Caymmi e Seu Violão
Dorival Caymmi
1959

Ranking nas Listas
Por Que Esse Disco é Importante
Caymmi e Seu Violão, lançado em 1959, é um marco definitivo na discografia de Dorival Caymmi, solidificando sua posição como um dos maiores e mais originais compositores e intérpretes da música popular brasileira. Este álbum se destaca pela sua abordagem minimalista, apresentando Caymmi apenas com sua voz e violão, uma escolha que desnudou e ressaltou a profundidade e a genialidade de suas composições. A simplicidade do arranjo permite que o ouvinte se conecte diretamente com a essência poética e melódica das canções, muitas das quais já eram clássicos em seu repertório. O disco é considerado uma obra-prima por sua capacidade de evocar a alma da Bahia, seus hábitos, costumes e a íntima relação de seu povo com o mar, temas que sempre pautaram a obra de Caymmi. A fusão orgânica entre sua voz poderosa e o violão, que não é um mero acompanhamento, mas uma parte intrínseca e expressiva da narrativa musical, é um testemunho da inventividade harmônica do artista. O álbum demonstra o equilíbrio e a perfeita integração que Caymmi alcançou entre o canto e o instrumento, criando um modelo para a canção brasileira de voz e violão.
As canções de Caymmi por si só permitem “ver” a Bahia, mas ganham ainda mais força na voz e no violão do criador.
Toninho Spessoto · Rolling Stone Brasil
Contexto
Em 1959, ano de lançamento de Caymmi e Seu Violão, o Brasil vivia um período de intensa efervescência cultural e modernização, com a emergência da Bossa Nova, que naquele mesmo ano lançava o seminal Chega de Saudade de João Gilberto. Dorival Caymmi, nascido em Salvador em 1914, já era um nome consagrado na música brasileira, tendo se mudado para o Rio de Janeiro em 1937 para tentar a carreira de jornalista e artista, mas encontrando sucesso rapidamente através de sua música. Antes de Caymmi e Seu Violão, o artista já havia construído uma trajetória sólida, popularizando a Bahia e seus personagens, com canções que se tornaram ícones na voz de Carmen Miranda, como "O Que É Que a Baiana Tem?". Seus trabalhos anteriores, como Canções Praieiras (1954) e Caymmi e o Mar (1957), já exploravam a temática marítima e baiana, mas o álbum de 1959 representou um aprofundamento e uma recontextualização dessas obras, marcando um ponto alto em sua carreira ao apresentar um trabalho essencialmente voz e violão.
Gravação
Caymmi e Seu Violão foi gravado pela Odeon, uma das grandes gravadoras da época no Brasil. A produção artística do álbum ficou a cargo de Aloysio de Oliveira, figura proeminente na indústria fonográfica brasileira. O registro é notável por sua simplicidade, com Dorival Caymmi sendo o único instrumentista, tocando violão e vocalizando, por vezes adicionando assobios, o que confere ao trabalho uma intimidade e autenticidade raras. O álbum foi lançado em formato LP de 12 polegadas, o que, segundo especialistas, contribuiu para seu maior alcance e reconhecimento em comparação a trabalhos anteriores de 10 polegadas, como Canções Praieiras. A parte visual também teve seu destaque, com a fotografia da capa assinada por Francisco Pereira e o layout desenvolvido por Cesar Villela, que trouxe sua inventividade gráfica para a identidade visual do disco, pouco tempo após ingressar na Odeon. É importante ressaltar que a gravação de 1959 é considerada tecnicamente superior (em captação, mixagem e masterização) às suas versões anteriores, o que valorizou ainda mais a proposta minimalista.
Músicas
O repertório de Caymmi e Seu Violão é composto por doze canções, todas de autoria de Dorival Caymmi, profundamente enraizadas na cultura e nas paisagens da Bahia. As faixas do álbum revisitam e expandem o universo praieiro e marítimo do compositor, incluindo regravações de sucessos de Canções Praieiras (1954) e músicas de Caymmi e o Mar (1957), apresentadas agora em arranjos despojados de voz e violão. Entre os destaques estão "Pescaria (Canoeiro)", "A Jangada Voltou Só", "É Doce Morrer no Mar", "O Mar", "Coqueiro de Itapoan", "A Lenda do Abaeté", "Promessa de Pescador" e "Noite de Temporal". As letras de Caymmi são verdadeiras crônicas da vida litorânea, abordando desde a labuta diária dos pescadores e suas crenças em "Promessa de Pescador" até a melancolia e a tragédia do mar em "A Jangada Voltou Só" e "O Mar". Esta última, por exemplo, é notável pelo contraste entre a beleza da melodia e a narrativa de perda e desespero. "Noite de Temporal" encerra o álbum com a tensão da espera de uma mãe pelo filho que partiu para a pesca. Caymmi demonstra maestria em transformar o cotidiano e os elementos naturais em poesia lírica e envolvente, onde o violão e a voz se entrelaçam para descrever e evocar a realidade das histórias cantadas.

