Saudade do Brasil

Elis Regina

1980

Capa de Saudade do Brasil
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Lançado em 1980, "Saudade do Brasil" é um álbum duplo emblemático na discografia de Elis Regina, representando o registro em estúdio de seu aclamado espetáculo homônimo no Canecão. Este trabalho não é apenas um documento da performance eletrizante de Elis, mas uma declaração artística profunda, que solidificou sua posição como uma das maiores vozes e intérpretes da Música Popular Brasileira. O disco exalta as tradições da MPB em um cenário musical em constante mudança, destacando a maestria vocal e a intensidade interpretativa que a tornaram lendária. "Saudade do Brasil" é um testemunho do auge de uma carreira já brilhante, apresentando Elis como uma superestrela e uma artista inovadora. A seleção de seu repertório é notável, abordando temas sociais atemporais como crise econômica, violência urbana, questões ambientais e esperança, que ressoam profundamente mesmo décadas após seu lançamento. A capacidade de Elis de infundir cada canção com uma paixão e uma relevância que transcendem o tempo é um dos pilares que tornam este álbum um marco indispensável na cultura brasileira.

Contexto

O lançamento de "Saudade do Brasil" em 1980 ocorreu em um período crucial da história brasileira, quando a ditadura militar já dava sinais de enfraquecimento e o país caminhava para a redemocratização. Elis Regina, uma artista notoriamente crítica ao regime, utilizou este espetáculo e, consequentemente, o álbum, como uma plataforma para reacender o senso de pertencimento e orgulho nacional, resgatando símbolos brasileiros que haviam sido apropriados e desvirtuados pela gramática autoritária da ditadura. O projeto surgiu da percepção de Elis de que o Brasil havia perdido o contato com sua própria identidade, e ela buscou despertar um sentimento adormecido no povo. Foi seu primeiro grande espetáculo desde "Transversal do Tempo" (1978), e o engajamento político de Elis era evidente, inclusive ao se filiar ao Partido dos Trabalhadores no mesmo ano. "Saudade do Brasil" capturou o espírito de um país em busca de sua essência, tornando-se uma poderosa expressão de esperança e resistência.

Gravação

Embora o álbum "Saudade do Brasil" seja o registro em estúdio do grandioso espetáculo apresentado no Canecão, sua concepção foi meticulosamente planejada para capturar a essência da performance ao vivo, mas com a precisão de um ambiente de gravação. O disco duplo, gravado em abril de 1980, foi cuidadosamente produzido por Guti e César Camargo Mariano. César, além de produtor, foi o diretor musical e arranjador de todas as faixas, exercendo uma influência decisiva na sonoridade do álbum. O show que inspirou o álbum era ambicioso, contando com figurinos e cenários elaborados, uma orquestra de treze músicos e um elenco de onze bailarinos que também atuavam como atores e faziam coro. Essa riqueza cênica e musical foi transposta para o estúdio, resultando em um trabalho de "inquestionável alto calibre" em termos de gravação, arranjos e performances. Inicialmente, o LP duplo foi lançado em uma tiragem especial de apenas 25 mil cópias, refletindo sua importância artística e tornando-o um item raro. Uma versão mais compacta, com 12 faixas, também foi disponibilizada.

Músicas

O repertório de "Saudade do Brasil" é uma celebração da riqueza da música brasileira, com Elis Regina interpretando obras de um vasto leque de compositores renomados, muitos dos quais ela mesma ajudou a lançar. O álbum transita com fluidez entre números vibrantes como "Terra de Ninguém", "Maria, Maria" e "Agora Tá!", e interpretações profundamente íntimas de canções como "Conversando no Bar", "Onze Fitas" e "Aos Nossos Filhos". A escolha das músicas, que inclui nomes como Milton Nascimento, Gonzaguinha, Fátima Guedes, Sueli Costa, Ivan Lins, Tom Jobim, Ary Barroso e até Rita Lee e Juca Chaves, demonstra a ousadia e a mente inovadora de Elis. Através de cada faixa, como "Alô, Alô Marciano" ou "Redescobrir", ela não apenas canta, mas narra a história recente do país e reflete sobre a identidade brasileira, abordando questões sociais com uma intensidade que faz as letras ecoarem com paixão e relevância. A premissa do show e do álbum era a "saudade de uma coisa que tá viva", um anseio por um Brasil presente e passível de ser reconquistado, e não por algo perdido.

Legado

"Saudade do Brasil" é amplamente reconhecido como um divisor de águas na carreira de Elis Regina e na música popular brasileira. Lançado a menos de dois anos de sua morte precoce, o álbum se tornou um de seus últimos grandes trabalhos e consolidou seu legado artístico. A edição especial do LP duplo, limitada a 25 mil cópias, conferiu-lhe um status de raridade e cult entre colecionadores. Mais do que um sucesso comercial, "Saudade do Brasil" foi um ato político e cultural significativo no contexto da redemocratização brasileira. O espetáculo e o disco se propuseram a resgatar a identidade nacional e os símbolos do país que haviam sido cooptados pela ditadura militar, oferecendo uma "fantasia delirante de viver uma democracia nos trópicos". A excelência das performances e arranjos, sob a direção de César Camargo Mariano, garantiu que o álbum permanecesse um favorito incontestável entre fãs e críticos, perpetuando a memória da "Pimentinha" como uma visionária que, através de sua arte, lançou e interpretou canções que moldaram a carreira de muitos grandes compositores brasileiros.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Arranjo, Direção, Teclados, Regência

César Camargo Mariano

Produção

César Camargo Mariano, Guti Carvalho

Produção [Assistant]

Gregorio Gomes Nogueira, Rogerio Costa

Vocais de Apoio

Albino Saré, Brasília, Carlos Nabarrete, Jorge Bueno, Jorge Deffune, Luiz Antonio Marigo, Orlando Barros, Regina Machado, Rosaly Papadol, Serjão, Waltinho

Baixo, Violão

Kzam

Bateria

Sagica

Flauta, Piccolo Flute, Recorder, Clarinete, Saxofone Alto

Paulo Garfunkel

Flauta, Recorder

Chiquinho Brandão

Guitarra, Violão [12 String, Steel String]

Natan Marques

Teclados

Sergio Henriques

Percussão

Chacal

Sleeve

Carlos Vergara, Ruth Freihof

Saxofone Tenor

Lino Simão

Saxofone Tenor, Clarinete

Octavio Bangla

Trombone

Bocato

Trompete

Claudio Faria, Nonô Camargo

Engenheiro de Som [Recording Assistant]

José Sartori

Engenheiro de Som [Recording]

Vitor Farias

Mixagem

César Camargo Mariano, Guti Carvalho, Vitor Farias

Ilustração

Carlos Vergara

Fotografia

Paulo Vasconcellos

Referências

Livros