Cantoria
Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias, Xangai
1984

Porque Merece Estar na Lista
Cantoria, lançado em 1984, é um álbum emblemático que reuniu quatro dos mais distintos e respeitados nomes da música popular brasileira: Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai. Este trabalho se destaca como uma celebração profunda das tradições do sertão e da música nordestina, mergulhando na riqueza de suas histórias, ritmos e poesias com uma autenticidade singular. O álbum oferece uma imersão no universo do repente, da moda de viola e do canto popular, ressoando as raízes do Brasil profundo. Sua sonoridade transita entre o simples e o sublime, carregando a essência da música do interior ao mesmo tempo em que revela a sofisticação e a maturidade artística de seus intérpretes. A harmonia das vozes e a habilidade de cada um com o violão criam um cenário musical de rara beleza, onde poesia e melodia se entrelaçam, proporcionando uma experiência auditiva única e emocionante. É um encontro histórico de grandes criadores em seu estado puro, apresentando uma fusão de elementos eruditos e populares da rica música brasileira.
Contexto
O projeto Cantoria nasceu de uma série de concertos memoráveis realizados no Teatro Castro Alves, em Salvador, Bahia. No início da década de 1980, os quatro artistas se uniram para apresentar suas cantorias e cantigas, resultando em apresentações de grande sucesso. Antes deste encontro, Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai já possuíam trajetórias individuais marcadas pela profunda conexão com as raízes nordestinas, cada um trazendo sua particularidade na composição e interpretação, que seria consolidada neste projeto colaborativo.
Gravação
O álbum Cantoria foi gravado ao vivo em janeiro de 1984, durante três noites memoráveis (dias 13, 14 e 15) no Teatro Castro Alves, em Salvador, Bahia. O registro foi lançado no mesmo ano sob o título Cantoria 1 pela lendária gravadora Kuarup Discos. A produção musical teve a assinatura de Mário de Aratanha. Uma característica notável deste trabalho é que ele é considerado o primeiro registro ao vivo gravado em sistema digital no Brasil, conferindo-lhe uma excelente qualidade técnica incomum para gravações ao vivo da época. As apresentações e, consequentemente, o álbum, se destacam pela pureza e simplicidade do arranjo, contando apenas com as quatro vozes dos artistas e seus respectivos violões, alternando-se em solos, duos, trios e até quartetos.
Músicas
O repertório de Cantoria é um banquete de composições que celebram a cultura nordestina e a riqueza da língua portuguesa. Dentre as treze faixas, destacam-se a abertura com o "Desafio do Auto da Catingueira", de Elomar, que o traz em voz e violão com Xangai, e a poética "Sete Cantigas para Voar" de Vital Farias. Geraldo Azevedo encanta com "Novena" e Elomar dá voz à visceral "Cantiga do Boi Incantado". A irreverência e o humor são evidentes em "Aí D'eu Sodade (O ABC do Preguiçoso)" de Xangai, e a canção "Ai Que Saudade de Ocê", de Vital Farias, tornou-se um clássico. Outras faixas notáveis incluem "Kukukaya (Jogo da Asa da Bruxa)" de Cátia de França, "Semente de Adão/Viramundo" e "Saga da Amazônia", que revelam a profundidade e diversidade lírica e melódica do álbum. As canções exploram temas como a vida no sertão, o amor, a saudade, a natureza e as tradições populares, com composições que transitam entre a melancolia e a celebração, sempre com a habilidade e a maestria dos quatro cantadores.
Legado
O sucesso de Cantoria 1 foi imediato e estrondoso, dando origem a uma série de álbuns homônimos, incluindo Cantoria 2, lançado em 1988. O projeto transcendeu os discos, transformando-se em um show itinerante que percorreu diversas capitais brasileiras, consolidando a obra do quarteto junto ao público. O álbum é amplamente considerado um marco na música popular brasileira, sendo descrito como um "fenômeno" por apresentar um trabalho "brasileiro de verdade" com forte caráter nordestino. Sua relevância é tal que é tido como um "disco obrigatório nas rodas de amigos da geração 1980 até os encontros poéticos de hoje", influenciando a MPB por décadas. A qualidade artística do projeto é comparada a grandes obras visuais por Xangai, que o equipara a trabalhos de Van Gogh, Picasso e Portinari, enfatizando que "todo mundo adora por que tem o que gostar. Não é um engodo. Ninguém está ali cantando pra fazer sucesso".
