Dom Um
Dom Um Romão
1964

Porque Merece Estar na Lista
Dom Um, o álbum de estreia de Dom Um Romão lançado em 1964, é uma joia singular que solidifica a reputação do artista como um dos mais inovadores bateristas e percussionistas da música brasileira. Este trabalho seminal é uma celebração rítmica, entrelaçando as batidas sofisticadas da bossa nova com a efervescência do jazz brasileiro e a riqueza da percussão latina. Romão demonstra uma maestria ímpar, utilizando a bateria não apenas como um instrumento de apoio, mas como uma voz principal que guia e enriquece a narrativa musical de cada faixa. O álbum se destaca por sua abordagem inovadora, onde a musicalidade de Romão se manifesta através de linhas rítmicas controladas, pontuadas por quebras dinâmicas que convidam à improvisação e ao diálogo entre os músicos. Ele transcende a função tradicional da bateria, elevando-a a um patamar de expressividade melódica e textural. Dom Um é uma obra que, desde sua concepção, prometia a grandiosidade da trajetória que Romão viria a trilhar, estabelecendo um novo paradigma para a percussão na MPB e no jazz fusion. É um testemunho do seu gênio criativo e um portal para a riqueza rítmica do Brasil.
Contexto
Em meados da década de 1960, o Brasil vivenciava o auge e a transição da bossa nova, com seus sons suaves e harmonias sofisticadas dominando a cena musical, enquanto novos ventos de experimentação jazzística começavam a soprar. Dom Um Romão já era uma figura proeminente neste cenário, tendo iniciado sua carreira no Rio de Janeiro nos anos 1940. Na década seguinte, ele foi co-fundador do Copa Trio, um grupo que desempenhou um papel crucial no lançamento do movimento da bossa nova, colaborando com ícones como Tom Jobim e João Gilberto. Sua participação no emblemático álbum Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso, em 1958, é amplamente reconhecida como um marco para a bossa nova. Antes de lançar seu disco solo, Dom Um Romão já havia integrado o Brazilian Jazz Sextet de Sérgio Mendes e se apresentara no prestigiado Bossa Nova Festival no Carnegie Hall em 1962. No mesmo ano, sua versatilidade o levou a gravar com o renomado jazzista Cannonball Adderley no álbum Cannonball's Bossa Nova. Dom Um emerge, portanto, como a culminação natural de uma década intensa de colaborações e inovações no epicentro da música brasileira.
Gravação
O álbum Dom Um foi gravado e lançado em 1964 pela gravadora Philips, apresentando-se em formato de vinil LP estéreo. A ficha técnica do disco revela um time de músicos e produtores de alta calibre, fundamental para a sonoridade distintiva do trabalho. A produção ficou a cargo de Armando Pittigliani, com a engenharia de gravação de Sylvio Rabello e a assistência técnica de Célio Martins. Além da percussão e bateria virtuosas do próprio Dom Um Romão, o álbum contou com Rubens Bassini na percussão, enriquecendo ainda mais as texturas rítmicas. A direção musical e os arranjos foram divididos entre talentos como Cipó (Orlando Silva de Oliveira Costa), J. T. Meirelles, Paulo Moura e Waltel Branco, este último também contribuindo com composições. A banda de apoio incluía J. T. Meirelles no saxofone, Toninho Oliveira no piano, Paulo Moura e Hamilton Cruz no trompete, formando uma base instrumental que dialogava com a complexidade rítmica proposta por Romão.
Músicas
Com doze faixas e uma duração aproximada de 23 minutos, Dom Um apresenta uma seleção eclética que transita entre composições originais e releituras de clássicos da bossa nova e da MPB. O álbum revisita temas icônicos como "Telefone" de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, "Vivo Sonhando" de Antonio Carlos Jobim e "Consolação" de Baden Powell e Vinicius De Moraes. A interpretação de "Diz Que Fui Por Aí" de H. Rocha e Zé Keti, e "Fica Mal Com Deus" de Geraldo Vandré, também são pontos altos. Entre as composições originais que se destacam estão "Jangal" de Orlann Divo e R. Bassini, "África" e "Dom Um Sete" de Waltel Branco, e "Zambeze" de Orlann Divo e Roberto Jorge. Em faixas como "Vivo Sonhando" e "Zona Sul", Romão demonstra sua capacidade de criar bases rítmicas controladas que abrem espaço para improvisações fluidas dos outros instrumentistas, como J. T. Meirelles no sax e Toninho Oliveira no piano. A riqueza cultural brasileira é evidenciada em "Dom Um Sete", que evoca ritmos de candomblé, e em "Fica Mal Com Deus", um baião acústico que convida à dança. "Zona Sul" é notável pela sua transição da bossa nova para elementos de acid jazz.
Legado
Embora o álbum Dom Um não tenha recebido uma divulgação extensiva na época de seu lançamento, em parte devido à intensa agenda de Dom Um Romão e sua mudança para os Estados Unidos no ano seguinte, sua importância é reconhecida postumamente. O disco é considerado um dos álbuns mais importantes na discografia do artista, consolidando seu papel como um inovador da percussão brasileira. No Discogs, o álbum ostenta uma avaliação média de 5 de 5 estrelas, embora baseada em um número limitado de avaliações, o que sublinha o apreço dos conhecedores por esta obra. Apesar da modesta repercussão inicial, Dom Um serviu como um trampolim para a carreira internacional de Dom Um Romão, que viria a colaborar com uma plêiade de artistas globais e a se juntar à lendária banda de jazz fusion Weather Report em 1971. A sonoridade e a abordagem rítmica presentes em Dom Um prefiguram a versatilidade e a profundidade musical que Romão levaria para o cenário do jazz mundial, influenciando gerações de percussionistas e solidificando seu status como um dos grandes mestres do ritmo.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Cipó, João Theodoro Meirelles, Paulo Moura, Waltel Branco
Armando Pittigliani
Dom Um Romao
Rubens Bassini
Sylvio Rabello
Célio Martins
Francisco Pereira
