Lar de Maravilhas
Casa das Máquinas
1975

Porque Merece Estar na Lista
Lar de Maravilhas, o segundo trabalho de estúdio da banda brasileira Casa das Máquinas, lançado em setembro de 1975, representa um marco significativo na trajetória do grupo e no cenário do rock progressivo nacional. Neste álbum, a banda abraça plenamente a orientação do rock progressivo, diminuindo a presença de rock e hard rock para dar espaço a uma sonoridade mais elaborada e experimental. A audácia sonora permitiu a fusão de diversos ritmos, como música clássica, MPB e folk, dentro da estrutura do rock, caracterizada por mudanças de andamento e extensas partes instrumentais. Liricamente, o disco é um reflexo contundente do seu tempo, imerso nos temas do movimento contracultural e da cultura hippie. As canções expressam um profundo desejo de libertação, muitas vezes de caráter espiritual, e a incessante busca por um lugar utópico e idílico onde essa liberdade pudesse florescer. A obra permeia assuntos como ousadia, psicodelia e a procura por transcendência, com uma notável força dos teclados que sublinha sua natureza progressiva e os temas contraculturais.
Contexto
Após o lançamento do álbum de estreia, o Casa das Máquinas embarcou em uma turnê nacional. Ao término dessa fase, a banda passou por uma importante mudança em sua formação com a saída de Pique Riverte. Para substituí-lo e fortalecer a sonoridade, Netinho, o baterista, convidou o tecladista Mário Testoni Júnior e o baterista Mário Franco Thomaz, este último seu irmão, para se juntarem ao grupo. A inclusão de dois bateristas foi uma inovação ousada no Brasil, repetindo a experimentação de bandas internacionais como The Allman Brothers Band e Grateful Dead, buscando maior peso e participação nos vocais de apoio. Além das mudanças instrumentais, Lar de Maravilhas marcou o início da colaboração de Catalau como letrista da banda. Ainda um adolescente de 16 anos, ele foi descoberto por Netinho e trouxe uma nova perspectiva lírica ao grupo, com temas que ecoavam a busca por liberdade em uma época de autoritarismo no país.
Gravação
As gravações de Lar de Maravilhas ocorreram nos estúdios Vice-Versa, em São Paulo, ao longo de 1975, sob a produção de Netinho e direção de estúdio de Otávio Augusto. Os arranjos foram desenvolvidos coletivamente pela própria banda, contando com a coordenação geral de João Araújo. A equipe técnica de som foi composta por Marcos Vinícius, Wilson e Renato. Após a conclusão das sessões, o álbum foi lançado pela gravadora Som Livre em setembro do mesmo ano. Para promover o disco, a Som Livre lançou um compacto duplo que incluía a canção "Vou Morar no Ar", dividindo espaço com artistas internacionais e Moraes Moreira.
Músicas
A sonoridade de Lar de Maravilhas se destaca pelo forte protagonismo do rock progressivo, que rompe com as estruturas tradicionais de canção, incorporando elementos da música clássica, MPB e folk, com arranjos complexos e partes instrumentais elaboradas. O lado A do disco é aberto por "Vou Morar no Ar", que aborda a busca por liberdade em tempos de autoritarismo. A faixa-título, "Lar de Maravilhas", explora a procura por um lugar utópico para a concretização dessa liberdade, seja através do pensamento, dos sonhos ou de experiências lisérgicas. Canções como "Liberdade Espacial" e "Astralização" evocam a necessidade de purificação espiritual para transcender a realidade autoritária. "Cilindro Cônico" fecha o primeiro lado com uma crítica à complexidade e ao autoritarismo do mundo moderno, que sufoca alternativas e a liberdade, em uma alusão ao totalitarismo tecnicista. O lado B inicia com "Vale Verde", que retoma a temática da busca por um refúgio idílico e ecológico diante da destruição tecnológica. "Raios de Lua" apresenta-se como uma balada, enquanto "Epidemia de Rock" foge um pouco dos temas predominantes, elogiando o estilo musical. O disco se encerra com "O Sol", um discurso de cunho espiritualista na voz de Netinho, seguido pela parte instrumental de "Reflexo Ativo".
Legado
No mês de novembro de seu lançamento, o álbum Lar de Maravilhas já havia superado a marca de 10 mil cópias vendidas. A recepção da crítica foi mista, porém destacou a relevância do trabalho. Carlos Gouvêa, em sua crítica para a Folha de S.Paulo, elogiou o disco como excelente, ressaltando a evolução em relação ao trabalho anterior da banda e a qualidade técnica dos músicos. Por outro lado, a Revista Pop considerou que o álbum não trazia novidades em suas mensagens ou instrumental, classificando-o como um "rock radiofônico" de fácil consumo. Marcos Sampaio, do Jornal O Povo, apontou a ousadia, psicodelia e temas contraculturais como pilares do disco, elogiando a forte presença dos teclados e a veia progressiva. Apesar da saída do baixista Cargê logo após o lançamento e a necessidade de Piska revezar entre guitarra e baixo na turnê subsequente, o álbum manteve sua importância ao longo dos anos. A relevância de Lar de Maravilhas foi reforçada por sucessivos relançamentos, tanto em CD, a partir da década de 1990 e novamente em 2015 pela Som Livre, quanto em disco de vinil, relançado pela Polysom em 2018, atestando seu valor duradouro para o público e para a história da música brasileira.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Casa Das Máquinas
Netinho
Carlos Geraldo
Marinho Franco Thomas
Netinho
Piska
Aroldo
Marinho Testoni
