Dança das Cabeças
Egberto Gismonti
1977

Porque Merece Estar na Lista
Dança das Cabeças, lançado em 1977, é um marco indelével na discografia de Egberto Gismonti e na música brasileira, marcando sua estreia pela prestigiada gravadora alemã ECM. Este álbum não é apenas um registro musical, mas uma imersão profunda em sonoridades que transcendem categorizações fáceis, misturando elementos de jazz, música erudita contemporânea e, sobretudo, a rica tradição folclórica brasileira. O trabalho é uma colaboração seminal com o percussionista Naná Vasconcelos, cuja interação visceral e inventiva elevou a obra a um patamar de inovação e sensibilidade raramente alcançado. A obra se destaca por sua pureza e sofisticação, apresentando uma gama dinâmica que varia de melodias misteriosas e assombrosas a sons percussivos energéticos, remanescentes dos batuques indígenas brasileiros. A crítica aponta que é um trabalho sem máscaras, direto e essencial para quem aprecia a capacidade da música de tocar o coração, a mente e o corpo. Com sua sonoridade que evoca a floresta tropical em toda a sua fecundidade, o álbum é um contraponto à exótica artificial de muitos trabalhos, situando-se firmemente nos benefícios acústicos da musicalidade ao vivo, capturada com a clareza impecável que se tornou a marca registrada da ECM.
Contexto
Antes de Dança das Cabeças, Egberto Gismonti já construía uma trajetória de vanguarda na música brasileira, explorando a fusão de jazz com a bossa nova, ritmos nordestinos e música erudita. Seu interesse pela experimentação e pela riqueza cultural do Brasil já era evidente em trabalhos anteriores, mas este álbum solidificaria sua reputação internacional. Naná Vasconcelos, por sua vez, já era um percussionista talentoso e de reconhecimento crescente. Com experiências variadas, incluindo colaborações com Milton Nascimento no Brasil e uma turnê internacional com o saxofonista argentino Gato Barbieri, Naná se consolidava como uma figura de destaque na percussão mundial, com uma curiosidade intensa que o levava da música erudita de Villa-Lobos ao rock de Jimi Hendrix. Sua especialização no berimbau e a capacidade de aprender praticamente todos os instrumentos de percussão o tornavam um parceiro ideal para os experimentos sonoros de Gismonti.
Gravação
Dança das Cabeças foi gravado em novembro de 1976, no Talent Studio, em Oslo, Noruega, com a notável rapidez de apenas três dias. A produção ficou a cargo de Manfred Eicher, figura lendária da ECM Records, conhecido por sua abordagem minimalista e pela busca de uma sonoridade clara e orgânica, que se alinha perfeitamente com a estética do álbum. Jan Erik Kongshaug foi o engenheiro de gravação. O conceito por trás do álbum, que Gismonti compartilhou com Naná Vasconcelos e que foi o fio condutor das sessões, é poético e visual: dois meninos vagando por uma floresta densa e úmida, repleta de insetos e animais, mantendo uma distância de 55 metros um do outro. Esta imagem inspirou a improvisação e a interação entre os dois músicos, resultando em uma sonoridade que Álvaro Neder descreveu como "pura e sensível, desafiadora e sofisticada", com uma ampla gama dinâmica que evoca uma floresta tropical viva e pulsante.
Músicas
A sonoridade de Dança das Cabeças é predominantemente acústica e profundamente inovadora. Gismonti utiliza violão de 8 cordas, piano, flautas de madeira e voz, enquanto Naná Vasconcelos emprega percussão, berimbau, corpo e voz, criando uma textura sonora rica e orgânica. O álbum é dividido em duas longas suítes, 'Part I' e 'Part II', cada uma com cerca de 25 minutos. A primeira parte é centrada no violão de 8 cordas de Gismonti, explorando sonoridades percussivas e melódicas, enquanto a segunda parte dá destaque ao piano. A música é uma fusão de composições finamente elaboradas com improvisações livres, irradiadas pelo conceito rítmico afro-brasileiro de Naná e seus evocativos "sons da floresta tropical". A faixa-título, por exemplo, é uma complexa construção de seções contrastantes, onde o violão no modo mixolídio se entrelaça com a percussão, voz, flautas e berimbau. A interação em estúdio, com manipulações sonoras que realçam e alternam os instrumentos, foi crucial para a identidade sonora do disco.
Legado
Dança das Cabeças catapultou as carreiras de Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos a um novo patamar internacional. O álbum recebeu diversos prêmios internacionais na Inglaterra, nos Estados Unidos e na Alemanha, incluindo o German Record Critics Prize como Álbum do Ano em 1977, além de reconhecimentos no Brasil. O impacto foi imediato: Naná Vasconcelos se tornou um artista internacional incontestável, viajando pelo mundo e consolidando sua reputação como um dos maiores percussionistas. Egberto Gismonti, por sua vez, retornou ao Brasil com uma nova inspiração, dedicando-se a pesquisas aprofundadas sobre o folclore amazônico, o que influenciou diretamente grande parte de sua obra posterior. O álbum é constantemente reconhecido por sua importância, tendo sido incluído na lista dos 500 maiores discos da música brasileira, uma votação realizada pelo podcast Discoteca Básica em 2022.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Manfred Eicher
Egberto Gismonti
Naná Vasconcelos
Jan Erik Kongshaug
Dieter Bonhorst
Lajos Keresztes
