Marinheiro só
Clementina de Jesus
1973

Porque Merece Estar na Lista
Marinheiro Só, lançado em 1973 por Clementina de Jesus, é um trabalho de profunda relevância na música brasileira, que transcende o samba ao apresentar uma fusão rara de ancestralidade e modernidade. O álbum consagra a voz inconfundível de Clementina, um timbre grave e rouco que se tornou um elo dinâmico entre o Brasil e as raízes africanas, resgatando cantos negros tradicionais e celebrando a autenticidade do partido alto, gênero do qual ela é considerada a rainha. Este disco é particularmente especial por desafiar chavões e expandir as fronteiras da música popular brasileira. Ele não apenas solidifica a posição de Clementina como uma intérprete singular, mas também mostra sua capacidade de dialogar com diferentes gerações de compositores e arranjadores, criando um universo sonoro que é ao mesmo tempo respeitoso com a tradição e aberto à experimentação.
Contexto
A trajetória artística de Clementina de Jesus é notável por seu início tardio, sendo descoberta apenas aos 63 anos pelo compositor e produtor Hermínio Bello de Carvalho, após décadas trabalhando como empregada doméstica. Antes de sua profissionalização em 1963, Clementina já trazia em sua memória musical uma rica herança das vivências africanas, da cultura jongueira e das rodas de samba do Rio de Janeiro, tendo frequentado as escolas de samba Portela e Mangueira. O lançamento de Marinheiro Só em 1973 ocorreu em um momento de superação pessoal para a artista, que havia sofrido uma trombose cerebral em março do mesmo ano. Dois meses depois, ela já estava em estúdio, demonstrando sua resiliência e paixão pela música ao dar continuidade à sua produção fonográfica.
Gravação
O álbum Marinheiro Só foi gravado pela Odeon, com a produção de Milton Miranda e Hermínio Bello de Carvalho. A gravação ocorreu no estúdio do Museu da Imagem e do Som (MIS), onde Clementina já havia contribuído para o álbum Milagre dos Peixes de Milton Nascimento. Na gravação, Clementina de Jesus foi acompanhada pelo grupo Nossa Samba. Uma particularidade notável do disco é a participação do percussionista Naná Vasconcelos na faixa "Taratá", onde ele utilizou uma tabla indiana, o que pode ter sido uma das primeiras vezes que o instrumento foi gravado no Brasil. Curiosamente, a ficha técnica original do disco não apresenta os créditos dos músicos participantes.
Músicas
O repertório de Marinheiro Só é uma rica tapeçaria de cantos, dedicada de forma especial ao "amigo Caetano Veloso", que inclusive assina o arranjo da faixa-título. O disco harmoniza cantos religiosos afro-brasileiros, alguns de domínio público e outros de compositores consagrados como Dorival Caymmi, com composições de uma nova geração de sambistas. Entre as faixas que se destacam estão as contribuições de Paulinho da Viola, como "Na Linha do Mar" e "Essa Nega Pede Mais". A canção "Taratá" é um ponto alto, um canto de trabalho que Clementina transforma em uma experiência musical inovadora, explorando uma vasta gama de matizes melódicas em sua voz em conjunto com as camadas percussivas de Naná Vasconcelos. O álbum também inclui a sequência "Cinco Cantos Religiosos", que reforça a conexão com a espiritualidade e a ancestralidade.
Legado
Marinheiro Só, e a obra de Clementina de Jesus como um todo, é fundamental para o reconhecimento e a valorização da cultura negra no Brasil. A artista é amplamente reconhecida como uma figura central no resgate de cantos negros tradicionais e na popularização do samba, especialmente do partido alto. Sua voz marcante influenciou uma geração de grandes nomes do samba, incluindo Beth Carvalho, Clara Nunes e Martinho da Vila, que seguiram seus passos na preservação da autenticidade e da força do gênero. A importância de Clementina foi celebrada em diversas ocasiões, como o espetáculo em sua homenagem no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 1983, com a participação de Paulinho da Viola, João Nogueira e Elizeth Cardoso, e o enredo da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis no mesmo ano, "A Grande Constelação das Estrelas Negras". Apesar de ter iniciado sua carreira tardiamente, Clementina de Jesus deixou um legado duradouro, sendo até hoje uma referência para a música brasileira e um símbolo de resistência cultural.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Milton Miranda