O básico: um compositor/intérprete e seu violão. Mas, para que a combinação singela se transforme numa obra-prima atemporal, adicione-se o principal ingrediente: Dorival Caymmi.
Tárik de Souza · 300 Discos Importantes
Legado
Caymmi e Seu Violão é universalmente aclamado pela crítica especializada como uma obra-prima e figura entre os grandes discos brasileiros de todos os tempos. Sua concepção intimista, com foco exclusivo na voz e no violão de Caymmi, foi um divisor de águas, comprovando de forma inequívoca o gênio do artista em sua plenitude como compositor, músico e intérprete. A influência de Dorival Caymmi, e em particular deste álbum em sua forma pura, ressoa por gerações de músicos brasileiros. Ele é considerado um precursor e uma fonte de inspiração fundamental para a Bossa Nova, e seu trabalho foi elogiado por nomes como Antônio Carlos Jobim, que o descreveu como um "gênio universal" e o maior compositor do Brasil, e por Chico Buarque, que o considerava um caso à parte e inimitável. Artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil também citam Caymmi como uma influência significativa. O sucesso duradouro do álbum é evidenciado não apenas pela sua reputação crítica, mas também pelas inúmeras reedições ao longo das décadas, mantendo viva a admiração por sua simplicidade e profundidade atemporais.
Faixas
Créditos
Dorival Caymmi
Cesar G. Villela
Francisco Pereira
Filmes

Dorival Caymmi: Programa Ensaio
1972
O programa Ensaio, da TV Cultura, gravado 1972, recebe Dorival Caymmi para o quadro MPB Especial. O compositor abre o show com composições de sua autoria, como "Francisca Santos das Flores", "Itapoã", "A Jangada Voltou Só", "Dois de Fevereiro", "Promessa de Pescador" e "Coqueiro de Itapoã". Seguida da abertura musical, Caymmi fala sobre Salvador e sua infância. Conta, de maneira poética, sobre a descoberta da amizade e de Zezinho, seu primeiro amigo e uma grande influência para o seu envolvimento com música. E, como um bom contador de histórias, revela aos poucos a trama de um ballet para o qual compôs canções. Feito a base de canto e percussão para uma companhia russa que andava pelo Brasil, os atos desmembraram-se em músicas que se tornaram conhecidas, como "Canção da Noiva".

Dorival Caymmi - Um Homem de Afetos
2024
Uma viagem irresistível pelo universo do cantor e compositor que revolucionou a canção no Brasil e influenciou gerações de músicos, abrindo caminho para Bossa Nova e a Tropicália. Traduzindo sensorialmente os versos de Caymmi, o filme passeia pela atmosfera vibrante dos pescadores baianos, as referências de raiz africana, a religiosidade e espiritualidade no candomblé, e suas histórias de amor.

