Pela Paz em Todo Mundo

Cólera

1986

Capa de Pela Paz em Todo Mundo
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Lançado em 1986, Pela Paz em Todo Mundo é o segundo álbum de estúdio da seminal banda de punk rock brasileira Cólera, e representa um marco incontestável na história do gênero no país. O álbum se destaca por subverter o estereótipo agressivo e niilista do punk da época, propondo uma mensagem de pacifismo insurgente e radical, não meramente ingênua ou conciliadora. Através de letras diretas e uma sonoridade visceral, o Cólera ousou defender a paz como um ato de enfrentamento político em um cenário de violência estrutural e desigualdade. A obra é considerada um divisor de águas, marcando a transição do punk nacional para uma fase mais "esperta" e consciente. O trio paulista, formado por Redson (vocal e guitarra), Pierre (bateria) e Val (baixo), trouxe críticas esclarecidas e interpretações emotivas sobre temas como antimilitarismo, ecologia, direitos humanos e autogestão. Essa abordagem, que misturava a urgência da luta de classes com um senso melódico até então incomum no cenário local, antecipou elementos do hardcore melódico que ganhariam força anos depois. A relevância de sua mensagem permanece atemporal, ecoando as angústias e questionamentos de uma geração.

Contexto

O álbum foi lançado em um período crucial da história brasileira, em 1986, quando o país vivenciava a transição da ditadura militar para a redemocratização, um tempo de efervescência política e social. Paralelamente, o cenário global era marcado pela paranoia da Guerra Fria e a ascensão do neoliberalismo, que também influenciavam a juventude da época. Nesse contexto, o movimento punk brasileiro, que já havia emergido no final dos anos 1970, servia como uma ferramenta de crítica contundente à censura, à repressão e à exploração. O Cólera, fundado em 1979, já era uma das bandas mais respeitadas e atuantes da cena, dando voz à juventude operária e periférica de São Paulo. Pela Paz em Todo Mundo consolidou essa trajetória, expandindo o horizonte temático do punk ao abordar questões de alcance global.

Gravação

Pela Paz em Todo Mundo foi lançado de forma independente pelo selo Ataque Frontal em 1986, uma característica comum na cena underground da época. A produção do álbum ficou a cargo da Devil Discos, evidenciando o espírito faça-você-mesmo (DIY) que era a essência do punk. Os técnicos de gravação e mixagem incluíram Zé Luis, Edu, Nico e o próprio Redson, vocalista e guitarrista da banda, o que demonstra o controle artístico e a autonomia do grupo sobre sua obra. Um detalhe notável da prensagem original em LP é que ela era acompanhada pela “Declaração Universal dos Direitos Humanos” e um manifesto intitulado “Registro Arqueológico Sobre o Século XX”, ambos escritos pela própria banda, reforçando a profundidade ideológica do trabalho. O álbum foi posteriormente remasterizado por Fernando Sanches em 2016, sob o selo EAEO Records, garantindo sua perpetuação para novas gerações.

Músicas

As quatorze faixas de Pela Paz em Todo Mundo são um manifesto de consciência social e existencial, com letras diretas e sem metáforas rebuscadas, elaboradas para serem compreendidas por todos. A banda explorou uma gama de temas, incluindo injustiça social, direitos humanos, pacifismo, crítica à manipulação política, devastação ambiental e a complexidade da vida do trabalhador na metrópole. Canções como "Medo", "Funcionários", "Direitos Humanos" e "Vivo na Cidade" tornaram-se hinos de revolta urbana e reflexão. A faixa-título, "Pela Paz", é particularmente emblemática, evidenciando a violência global, a indiferença social e a perpetuação do ciclo de brutalidade entre gerações. O refrão "Mas quem se importa? Eu me importo" ressalta a postura engajada da banda em contraste com a apatia. O vocalista Redson, principal compositor, possuía uma sensibilidade ímpar para traduzir sentimentos complexos em versos simples e impactantes. A sonoridade é marcada pela batida de bateria característica de Pierre, influenciada por bandas como U.K. Subs, The Clash e Stiff Little Fingers, que confere um vigor e urgência únicos às composições.

Legado

Pela Paz em Todo Mundo alcançou um sucesso notável para um lançamento independente na cena underground brasileira, vendendo cerca de 85.000 cópias em sua edição original. Sua repercussão ultrapassou as fronteiras nacionais, levando o Cólera a excursionar pela Europa em 1987, tornando-se a primeira banda independente brasileira a realizar tal feito. O impacto duradouro do álbum é evidenciado por seu reconhecimento crítico; em julho de 2016, a revista Rolling Stone Brasil o elegeu como o 2º melhor disco de punk rock do Brasil. "Pela Paz em Todo Mundo" não apenas consolidou o sucesso do Cólera, mas também deixou uma marca indelével na cena punk nacional, inspirando inúmeros jovens a refletir sobre as questões sociais e políticas de seu tempo e a encontrar na música uma voz de contestação e esperança. Sua mensagem e sonoridade continuam relevantes, vibrantes e atuais, atestando sua importância na discografia brasileira.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Produção

Ataque Frontal Records

Baixo [Uncredited]

Val Pinheiro

Bateria [Uncredited]

Pierre

Guitarra, Vocais [Uncredited]

Redson

Technician [Recording Technician], Mixagem

Eduardo Santos, Nico Bloise, Redson, Zé "Heavy" Luiz

Arte, Composição

Cólera

Texto do Encarte

Cólera, Roberto Peixoto

Fotografia [Back Cover & Insert Photos]

Marcelo Mega, Yang

Referências

Livros