Clementina de Jesus
Clementina de Jesus
1966

Porque Merece Estar na Lista
O álbum de estreia autointitulado de Clementina de Jesus, lançado em 1966, é um marco fundamental na música brasileira, apresentando ao grande público uma das vozes mais autênticas e viscerais do samba e da cultura afro-brasileira. Aos 63 anos, Clementina, carinhosamente conhecida como "Rainha Quelé" e "Mom", emergiu como uma guardiã viva de ritmos e cantos ancestrais, traduzindo para a modernidade a força do partido-alto, do jongo e de cânticos de trabalho e religiosos com uma honestidade comovente. Este trabalho discográfico não apenas lançou a carreira solo de uma artista singular, mas também resgatou e eternizou formas de expressão musical que corriam o risco de se perder. Sua voz rouca e poderosa, carregada de história e emoção, tornou-se um elo entre o passado escravocrata e o presente do Brasil, sintetizando a identidade afro-brasileira e a gênese do samba urbano carioca.
Contexto
Clementina de Jesus da Silva nasceu em 1901 em Valença, Rio de Janeiro, e mudou-se para a capital ainda criança. Por mais de duas décadas, trabalhou como empregada doméstica, vivendo a vida típica das periferias cariocas, berço do samba. Sua conexão com o samba vinha de longa data, tendo frequentado as rodas de samba do bairro de Oswaldo Cruz e desfilado em escolas como Portela e Mangueira. Sua vida mudou em 1963, quando foi "descoberta" pelo compositor e produtor Hermínio Bello de Carvalho, que a convidou para participar do show "Rosa de Ouro". O sucesso no espetáculo impulsionou sua carreira profissional e a levou a gravar seu primeiro disco solo pela Odeon em 1966, já aos 63 anos.
Gravação
O álbum Clementina de Jesus foi lançado pela gravadora Odeon em 1966. A produção do disco contou com a assistência de Hermínio Bello de Carvalho, figura crucial em sua descoberta e no início de sua trajetória artística. Jorge Teixeira da Rocha foi o técnico de gravação, enquanto Z. J. Merky atuou como diretor técnico. A capa do LP continha notas escritas pelo próprio Hermínio Bello de Carvalho.
Músicas
O repertório do álbum é uma rica tapeçaria de ritmos afro-brasileiros, incluindo partido-alto, jongo e sambas de raiz. Faixas como "Piedade", "Cangoma Me Chamou", "Barracão É Seu", "Tava Dormindo" e "Orgulho, Hipocrisia (Quem Espera Sempre Alcança)" destacam a profundidade e a autenticidade de sua interpretação. Canções como "Tute de Madame" e "Vinde, Vinde Companheiros" também integram a obra. As letras, muitas delas de tradição oral ou de mestres do samba, são anedotas do cotidiano e expressões de fé e resistência, cantadas com a singularidade de sua voz que se tornou sua marca registrada.
Legado
Apesar de uma carreira profissional tardia, Clementina de Jesus se tornou uma das cantoras mais populares do Brasil, reconhecida por sua contribuição à música de carnaval e sua identificação com os mais simples. O álbum Clementina de Jesus foi o primeiro de uma discografia solo que se estenderia por quatro LPs, além de diversas colaborações com grandes nomes da MPB. Sua autenticidade e a pureza de seu samba a tornaram uma figura procurada por artistas como Pixinguinha e João da Bahiana, ansiosos por se conectar com sua ligação direta com as raízes do samba. Ela foi celebrada por Elton Medeiros com a canção "Clementina, Cadê Você?" e por Clara Nunes com "PCJ, Partido Clementina de Jesus", escrita por Candeia, ambos tributos que evidenciam o impacto de sua arte. Em 1983, recebeu homenagens de diversos artistas, incluindo Paulinho da Viola, João Nogueira e Elizeth Cardoso, em um espetáculo no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Nelson Martins Dos Santos
Hermínio Bello De Carvalho
Z. J. Merky
Jorge Teixeira Da Rocha
Reny R. Lippi
Hermínio Bello De Carvalho
