O Grande Circo Místico
Chico Buarque e Edu Lobo
1983

Porque Merece Estar na Lista
Lançado em 1983, O Grande Circo Místico não é apenas um álbum, mas a trilha sonora de um espetáculo que se tornaria um marco na cultura brasileira. Fruto da colaboração genial entre Chico Buarque, responsável pelas letras, e Edu Lobo, autor das músicas, a obra se destaca pela sofisticação musical e pela profundidade poética, tecendo um lirismo flamejante e um teor emotivo latente que raramente é alcançado na Música Popular Brasileira. O disco transcende a mera função de acompanhamento cênico, consolidando-se como uma peça autônoma e imprescindível no cânone da MPB. A grandiosidade do projeto é ainda mais acentuada pela constelação de vozes que dão vida às canções. Nomes como Milton Nascimento, Gal Costa, Simone, Zizi Possi, Gilberto Gil, Tim Maia e Jane Duboc emprestam seus talentos para interpretações que se tornaram definitivas e que contribuem para a atmosfera mística e lúdica do trabalho. O Grande Circo Místico se dilui e se mescla à música, à poesia, ao teatro e ao circo, transportando o ouvinte para uma viagem onírica e profundamente emocional.
Contexto
A gênese de O Grande Circo Místico remonta a uma encomenda do Balé Teatro Guaíra, de Curitiba, no Paraná, em 1982. O projeto visava criar um espetáculo de dança inspirado no poema homônimo de Jorge de Lima, escrito em 1938 e publicado em sua obra "A Túnica Inconsútil". O poema, por sua vez, narra a saga da família austríaca Knieps, proprietária de um circo, e o amor entre um aristocrata e uma acrobata, baseando-se em um fato real do século XIX. Chico Buarque e Edu Lobo, já figuras consagradas da MPB, não eram estranhos a trabalhos de trilhas sonoras para teatro, o que preparou o terreno para esta que viria a ser uma de suas mais aclamadas colaborações. O início dos anos 80, no Brasil, ainda vivia a efervescência pós-ditadura militar, um período fértil para a experimentação artística e para a criação de obras de grande fôlego e simbologia, como esta que uniria poesia modernista e música popular em um "espetáculo total".
Gravação
O álbum O Grande Circo Místico foi originalmente lançado pela gravadora Som Livre em 1983. A produção contou com Edu Lobo e Homero Ferreira, e a orquestração e regência foram conduzidas pelo maestro Chiquinho de Moraes, cuja contribuição foi tão significativa que ele é considerado por muitos um coautor da obra. A complexidade e a riqueza sonora do álbum são resultado desse cuidadoso trabalho de arranjo e direção musical. A gravação do LP original incluiu 11 canções, mas, em seus relançamentos em CD por gravadoras como Velas, PolyGram e Biscoito Fino, Edu Lobo acrescentou duas músicas instrumentais, "Oremus" e "O Tatuador", que haviam ficado de fora da versão em vinil devido às limitações de formato da época. O álbum foi concebido com um formato sofisticado, apresentando um encarte luxuoso com ilustrações de Naum Alves de Souza para cada canção, enriquecendo a experiência do ouvinte e conectando-o visualmente à narrativa do circo.
Músicas
As letras de Chico Buarque em O Grande Circo Místico são uma ode à poesia, casando-se com perfeição às melodias de Edu Lobo para narrar a saga circense com lirismo e profundidade. Entre as faixas mais emblemáticas, destaca-se "Beatriz", interpretada por Milton Nascimento, que descreve uma mulher idealizada, bela e complexa, e cuja composição é estruturada em quatro estrofes, com três delas apresentando uma estrutura similar, intensificando sua imagem mística. "A História de Lily Braun", na voz de Gal Costa, é outro clássico que se eternizou, explorando as nuances da vida e da arte circense. Gilberto Gil empresta sua voz a "Sobre Todas as Coisas", um momento de profunda reflexão existencialista, em que a letra de Chico Buarque questiona a criação e o papel do homem no universo em um monólogo dirigido a Deus, com uma interpretação pungente e angustiante. Já "O Circo Místico", cantada por Zizi Possi, utiliza o universo circense como uma rica metáfora para a dualidade entre realidade e ilusão, explorando temas de transformação e continuidade, com versos que instigam a dúvida sobre o que é real e o que é truque banal. O álbum também conta com as marcantes participações de Tim Maia em "A Bela e a Fera" e Simone em "Meu Namorado", além de coro infantil em "Ciranda da Bailarina" e a própria dupla em "Na Carreira".
Legado
O Grande Circo Místico, tanto o balé quanto o álbum, alcançou um estrondoso sucesso de público e crítica no Brasil e em Portugal. O espetáculo original, encenado pelo Balé Teatro Guaíra, realizou uma turnê de dois anos, sendo assistido por mais de 200 mil pessoas em quase 200 apresentações e sendo consagrado como uma das obras mais completas já apresentadas no país. A recepção positiva da imprensa evidenciou o sucesso da tentativa de popularizar o balé por meio da música popular, permitindo que a trilha sonora fosse lançada como um disco de MPB convencional. Embora nenhuma das canções tenha alcançado o topo das paradas de sucesso imediatamente, elas se tornaram clássicos inquestionáveis da MPB, como "Beatriz", "A História de Lily Braun" e "O Circo Místico", consolidando o álbum como um título essencial. O crítico musical Aldir Blanc chegou a descrevê-lo como "o LP mais bonito do século". A duradoura importância da obra é evidenciada pelos múltiplos relançamentos em CD e pela inspiração que gerou, incluindo um filme dirigido por Cacá Diegues em 2018, demonstrando a ressonância cultural do Grande Circo Místico por décadas.
