Circense
Egberto Gismonti
1980

Porque Merece Estar na Lista
Circense, lançado em 1980, figura como uma das obras mais emblemáticas e aclamadas na vasta discografia de Egberto Gismonti, consolidando sua reputação como um dos mais inovadores e virtuosos multi-instrumentistas do Brasil. O álbum é concebido sob a ideia de um 'circo musical', um conceito que amalgama a apelo universal da arte circense com a rica identidade cultural brasileira. Essa estrutura narrativa permite a Gismonti explorar uma fusão vibrante de elementos do jazz contemporâneo, da música clássica e das tradições folclóricas brasileiras, resultando em uma sonoridade única e performática. Gismonti demonstra em Circense uma maestria ímpar na união de diversas linguagens musicais, desde a complexidade da música dodecafônica, que estudou na Europa, até a espontaneidade dos ritmos regionais brasileiros. Sua habilidade de tecer paisagens sonoras ricas e narrativas musicais evocativas, utilizando uma vasta gama de instrumentos como violão (incluindo o de 10 cordas), piano e voz, confere ao álbum um brilho artístico e uma profundidade emocional notáveis. Circense não é apenas um disco, mas uma experiência sensorial que cativa pela coerência temática e pela riqueza harmônica, reafirmando o impacto duradouro de Gismonti na música brasileira e mundial.

Apesar de apreciada no mundo inteiro, sua música ainda hoje é rotulada de “difícil”, tal qual um Villa-Lobos moderno.
Antônio do Amaral Rocha · Rolling Stone Brasil
Contexto
Antes de conceber Circense, Egberto Gismonti já havia construído uma trajetória musical notável, pautada por uma intensa pesquisa e experimentação. Nascido em Carmo, Rio de Janeiro, em 1947, ele iniciou seus estudos de piano aos cinco anos e, durante a adolescência, já dominava flauta, clarinete e violão, aprofundando-se no Conservatório Brasileiro de Música. Sua inquietação o levou a Paris em 1969, onde estudou música dodecafônica com Jean Barraqué e análise musical com Nadia Boulanger, elementos que viriam a moldar sua abordagem sofisticada e inclusiva da composição. A década de 1970 foi um período de prolífica produção para Gismonti, na qual ele se dedicou quase exclusivamente à música instrumental, explorando o folclore e os ritmos brasileiros como o frevo, baião, samba e maracatu. Ele transicionou do piano para o violão, experimentando com instrumentos de 8 e 10 cordas, e colaborou com nomes importantes como Naná Vasconcelos em álbuns aclamados como Dança das Cabeças (1976). Circense, gravado em 1979, emerge, portanto, como a culminação dessa fase exploratória, uma síntese madura de suas diversas influências e de sua busca incessante por uma sonoridade que fosse ao mesmo tempo profundamente brasileira e de alcance internacional.
Gravação
O álbum Circense foi escrito e gravado por Egberto Gismonti em 1979, com seu lançamento inicial como LP pela EMI (EMI Odeon no Brasil) em 1980. A produção ficou a cargo de Mariozinho Rocha, e a engenharia de gravação e mixagem foi conduzida por Serginho e Toninho, com Nivaldo Duarte na mixagem. Para dar vida à sua visão conceitual de circo, Gismonti reuniu um elenco estelar de músicos brasileiros da época. Entre os colaboradores estavam Luiz Alves no baixo, Robertinho Silva na percussão, Mauro Senise nos saxofones e flauta, Silvio Mehry no piano e Pery Reis no violão. As vozes de Aleuda Malu, Dulce Bressane e Pepê Castro-Neves adicionaram camadas ricas à sonoridade vocal. Um destaque foi a participação especial do violinista indiano Lakshminarayana Shankar na faixa "Cego Aderaldo", adicionando uma dimensão internacional única à gravação. A condução da orquestra de cordas ficou por conta de Benito Juarez, que contribuiu para a profundidade orquestral dos arranjos. O álbum foi posteriormente relançado em CD pela EMI em 1988 e também pela gravadora CARMO em 1991.
Músicas
As oito faixas de Circense, todas compostas por Egberto Gismonti, com colaborações pontuais em algumas letras, são uma imersão sonora no universo circense, com cada canção evocando elementos e personagens desse imaginário. A abertura, "Karatê", estabelece a energia performática do álbum, com uma dinâmica que remete a movimentos precisos, onde a guitarra de Gismonti interage de forma hábil com a bateria de Roberto Silva. A canção "Cego Aderaldo" é um tributo ao famoso poeta repentista nordestino, e se destaca pela participação especial de Lakshminarayana Shankar no violino, que, junto à viola caipira de Gismonti, cria uma sonoridade com nuances de raga indiana. "Mágico" intensifica a narrativa circense com a inclusão de um coro infantil, contribuindo para a atmosfera de sonho e encantamento. O ponto alto do álbum é, para muitos, "Palhaço", uma composição de Gismonti em parceria com Geraldo E. Carneiro. A faixa é notável por sua dualidade emocional, combinando uma harmonia que se assemelha ao blues com uma melodia lírica e tocante, que se desenrola em um ciclo harmônico aparentemente infinito, culminando em uma ponte orquestrada com traços de modinha. Esta música transcende o estereótipo cômico para revelar a vulnerabilidade e a humanidade por trás do sorriso do artista. Já "Mais que a paixão", coescrita com João Carlos Pádua, fecha o álbum com Gismonti no piano e vocal. As composições exploram a versatilidade de Gismonti no violão (incluindo o de 10 cordas), piano e vocais, em arranjos ricos que transitam entre o samba-jazz, o folk e influências clássicas e internacionais.
Legado
Circense rapidamente se estabeleceu como um marco na discografia de Egberto Gismonti e na música brasileira em geral, sendo amplamente aclamado pela crítica e pelo público. Sua importância é reconhecida em diversas listas e rankings especializados, incluindo a 100ª posição na lista dos "100 melhores álbuns de todos os tempos da música brasileira" da revista Rolling Stone Brasil. Em uma enquete conduzida pelo podcast Discoteca Básica, com a participação de 162 especialistas musicais, o álbum figurou na 102ª posição, reforçando seu prestígio. O álbum recebeu uma avaliação de 4.5 de 5 estrelas do Allmusic, um indicativo da sua qualidade e impacto. É frequentemente citado como um trabalho que define a carreira de Gismonti, comparável ao que The Köln Concert representa para Keith Jarrett, não em estilo, mas em sua capacidade de simbolizar a genialidade de seu criador. Circense solidificou a posição de Gismonti como um artista que inovou na fusão de timbres acústicos, complexidade rítmica e narrativa evocativa, deixando um legado duradouro que continua a inspirar músicos e ouvintes.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Benito Juarez
Egberto Gismonti
Mariozinho Rocha
Nivaldo Duarte
Sérgio Bittencourt, Toninho
Tadeu Valério
Zé Flávio
Lizzie Bravo, Milton Montenegro, Wilton Montenegro
