Canto das Três Raças
Clara Nunes
1976

Porque Merece Estar na Lista
O álbum Canto das Três Raças, lançado em 1976, é um dos pilares da discografia de Clara Nunes e um marco na Música Popular Brasileira. Nomeado após sua icônica faixa-título, o trabalho solidificou a imagem de Clara como uma das maiores intérpretes do samba, MPB e da identidade cultural brasileira. Através de sua voz luminosa, a artista teceu um panorama musical que celebra as diversas raízes étnicas do Brasil: a indígena, a africana e a europeia, assumindo a alcunha de "Cantora das Três Raças". Este trabalho vai além do entretenimento musical, posicionando-se como um vibrante manifesto da brasilidade. A interpretação de Clara Nunes, com sua voz descrita como "sedosa", "graciosa" e "sem esforço", mas ao mesmo tempo "poderosa e terrena", deu vida a composições que ressoam profundamente com a alma do país, reafirmando o compromisso da cantora com a cultura afro-brasileira e as tradições do samba. Embora a crítica especializada possa ter opiniões variadas sobre se é seu trabalho mais forte em comparação a outros álbuns, é inegável que Canto das Três Raças é um clássico em sua obra e na MPB.
Contexto
Em 1976, ano de lançamento de Canto das Três Raças, Clara Nunes já era uma figura proeminente na música brasileira, com uma série de sucessos que a estabeleceram como uma voz singular. Ela havia pavimentado o caminho para o renascimento do samba acústico pagode no início dos anos 70 e se destacava por ser a primeira mulher brasileira a vender mais de 100 mil discos, um feito antes apenas alcançado por artistas masculinos, quebrando um importante tabu na indústria fonográfica. Sua carreira, marcada pela valorização dos ritmos afro-brasileiros e da cultura de herança africana, especialmente o samba de roda baiano e os rituais do Candomblé, encontrou um ponto alto com este álbum. A partir de 1976, seu produtor passou a ser Paulo César Pinheiro, também seu marido, o que estreitou ainda mais a parceria criativa presente em muitas de suas canções.
Gravação
A gravação do álbum Canto das Três Raças ocorreu entre 12 de julho e 2 de agosto de 1976, sob o selo da EMI-Odeon e com a produção de Renato Corrêa e Paulo César Pinheiro. A maestria e a autenticidade rítmica que caracterizavam os trabalhos de Clara Nunes foram garantidas por um elenco de músicos de primeira linha. Na faixa-título, a banda incluiu Wilson das Neves na bateria, Carlinhos no cavaquinho, e um poderoso time de percussão com Pedro Sorongo, Nilton Marçal e Elizeu Felix no ritmo, além de Cabelinho/Walter Chaves no agogô e Luna no atabaque. Eduardo Gudin contribuiu com o violão. Os arranjos vocais foram enriquecidos por coralistas renomados como Evinha, Marizinha, Regina Corrêa, os Golden Boys e As Gatas. Outros músicos que participaram do álbum em diversas faixas foram João Donato no piano, Aldo Vale no contrabaixo, Valtinho na bateria, Severo no acordeom, Copinha na flauta, Valdir Silva no violão e o Conjunto Nosso Samba, tanto no coro quanto no ritmo.
Músicas
A faixa-título, "Canto das Três Raças", é o coração do álbum e uma das criações mais emblemáticas da parceria entre Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte. Sua concepção, detalhada por Pinheiro em seu livro “Histórias das Minhas Canções”, partiu de uma análise da estrutura do samba-enredo de Silas de Oliveira, com a intenção de compor um novo samba-enredo para a Portela. A letra, então, foi desenvolvida por Pinheiro para explorar a formação racial do Brasil, evocando a miscigenação de povos indígenas, europeus e africanos, e conceitos como o "canto triste nascido da miscigenação" e o "banzo do africano". A melodia do marcante refrão foi finalizada no estúdio, com a colaboração de Clara Nunes e do maestro Gaya, que contribuiu para o arranjo. O repertório do álbum, composto por dez faixas, incluía outras pérolas como "Lama", "Alvoroço no Sertão", "Tenha Paciência", "Ai, Quem Me Dera", "Risos e Lágrimas", "Basta Um Dia", "Fuzuê", "Meu Sofrer" e "Retrato Falado". O rol de compositores é igualmente estelar, contando com nomes como Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito, Paulo Marques, Aylce Chaves, Vinícius de Moraes, Raymundo Evangelista, Aldair Soares, Eduardo Gudin e o próprio Paulo César Pinheiro. A canção "Canto das Três Raças" também aborda historicamente a "luta dos inconfidentes", embora a interpretação histórica dessa luta seja complexa, como notado por Luiz Carlos Villalta.
Legado
Canto das Três Raças se tornou um dos álbuns mais importantes da carreira de Clara Nunes e um sucesso comercial estrondoso, com vendas que atingiram aproximadamente 500 mil cópias, e outras fontes indicando mais de 1.2 milhão de unidades vendidas. Este sucesso consolidou ainda mais o apelido da cantora como a "Cantora das Três Raças", título que encapsula sua essência artística e seu papel na representação da identidade brasileira. A relevância do álbum transcende o período de seu lançamento, contribuindo para alimentar o culto duradouro a Clara Nunes, especialmente sua discografia produzida entre 1971 e 1982. A faixa-título é reconhecida como um dos maiores sucessos de Clara Nunes e uma das mais belas canções da história da MPB. A influência de Clara Nunes, e deste álbum em particular, é notável por ter aberto caminho para outras grandes sambistas femininas, como Beth Carvalho e Alcione, que também alcançaram grande público. O álbum continua sendo reeditado, com lançamentos recentes em vinil pela Universal Music, mantendo viva sua relevância.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Milton Miranda
Francis Hime, Lindolfo Gaya, Nelson Martins Dos Santos
Lindolfo Gaya
Renato Corrêa
Paulo César Pinheiro
Osmar Furtado