Nas Ondas de Dorival Caymmi
2024
O filme revela a criação das obras musicais do poeta Dorival Caymmi com depoimentos de pesquisadores, jornalistas e amigos que conviveram com ele e puderam desfrutar de sua sabedoria e talento. Caymmi mudou para sempre sua história e também a da cantora Carmen Miranda, que gravou pela primeira vez uma de suas músicas, "O que é que a Baiana Tem?", e se tornou um sucesso imediato nacional e internacional. Com arquivos e imagens inéditas, o documentário aborda a trajetória do repertório musical do compositor através da interpretação de grandes artistas.

Um Certo Dorival Caymmi
2002
A vida e obra do compositor baiano, da sua vinda para o Rio de Janeiro ao envolvimento com outras formas de expressão artística como o cinema e a pintura.

Dorivando Saravá, o Preto Que Virou Mar
2019
O primeiro a cantar os orixás e a introduzir o tempo do candomblé na MPB. Desafiou a morte ao se entregar nos braços de Iemanjá, e – Obá de Xangô que era – Dorival Caymmi não morreu. Virou mar. Conceitos presentes na vida e obra de Caymmi são recriados em poéticas praieiras concebidas a partir dos seus trabalhos de pintura e composição, acompanhadas de falas reveladoras do compositor, garimpadas em antigas entrevistas. Ele é representado como um verbo que o povo brasileiro precisasse urgentemente conjugar.
Livros

Os 500 Maiores Álbuns Brasileiros de Todos os Tempos
Ricardo Alexandre · 2022
A maior eleição de música brasileira já feita: 162 especialistas, entre jornalistas, críticos, músicos, produtores e podcasters, indicaram, cada um, 50 discos essenciais, apoiados por uma masterlist de mais de 2.000 obras. Encabeçada por Ricardo Alexandre, com tabulação de Sérgio Jomori, foi publicada em dezembro de 2022 em um livro de 200 páginas em capa dura, com projeto gráfico de Fernando Pires.

300 Discos Importantes da Música Brasileira
Charles Gavin, Tárik de Souza, Carlos Calado, Arthur Dapieve · 2008
Idealizado pelo baterista dos Titãs e pesquisador musical Charles Gavin, o livro de 434 páginas reúne capas e resenhas de discos lançados entre 1929 e 2007. Os textos ficaram a cargo dos jornalistas Tárik de Souza, Arthur Dapieve e Carlos Calado.

Dorival Caymmi: o mar e o tempo
Stella Caymmi · 2001
A biografia definitiva de Dorival Caymmi, escrita por sua filha Stella Caymmi. Esta obra monumental explora a vida e a carreira do compositor, detalhando sua trajetória musical, o processo criativo de suas canções e o impacto de sua obra na música brasileira, fornecendo um contexto essencial para o estudo de seus álbuns e períodos artísticos, incluindo 'Caymmi e Seu Violão'.
Análises
Caymmi e Seu Violão – Wikipedia
Wikipédia, a enciclopédia livre
Caymmi e Seu Violão – Os 100 Maiores Discos da Música Brasileira
Toninho Spessoto · Rolling Stone Brasil
As canções de Caymmi por si só permitem “ver” a Bahia, mas ganham ainda mais força na voz e no violão do criador.
Aquela Musica Apresenta "Caymmi e Seu Violão - 1959"
aquelamusica.com
Produzido por Aloysio de Oliveira, " Caymmi e Seu Violão " é um álbum do cantor e compositor brasileiro Dorival Caymmi e foi lançado no ano de 1959 pela gravadora Odeon.
Dorival Caymmi - Caymmi e seu Violão - Ouvir todas as 12 músicas
ouvirmusica.com.br
Venha ouvir "Pescaria (Canoeiro)", "A Jangada Voltou Só", "Dois de Fevereiro" e muitas outras músicas do álbum Dorival Caymmi - Caymmi e seu Violão!