acumulado ao longo de quase cinco décadas de carreira. O álbum solidifica a imagem de Cartola como um dos maiores e mais autênticos compositores da música brasileira, destacando seu lirismo singular e a profundidade de suas melodias no universo do samba. Distanciando-se do samba frenético de carnaval, o disco explora uma vertente mais sutil e introspectiva do gênero, característica marcante da obra de Cartola. Nele, a voz madura e aveludada do mestre da Mangueira conduz o ouvinte por sambas que são verdadeiras joias de sensibilidade e poesia, com arranjos que valorizam a essência melódica e harmônica de suas composições. A capa icônica do álbum, que retrata Cartola em um momento de intimidade ao lado de Dona Zica, tomando café em uma xícara verde e pires rosa, tornou-se uma das imagens mais reverenciadas da música brasileira, simbolizando não apenas as cores de sua amada Mangueira, mas também a simplicidade e a elegância de sua persona artística.
Contexto
Antes de sua "redescoberta" nos anos 1970, Cartola amargou um longo período de ostracismo, tendo sido até mesmo dado como desaparecido ou morto por muitos de seus admiradores. Apesar de ter sido um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira em 1928 e ter vendido sambas para grandes nomes como Francisco Alves nos anos 1930, sua carreira musical ativa diminuiu drasticamente nas décadas seguintes. A virada começou a se delinear a partir dos anos 1950, com o jornalista Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) o reencontrando e ajudando a divulgar sua obra. A revalorização do samba nos anos 1960, impulsionada pelo Zicartola, o restaurante que abriu com sua esposa Dona Zica, se tornou um catalisador para seu retorno, transformando o local em um importante ponto de encontro de sambistas e intelectuais. Foi em 1974, aos 66 anos, que Cartola lançou seu primeiro disco solo, iniciando uma fase prolífica que culminaria em quatro álbuns essenciais antes de sua morte em 1980. Verde Que Te Quero Rosa, de 1977, é o terceiro desses trabalhos e o primeiro a ser lançado por uma grande gravadora, a RCA Victor, após seus dois primeiros álbuns autointitulados pela independente Discos Marcus Pereira.
Gravação
A gravação de Verde Que Te Quero Rosa marcou a estreia de Cartola em uma grande gravadora, a RCA Victor, após o sucesso de seus discos anteriores lançados por um selo independente. A produção do álbum foi assinada por Sérgio Cabral, nome importante na cena musical brasileira. Um dos destaques da produção é a capa icônica, fotografada por Ivan Klingen. A imagem mostra Cartola em um ambiente caseiro, tomando café servido por Dona Zica, com um cigarro na mão e seus óculos escuros habituais, que ele usava para disfarçar o inchaço de uma pálpebra após uma cirurgia no nariz. O próprio sambista sugeriu a utilização de uma xícara verde e um pires rosa, em clara alusão às cores de sua Estação Primeira de Mangueira e ao título do disco. Na mão de Cartola, um anel com uma lira simboliza sua paixão pela música. Os arranjos orquestrais, na maioria, foram conduzidos pelo extraordinário violonista Dino Sete Cordas, com uma notável exceção na faixa "Autonomia", que contou com a maestria do piano de Radamés Gnattali.
Músicas
O repertório de Verde Que Te Quero Rosa é uma cuidadosa seleção de sambas que mesclam a autoria solo de Cartola com parcerias significativas e algumas composições de outros mestres. A faixa-título, "Verde Que Te Quero Rosa", coescrita com Dalmo Castelo, é uma exaltação às cores e ao espírito da Mangueira. O álbum apresenta clássicos como "Autonomia", composto por Cartola no mesmo ano de lançamento do disco e que se tornaria um dos mais regravados de seu cancioneiro. Dentre as doze faixas, "Nós Dois" se destaca por sua origem afetiva, sendo composta especialmente para o casamento de Cartola com Dona Zica em 1964, revelando a veia romântica e pessoal do sambista. Outras parcerias notáveis incluem "Tempos Idos" com Carlos Cachaça, um dos fundadores da Mangueira e parceiro de longa data, e a inclusão de "Pranto de Poeta", de Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho, reforçando a conexão de Cartola com o panteão do samba. A diversidade de compositores e a profundidade lírica das canções, que abordam temas como o amor, a saudade, a resiliência e a observação da vida, cimentam a relevância poética do álbum.
Legado
Verde Que Te Quero Rosa, embora venha após dois álbuns considerados obras-primas, manteve o alto nível artístico de Cartola, consolidando sua fase final de grande reconhecimento. O disco contribuiu para reforçar a imagem de Cartola como um ícone da cultura popular brasileira, não apenas por sua música, mas também pela icônica capa, que se tornou uma das mais famosas da discografia nacional e tem sido recriada e reverenciada ao longo do tempo. Apesar de não ter enfileirado tantos standards imediatos quanto seus predecessores, o álbum legou "Autonomia" como um clássico instantâneo, com cerca de 25 regravações desde seu lançamento original. A entrada de Cartola em uma grande gravadora como a RCA Victor com este trabalho também simbolizou a completa aceitação e o reconhecimento mainstream de sua genialidade, garantindo que seu samba atemporal alcançasse um público ainda mais amplo. O legado de Verde Que Te Quero Rosa reside na sua capacidade de manter acesa a chama do samba mais puro e poético, confirmando Cartola como um tesouro musical do Brasil.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Sérgio Cabral
Durval Ferreira
Coral De Joab
Meira
Horondino José Da Silva
Canhoto
Wilson das Neves
Dininho
Altamiro Carrilho
Elizeu, Gilberto D'Avila, Jorge José Da Silva, Luna, Nilton Delfino Marçal
Radamés Gnattali
Abel Ferreira
Aizik Geller
Antenor Marques Filho
Nelson Martins Dos Santos
Luiz Carlos T. Reis
Luiz Carlos T. Reis, Nestor Vitiritti
José Oswaldo Martins
Ney Tavora
Lucio Rangel
Ivan Klingen
