O Canto dos Escravos

Clementina de Jesus, Geraldo Filme, Tia Doca

1982

Capa de O Canto dos Escravos
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Por Que Esse Disco é Importante

O álbum O Canto dos Escravos, lançado em 1982, é uma obra antológica e de inestimável valor para a música brasileira, marcando um dos mais importantes e corajosos registros da fonografia nacional. Sua singularidade reside na audaciosa proposta de trazer à cena musical contemporânea os vissungos, cantos ancestrais entoados pelos negros escravizados nas minas de ouro de Minas Gerais nos séculos XVII e XVIII. Esta foi a primeira documentação sonora da música do período da escravidão no Brasil, conferindo ao disco um status pioneiro e essencial na preservação da memória e cultura afro-brasileira. A riqueza do projeto reside não apenas em seu caráter documental, mas na profunda sensibilidade artística com que Clementina de Jesus, Geraldo Filme e Tia Doca da Portela, verdadeiras majestades negras da música brasileira, interpretaram esses cantos. O repertório é um poderoso eco da herança banto, mesclando linguagens como o umbundo, o quimbundo e o português arcaico, e oferecendo uma estética musical ancorada na cultura centro-africana. O álbum transcende a barreira do mero registro histórico, transformando-se em um belo trabalho artístico dedicado à preservação das tradições culturais do negro escravizado no Brasil, com uma ancestralidade sonora e rítmica impossível de ignorar.

Contexto

A gênese de O Canto dos Escravos remonta às décadas de 1920 e 1930, quando o folclorista mineiro Aires da Mata Machado Filho realizou uma meticulosa coleta de cantos e dialetos africanos na região de Diamantina, Minas Gerais, especialmente em povoados como São João da Chapada e Quartel do Indaiá. Seu trabalho, motivado pela urgência de preservar tradições que estavam caindo no esquecimento com o declínio da mineração, culminou na publicação do livro "O Negro E O Garimpo Em Minas Gerais" em 1943, onde 65 partituras foram registradas. Quase quarenta anos depois, em 1982, a Gravadora Eldorado reuniu um trio de ícones da cultura afro-brasileira para dar voz a essa herança. Clementina de Jesus, conhecida como a Rainha Quelé e personificação da cultura negra no Brasil, Geraldo Filme, renomado sambista paulistano e defensor das tradições, e Tia Doca da Portela, pastora da Velha Guarda, foram os pilares vocais desse projeto. A participação desses artistas não foi aleatória, mas um reconhecimento de seu papel fundamental como guardiões e difusores da memória e musicalidade dos negros escravizados, sendo este, inclusive, o último registro de Clementina de Jesus.

Gravação

O álbum O Canto dos Escravos foi lançado pela Gravadora Eldorado em 1982, integrando a prestigiosa série Memória Eldorado. O projeto contou com a coordenação artística de Aluísio Falcão e a direção musical e produção de Marcus Vinícius de Andrade. A equipe técnica se empenhou em capturar a essência da música ancestral com simplicidade e profundidade. A instrumentação, propositalmente minimalista, destacou a percussão como elemento central, conferindo ritmo e força às interpretações. Djalma Correa, Papete e Don Bira foram os percussionistas responsáveis por criar a atmosfera sonora, utilizando uma variedade de instrumentos como troncos, xequerês, enxadas, cabaças, atabaques, agogôs, caxixis e afoxés. Essa escolha visou reproduzir os "ritmos binários generalizados de umbanda", como o barravento, essenciais para a autenticidade dos vissungos. Flávio Barreira foi o responsável pela gravação e mixagem, enquanto Ariel Severino assinou a direção de arte e capa do disco.

