O Canto da Cidade
Daniela Mercury
1992

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Por Que Esse Disco é Importante
O álbum O Canto da Cidade, homônimo de seu primeiro single, emerge como um marco essencial na música brasileira. Sua faixa-título, um samba-reggae com marcante pegada rock, representa uma fusão inovadora que Daniela Mercury habilmente desenvolveu, incorporando elementos do pop e explorando uma sonoridade mais elaborada, mas sem se desvincular de suas raízes baianas e do gênero. Essa abordagem mais madura do samba-reggae permitiu que a canção ressoasse com um público mais amplo, mantendo sua originalidade melódica. Liricamente, a canção se destaca pela sua simplicidade e profundidade, sendo uma homenagem ao povo de Salvador. Ela articula a cultura da cidade através da resistência e da autoafirmação da população negra, abordando temas de preconceito e negritude com um discurso vibrante e altivo. A canção é um espelho da alma brasileira, traduzindo o sentimento de um povo que buscava se afirmar.
Contexto
Em 1992, Daniela Mercury já havia alcançado sucesso com o projeto "Som do Meio-Dia" em São Paulo, o que a levou a assinar com a Sony Music. Apesar do potencial para ascensão nacional, a gravadora resistia à aposta da artista no samba-reggae, gênero no qual ela já era uma expoente em Salvador. A Sony pressionava por um direcionamento mais comercial, sugerindo a emulação do estilo flamenco-pop dos Gipsy Kings, gerando intensos embates e momentos de frustração para a cantora. Nesse cenário, Mercury recebeu uma gravação amadora da canção "O Canto da Cidade" de Tote Gira, que passava por dificuldades financeiras. Apesar da precariedade da demo, a cantora viu o potencial da música e dedicou dois meses a ela, modificando versos e buscando um arranjo que a satisfizesse, mesmo diante do ceticismo inicial da equipe e do próprio baixista.
Gravação
A gravação da canção "O Canto da Cidade" ocorreu em julho de 1992 no renomado estúdio WR, em Salvador. A produção ficou a cargo de Liminha, enviado pela Sony, que se integrou à banda e se encantou pelo samba-reggae dos blocos afro da cidade. Sua abordagem foi de não intervir excessivamente no processo criativo, elogiando a qualidade da banda de Mercury e a rapidez com que tudo se encaixava, resultando numa sonoridade "muito redonda". Liminha manteve a estrutura original da canção, que ele considerava "perfeita", focando suas modificações apenas em timbres de teclado. Seu objetivo era "organizar o axé" e torná-lo mais "radiofônico", culminando numa sonoridade descrita por Mercury como um "samba-reggae com um pouco de influência rock". Apesar da satisfação da artista e do compositor com a versão final, os executivos da Sony Music ainda relutavam em reconhecê-la como um sucesso potencial, considerando o samba-reggae uma moda ultrapassada e as letras "pedantes" por não compreenderem seu contexto social. Contudo, Daniela Mercury insistiu para que a canção fosse lançada como o primeiro compacto simples do álbum.
Músicas
A faixa-título "O Canto da Cidade" se destaca como um samba-reggae com uma expressiva pegada rock, marcando um dos pontos de partida para o que viria a ser o axé. Diferente de trabalhos anteriores, a canção incorpora mais elementos da música pop, como teclados e baixo, e menos os tambores afro-brasileiros. Daniela Mercury buscou elaborar uma sonoridade pop que mantivesse a essência baiana, permitindo uma identificação mais ampla sem descaracterizar suas raízes. Sua melodia, considerada original, contribuiu significativamente para o impacto da canção. As letras, de autoria de Tote Gira e com alterações de Daniela Mercury, são notavelmente simples, mas carregadas de significado. Inspiradas na celebração da cultura afro-americana, elas se tornaram uma ode a Salvador, celebrando seus valores culturais e o povo que organiza o carnaval. Versos como "a cor dessa cidade sou eu" e "o canto dessa cidade é meu" ressaltam a forte presença da população negra e a influência africana na musicalidade brasileira, sendo uma poderosa declaração de autoafirmação e resistência contra a discriminação. Mercury descreve a canção como um grito da negritude, que fala de preconceito com um discurso afirmativo e fácil de absorver, capaz de se tornar um "canto de todas as cidades".
