Elis & Tom
Elis Regina & Tom Jobim
1974

Porque Merece Estar na Lista
Elis & Tom representa um marco indelével na música brasileira, selando o encontro histórico de dois de seus maiores vultos: Elis Regina, a Pimentinha de voz vibrante, e Antonio Carlos Jobim, o maestro soberano da bossa nova. Lançado em 1974, o álbum é uma obra de profunda elegância e sofisticação, que transcende o simples registro musical para se firmar como um diálogo artístico sem precedentes. Sua essência reside na forma contida e suave com que Elis interpreta os clássicos do gênero, muitas vezes em dueto com Jobim, que a acompanha ao violão ou piano, revelando uma química impecável entre os artistas. Os arranjos de César Camargo Mariano, então marido de Elis, foram revolucionários para a época, introduzindo instrumentos elétricos à sonoridade bossa nova e conferindo ao disco uma roupagem moderna sem perder a essência melódica e harmônica. Essa fusão de tradição e inovação, aliada à maestria interpretativa, faz de Elis & Tom um álbum indispensável para a compreensão da riqueza e da evolução da MPB, um verdadeiro presente musical que continua a encantar gerações.

Depois de Elis & Tom, gravar qualquer uma das faixas daquele repertório passou a ser um ato de ousadia.
Ramiro Zwersch · Rolling Stone Brasil
Contexto
Até 1974, Elis Regina já possuía uma carreira consolidada com doze discos lançados, repleta de sucessos que se tornaram parte de seu repertório fixo. No entanto, seu empresário da época, Roberto de Oliveira, percebia que, apesar do talento e sucesso, faltava a Elis um "prestígio" mais abrangente no cenário artístico, talvez devido à sua associação com um esquema mais comercial e a um ambiente considerado apolítico por alguns. Tom Jobim, por sua vez, já era uma lenda viva, reconhecido internacionalmente como um dos pilares da bossa nova e com uma carreira global solidificada por gravações com nomes como Frank Sinatra e o sucesso mundial de canções como "Garota de Ipanema". Contudo, no Brasil, ele enfrentava um período de menor popularidade em seus espetáculos. Assim, a colaboração se mostrava estratégica para ambos: Elis buscando o prestígio crítico, e Jobim, uma renovada conexão com o público brasileiro. A oportunidade surgiu como um presente da gravadora Philips a Elis, em comemoração a seus dez anos de contrato, e o desejo dela era gravar com o próprio Tom Jobim.
Gravação
A jornada para a gravação de Elis & Tom começou em 20 de janeiro de 1974, quando Elis embarcou para Los Angeles, Califórnia, acompanhada por uma banda de músicos brasileiros de alto calibre, incluindo seu marido e pianista César Camargo Mariano, o produtor Aloísio de Oliveira, o guitarrista Hélio Delmiro, o baixista Luizão e o baterista Paulinho Braga. As gravações foram realizadas entre 22 de fevereiro e 9 de março do mesmo ano no renomado MGM Studios. Os primeiros dias, contudo, foram marcados por um clima de insegurança e desacordos, especialmente por parte de Tom Jobim, que, apesar de seu prestígio internacional, parecia receoso com a modernidade proposta pelos arranjos de César Camargo Mariano. Elis Regina também expressou frustração, chegando a considerar a volta ao Brasil. A tensão, porém, se dissipou significativamente após Mariano finalizar o arranjo de "Corcovado", a primeira canção a ficar pronta. A partir daí, a sinergia entre os artistas floresceu, com Jobim elogiando a memória de Elis sobre seu repertório. Os estúdios da MGM chegaram a ficar lotados por músicos curiosos, evidenciando o interesse gerado por esse encontro musical. Para enriquecer a sonoridade, Mariano convidou um sexteto de cordas e um quarteto de flautas. A mixagem final do álbum também ficou a cargo de César Camargo Mariano, num trabalho exaustivo que culminou na emoção de Jobim ao ouvir o resultado final. Ele confessaria, posteriormente, seu assombro e admiração pela "informação nova, trazida pelos jovens", que transformou sua perspectiva e o fez se reconectar com a modernidade musical.
Músicas
Elis & Tom apresenta uma estrutura musical que mescla a atemporalidade da bossa nova com arranjos inovadores, liderados por César Camargo Mariano. A sonoridade do disco se destaca pelo revezamento entre piano acústico e elétrico, violão e guitarra, conferindo uma roupagem fresca a clássicos do gênero. Canções como "Só Tinha de Ser Com Você", "Triste", "Brigas, Nunca Mais" e "Fotografia" mantêm a leveza e o vocal relaxado de Elis, com a bateria sincopada e acordes de bossa nova ao violão. A faixa de abertura, "Águas de Março", merece destaque especial, pois sua versão em dueto neste disco é amplamente considerada a definitiva, consolidando seu status como um dos maiores sucessos do álbum e do cancioneiro brasileiro. Outras faixas como "Retrato em Branco e Preto" e "Modinha" (a única inteiramente arranjada por Jobim) exploram um clima mais dramático, onde o piano de Jobim e a orquestra acompanham o vocal expressivo de Elis. Já "Chovendo na Roseira" e "Corcovado" revelam um Jobim cantando abafado ou em coros, com arranjos de flautas e cordas que evocam uma atmosfera sensual e melancólica. O álbum é encerrado pela balada jazz "Inútil Paisagem", considerada uma canção de grande desafio interpretativo. Elis a canta apenas com o acompanhamento do piano de Jobim, que também sussurra partes da letra, assim como em "O Que Tinha de Ser". A performance de Elis nesta faixa é aclamada pela crítica, elevando o disco a um patamar de excelência e garantindo uma conclusão que deixa o ouvinte plenamente satisfeito com a rica experiência musical.

“Nos meus dez anos de gravadora (a então Philips) ganhei de presente um encontro com Tom (Jobim). Foram momentos vividos por duas pessoas muito tensas que só conseguem se descontrair através da música”.
Tárik de Souza · 300 Discos Importantes
Legado
Elis & Tom foi um sucesso retumbante tanto em vendas quanto em crítica, superando as expectativas da gravadora e dos próprios artistas. O álbum se consolidou como um dos mais vendidos da música brasileira de todos os tempos, conforme a Billboard, e sua relevância perdura até os dias atuais, mantendo-se presente nas paradas de vendas de plataformas digitais como o iTunes brasileiro mesmo décadas após seu lançamento. O impacto do disco foi imediato e transformador para Elis Regina, que retornou ao Brasil com uma moral elevadíssima e percebeu uma mudança em seu público, que, embora inicialmente surpreso com a nova fase, abraçou a proposta. Para promover a obra, Elis e Tom realizaram shows históricos em São Paulo e Rio de Janeiro, que não apenas celebraram o álbum, mas também reacenderam a figura de Tom Jobim para as novas gerações, reafirmando sua importância no cenário musical. A recepção da crítica e do público foi unanimemente positiva, classificando os espetáculos como "históricos". Ao longo dos anos, Elis & Tom tem sido amplamente referenciado em importantes livros, compêndios e enciclopédias de música, tanto no Brasil quanto internacionalmente. Em 2007, jornalistas e críticos musicais o elegeram como o 11º melhor disco da música brasileira em uma lista da revista Rolling Stone, um testemunho de seu reconhecimento duradouro. O relançamento especial em 2004, por ocasião de seu trigésimo aniversário, reforça a contínua aclamação do álbum por músicos e críticos em todo o mundo.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Aloysio De Oliveira
Humberto Gatica
Joaquim Figueira
Aldo Luiz
Lobianco
Nelson Mascarenhas
