Afrociberdelia

Chico Science & Nação Zumbi

1996

Capa de Afrociberdelia
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Afrociberdelia é o segundo e último álbum com Chico Science da icônica banda Chico Science & Nação Zumbi, lançado em maio de 1996. Este trabalho é amplamente reconhecido como a principal obra do movimento manguebeat, consolidando a sonoridade única do grupo que mescla elementos do maracatu com o hip-hop e uma ampla gama de influências, desde ritmos africanos a rock psicodélico e música eletrônica. O álbum, embora considerado por alguns menos coeso que seu antecessor, é notável pela significativa melhoria nos arranjos e na produção musical, definindo um novo patamar para a banda. O próprio título, Afrociberdelia, um neologismo que aglutina "Afro", "cibernética" e "psicodelismo", serve como um manifesto conceitual para o disco. Ele foi definido no encarte original como "a arte de cartografar a Memória Prima genética (...) através de estímulos eletroquímicos, automatismos verbais e intensa movimentação corporal ao som de música binária", uma declaração que encapsula a profundidade lírica e a inovação sonora que permeiam o álbum. É um marco na música brasileira por sua audácia estética e relevância cultural.

#18

A alquimia afro-brasuca-cibernética em ebulição sonora de absurda conexão com o tempo em que vivíamos.

Ramiro Zwersch · Rolling Stone Brasil

Leia mais

Contexto

Antes da gravação de Afrociberdelia, em 1994, Chico Science e Eduardo Bid, guitarrista da banda Professor Antena, estreitaram laços, chegando a compor a faixa "Macô" e gravar um cover de "Roda, Rodete, Rodeano". Apesar do sucesso de vendas e crítica de Da Lama Ao Caos, o trabalho do produtor Liminha no álbum anterior foi questionado por parte dos fãs, que sentiam que o disco não havia capturado a verdadeira sonoridade da Nação Zumbi. Essa insatisfação foi determinante para que Chico Science convidasse Bid, que embora conhecido como guitarrista, assumia pela primeira vez a produção musical completa de um álbum, contrariando os interesses da Sony Music que buscava um produtor estrangeiro e experiente. Em 1995, a banda também incorporou o baterista Pupillo, cuja chegada introduziu a bateria ao som do grupo, um elemento que se tornaria crucial na nova fase da Nação Zumbi. O desejo de capturar a essência da performance ao vivo e a busca por uma sonoridade mais autêntica foram os catalisadores para as escolhas de produção e as colaborações que moldaram Afrociberdelia.

Gravação

Afrociberdelia foi produzido por Eduardo BiD, marcando sua estreia na função, e gravado no renomado estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro. Para garantir a fidelidade à sonoridade que a banda apresentava nos palcos, o técnico de som G-Spot foi convidado para as gravações e mixagens, aproveitando sua experiência com grupos de rap, o que resultou numa timbragem de tambores que os membros da banda finalmente consideraram ideal. A gravação contou com diversas participações especiais: Gilberto Gil e Marcelo D2 uniram-se à banda na faixa "Macô", Marcelo Lobato contribuiu com os teclados em "Um Satélite na Cabeça", e Fred Zero Quatro enriqueceu "Samba de Lado" com seu cavaquinho. Em um esforço para assegurar um sucesso comercial, Jorge Davidson, diretor musical da Sony Music, sugeriu a inclusão de um cover de "Maracatu Atômico", de Jorge Mautner. Três remixes dessa canção foram adicionados ao álbum como faixas bônus, sem o consentimento do grupo, e as canções "Manguetown" e "Maracatu Atômico" ganharam videoclipes dirigidos por Gringo Cardia e Raul Machado, respectivamente. A faixa "Maracatu Atômico" foi gravada no Estúdio Mosh, em São Paulo, enquanto a mixagem das demais ocorreu no Estúdio Mosh e na Impressão Digital, no Rio de Janeiro, com a masterização final realizada na Cia. de Audio, em São Paulo.

Músicas

As faixas de Afrociberdelia aprofundam-se em temas centrais ao movimento manguebeat, abrangendo a valorização da arte pernambucana, a crítica a modelos sociais vigentes e o incentivo à transgressão cultural e artística. Diferentemente do álbum anterior, todas as composições foram desenvolvidas em parcerias, evidenciando uma colaboração mais integrada. A canção "Manguetown", cujo clipe foi dirigido por Gringo Cardia, retoma a ideia original do manguebeat ao denunciar o chamado "progresso" que transformou Recife em uma "metrópole do Nordeste", resultando na destruição dos mangues e no início de um processo de gentrificação. "Um Passeio no Mundo Livre" foi inspirada por um episódio real de abordagem policial aos percussionistas Gilmar Bolla 8 e Gira, ambos negros, e é interpretada como uma reafirmação do compromisso sociopolítico do manguebeat em questionar preconceitos e problemas sociais. A faixa "Macô", por sua vez, aborda abertamente o consumo de cannabis, tema que a banda já buscava explorar anteriormente em "A Praieira", mas que foi alterado por receio de represálias, situação evitada com a participação de Marcelo D2 do Planet Hemp e Gilberto Gil, este último conhecido por sua própria experiência com o tema. Além disso, "Mateus Enter", "O Cidadão do Mundo" e "Etnia" são destacadas por desarticularem os nós da diferença colonial, em diálogo com a compreensão de crioulização de Édouard Glissant.

Legado

Afrociberdelia foi crucial para alçar Chico Science & Nação Zumbi a um patamar de destaque no cenário musical, sendo amplamente reconhecido como a principal obra do movimento manguebeat. A mistura sonora de maracatu e hip-hop foi elogiada, e o álbum recebeu críticas favoráveis em veículos internacionais como The New York Times e Spin magazine, levando ao convite do selo Luaka Bop, de David Byrne, para seu lançamento internacional. O sucesso comercial se confirmou em abril de 1997, quando o disco alcançou o certificado de ouro, apenas dois meses após o falecimento de Chico Science. O álbum figura em posições de destaque em listas de grandes obras da música brasileira, como o 18º lugar na lista dos 100 maiores discos da música brasileira da Rolling Stone Brasil e o 2º lugar na eleição dos melhores discos nacionais dos anos 1990 do site Scream & Yell. Músicas como "Manguetown" e "Macô" tornaram-se clássicos do grupo, e a interpretação de "Maracatu Atômico" por Chico Science emocionou o compositor Jorge Mautner. "Maracatu Atômico" teve um remix incluído na coletânea Red Hot + Rio (campanha de conscientização sobre a AIDS) e foi regravada por uma vasta gama de artistas, incluindo Caetano Veloso, Emicida, Sergio Mendes e Zélia Duncan, além de ter sido performada no encerramento dos Jogos Olímpicos de Verão de 2012. "Sangue de Bairro" integrou a trilha sonora do filme Baile Perfumado e foi regravada pelo Soulfly em 2002. Em 2016, a Nação Zumbi celebrou os 20 anos do álbum com uma série de shows, apresentando pela primeira vez ao vivo faixas como "O Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont" e "Baião Ambiental".

Ranking nas Listas

Faixas

Podcasts

Referências

Livros