Legado
“O Canto da Cidade” não foi apenas um sucesso estrondoso, mas se tornou um dos maiores hits de Daniela Mercury, consolidando sua carreira e estabelecendo o axé em todo o território nacional. A canção foi a terceira mais ouvida no Brasil em 1992 e ainda hoje é uma das mais regravadas e executadas. Sua repercussão internacional, com destaque para o sucesso na América Latina, demonstra a capacidade da música de transcender barreiras linguísticas e culturais. O álbum e sua faixa-título são amplamente lembrados por sua onipresença durante o período do impeachment de Fernando Collor de Mello e a crise político-econômica do país. Nesse contexto, a canção foi interpretada como um símbolo de resgate da alegria e autoestima nacional, conectando-se a um público abatido que ansiava por celebrar a democracia e protestar contra a corrupção. Em 1992, a canção foi indicada ao Prêmio Sharp de melhor música do ano e venceu o Troféu Imprensa em 1993, atestando sua relevância. O videoclipe, lançado no Fantástico, rapidamente alcançou o topo do Top 20 Brasil na MTV, amplificando ainda mais seu alcance. O legado de “O Canto da Cidade” estende-se à visibilidade que trouxe para a cultura baiana e o carnaval de Salvador, além de ter dado voz a compositores negros marginalizados na indústria musical. A artista Beth Carvalho, inclusive, reconheceu que Daniela Mercury “devolveu o samba aos pés do Brasil” com essa obra, sublinhando sua importância para a renovação e reafirmação da música popular brasileira para novas gerações.
Faixas
Créditos
Ramiro Musotto
Daniela Mercury, Herbert Vianna, Liminha, Luiz Assis, Ramiro Musotto, William Magalhães
Liminha
Jaqueline Sperandio
Vitor Jairo
Angela Lima, Betinho Resende, Raje, Ramon Cruz, Toinho Brito, Vania Mercury
Manolo Pousada
Cesário Leony, William Magalhães
Liminha
Ramon Cruz
Ramiro Musotto
Betinho Resende
Toni Augusto
Angela Lima, Betinho Resende, Dinde, Raje, Ramiro Musotto, Ramon Cruz, Sidnei, Toinho Brito, Vania Mercury, Vitor
David Santiago, William Magalhães
Luiz Assis
Tê Nunes
Guilherme Colicchio, Marcio Paquetá
DS Produções
Théo Oliveira
Betinho Resende, Ramiro Musotto, Théo Oliveira
Ramiro Musotto
Betinho Resende, Jackson, Ramiro Musotto, Théo Oliveira
Prego
Liminha, Ramiro Musotto
Ramiro Musotto
Ramiro Musotto
Betinho Resende, Théo Oliveira
Putuca
Antoine Midani, Liminha, Paulo Junqueiro, Vitor Farias, Walter Rodrigues
Liminha, Paulo Junqueiro, Vitor Farias
Ricardo Garcia
Dinde, Sidnei
Carlos Nunes
Jorge Sampaio
Marcelo Faustini
Podcasts
O Som do Vinil | Podcast · Canal Brasil
Espontânea, Daniela Mercury fala sobre a representação baiana e brasileira que traz no álbum “O Canto da Cidade”, de 1992. A cantora também fala que o axé é a tradução espiritual do povo afro-brasileiro.
Vídeos
Por Trás da Canção - "O Canto da Cidade" de Daniela Mercury - T03 EP13 (teaser)
RIO CINEMA DIGITAL
Documentário Especial Globo Daniela Mercury 1992 - O canto da Cidade
Yáskara Sidou
Livros
Análises
O Canto da Cidade – Wikipedia
Wikipédia, a enciclopédia livre
"O Canto da Cidade" (Columbia, 1992), Daniela Mercury
discosessenciais.blogspot.com
O Canto da Cidade chegou às lojas em setembro de 1992, e foi muito bem recebido pela crítica. A primeira música de trabalho do álbum foi a faixa-título que estourou em todo o país.
MUSICA&SOM: Daniela Mercury - O Canto da Cidade (1992)
tabernanovostempos.blogspot.com
Lançado pela Sony Music Brasil em 20 de setembro de 1992, com produção de Liminha. O projeto tornou-se um sucesso, recebeu disco de diamante cedido pela Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD) por vendas superiores a um milhão de cópias no Brasil.
Obra analisa disco emblemático 'O Canto da Cidade' de Daniela Mercury ...
cartacapital.com.br
Um do disco que marcou a música brasileira, O Canto da Cidade, de Daniela Mercury, completa 30 anos de lançamento no ano que vem. Um livro analisa o álbum antes de ser feito, o processo de produção e o resultado depois de ser apresentado ao público.
Daniela Mercury - O Canto da Cidade (1992) - A História do Disco
ahistoriadodisco.com.br
Como bom carnavalesco que sou me lembrei de que um disco de axé ainda não tinha vindo aqui pro nosso site, ai resolvi falar do estilo por uma das cantoras mais icônicas do mesmo. Bora resenhar sobre o segundo álbum de estúdio de Daniela Mercury.