Músicas

O repertório do álbum é composto por quatorze vissungos, selecionados dentre os 65 registrados por Aires da Mata Machado Filho. Os vissungos são mais do que meras canções, são "cantos de trabalho" e rituais, uma forma de expressão profundamente enraizada na vivência dos negros benguelas, escravos banto trazidos para o Brasil. Essas cantigas eram entoadas tanto no árduo cotidiano das minas de ouro e diamante, para aliviar o sofrimento e o cansaço do trabalho braçal, quanto em rituais mágicos, festas e até mesmo em momentos de luto. As letras dos vissungos são um fascinante testemunho da complexidade linguística da época, misturando o umbundo e o quimbundo, dialetos africanos, com o português arcaico. Essa fusão reflete a tentativa de comunicação e a manutenção da identidade cultural em um ambiente de opressão. Muitos desses cantos expressavam a dureza do "lambá" (trabalho duro) e um profundo anseio pela morte, ao mesmo tempo em que carregavam um evidente teor religioso. Estruturalmente, os vissungos se dividem em "boiado", um solo interpretado pelo mestre, e "dobrado", uma resposta coral dos trabalhadores, por vezes acompanhada dos ruídos dos próprios instrumentos de trabalho.

Legado

Desde seu lançamento, O Canto dos Escravos tem sido consistentemente reconhecido como um dos mais importantes documentos sonoros sobre a cultura oral africana praticada pelos negros escravizados no Brasil. Sua relevância perdura, sendo considerado uma "preciosidade da história fonográfica tupiniquim" e um dos discos mais reveladores do século XX. O caráter pioneiro do álbum, como o primeiro registro sonoro da música do tempo da escravidão, garantiu-lhe um lugar de destaque na historiografia musical brasileira. A importância do álbum é tal que ele foi relançado em formato CD em 2003, mais de duas décadas após sua edição original em LP, demonstrando seu impacto duradouro e a contínua necessidade de acesso a esse material. O projeto não é visto apenas como uma documentação histórica, mas como um trabalho artístico de profunda sensibilidade que consegue evocar a rica ancestralidade sonora e rítmica, bem como as inevitáveis e terríveis lembranças do período da escravidão. Ele permanece uma fonte crucial para estudos afro-brasileiros e para a compreensão da resistência cultural e musical do povo negro no Brasil.

Faixas

Créditos

Vocais, Coro

Clementina De Jesus, Doca, Geraldo Filme

Percussão

Djalma Correa

Percussão, Agogô, Ganzá

Papete

Percussão, Caxixi, Afoxé

Dom Bira

Filmes

Livros

Análises

O Canto dos Escravos – Wikipedia

Wikipédia, a enciclopédia livre

O Canto Dos Escravos: Sons De Trabalho, Música De Liberdade

omenelick2ato.com

O que poderia ser uma extravagância técnica, uma vez que a base rítmica adotada foge do padrão original da manifestação - sustentada apenas pela oralidade, casa perfeitamente com a letra e intensidade das interpretações, transformando a audição do disco em uma experiência sonora transcendental.

Herança Africana na Música dos Escravos | PDF - Scribd

pt.scribd.com

Ele ressalta que, no contexto escravos, os instrumentos e o próprio canto exerciam uma dupla função de um lado, eram formas de comunicação e organização coletiva entre os escravizados de outro constituíam um espaço de preservação cultural, onde se mantinham ritmos e tradições africanas.

O Canto dos Escravos: heranças centro-africanas na música contemporânea ...

periodicos.ufcat.edu.br

O objetivo desse artigo é analisar a dimensão histórica e estética do disco "O Canto dos Escravos". Gravado pelos sambistas Geraldo Filme, Clementina de Jesus e Doca, em 1982, esse disco reposicionou o canto dos escravos mineiros do século XVIII na cena musical contemporânea.

Bolacha completa - O canto dos escravos (1982) Clementina de Jesus, Tia ...

mascritmuspop.blogspot.com

O disco, de uma beleza crua, não tem instrumentos harmônicos. Acompanham os três cantores a percussão de troncos, xequerês, enxadas, cabaças, atabaques, agogôs, ganzás, caxixis e afoxés tocados por Djalma Corrêa, Papete e Don Bira.

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