AmarElo
Emicida
2019

Porque Merece Estar na Lista
AmarElo, lançado em 2019, transcende a categoria de um álbum de rap convencional, apresentando-se como um manifesto musical de profundo diálogo com uma vasta gama de gêneros da música brasileira, incluindo gospel, rock, jazz, samba e trap. Emicida, um dos rappers mais bem-sucedidos do Brasil, o concebeu como seu projeto mais ambicioso até então, com a intenção de propagar uma mensagem positiva de amor e conexão, especialmente em um cenário global polarizado e em um Brasil conturbado. O título do álbum, inspirado no poema "Amar é um elo / entre o azul / e o amarelo" de Paulo Leminski, encapsula sua essência de união e esperança. Mais do que uma coleção de canções, AmarElo é uma "trilha sonora-manifesto de uma geração", que busca celebrar a identidade negra brasileira e desafiar estereótipos, utilizando uma sonoridade rica e experimental que, ao mesmo tempo, soa familiar e inovadora.
Contexto
A ascensão de Emicida teve início nas favelas de São Paulo, consolidando-o como uma das vozes mais proeminentes do rap brasileiro, e ele co-fundou a Laboratório Fantasma em 2009, sua própria empresa de gravação e produção. O lançamento de AmarElo ocorreu em um período de intensa crise política e social no Brasil, com o álbum surgindo como uma resposta poética à violência, injustiça, crescente desigualdade de gênero e racial, e à divisão religiosa no país. O trabalho pode ser interpretado como um protesto contundente contra as políticas do então presidente Jair Bolsonaro, que era percebido por muitos como alguém que desdenhava diversos grupos sociais. Nesse contexto desafiador, Emicida usou sua plataforma para refletir sobre e recuperar a história negra brasileira, alinhando-se a uma nova geração de artistas que usaram a música como forma de crítica social e solidariedade.
Gravação
O álbum AmarElo foi gravado predominantemente no Lab Fantasma Studio, de Emicida, localizado em São Paulo, e contou com a produção do seu irmão, Evandro Fióti, co-fundador da Laboratório Fantasma, que desempenha um papel crucial na visão artística e de negócios da gravadora. A produção do disco foi notável pela fusão complexa de gêneros, que mescla o hip-hop com elementos do samba, gospel, jazz, rock e trap, exigindo uma abordagem criativa e experimental na sonoridade. Essa abordagem multifacetada reflete a intenção de Emicida de criar um trabalho que não se limita às fronteiras de um único estilo musical, mas que dialoga com a riqueza da cultura musical brasileira e global, resultando em uma textura sonora rica que evidencia todas as suas influências. A dedicação em unir diferentes vertentes musicais e narrativas poéticas tornou o processo de gravação um elemento chave para a identidade única do álbum.
Músicas
AmarElo é um caldeirão de colaborações que une "mestres antigos e atuais" da música brasileira e internacional, integrando diferentes culturas e estilos musicais. Dentre os notáveis colaboradores estão Zeca Pagodinho, Marcos Valle, Dona Onete, Majur, Pabllo Vittar, Drik Barbosa, MC Tha, Larissa Luz, Fernanda Montenegro, o duo cubano Ibeyi e a Tokyo Ska Paradise Orchestra. A faixa-título "AmarElo", com a participação de Majur e Pabllo Vittar, é um exemplo emblemático dessa fusão, abordando questões de gênero e sexualidade no hip-hop brasileiro e apresentando um sample icônico de "Sujeito de Sorte" de Belchior. "Principia" incorpora influências do gospel e referências do Candomblé, enquanto "Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo)" celebra a amizade com a presença de Zeca Pagodinho e a Tokyo Ska Paradise Orchestra, e presta homenagem ao lendário baterista Wilson das Neves. "Ismália", com Larissa Luz e Fernanda Montenegro, discute a brutalidade policial, e "Eminência Parda" é uma faixa trap que busca inspiração em heróis anti-imperialistas. As letras abordam temas como esperança, amor, resiliência, crítica social e a celebração da identidade negra brasileira.
Legado
AmarElo foi amplamente aclamado, recebendo o Latin Grammy Award de Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa em 2020, o primeiro Latin Grammy de Emicida. O álbum foi reconhecido pela Associação Paulista de Críticos de Arte como um dos 25 melhores álbuns brasileiros do segundo semestre de 2019 e, para alguns críticos, é considerado um dos maiores álbuns brasileiros da década de 2020. A crítica elogiou fervorosamente sua criatividade, a fusão única de gêneros e a poderosa mensagem. Tematicamente, o álbum se tornou um marco cultural significativo, promovendo a conexão entre as pessoas, celebrando a história negra e incentivando a tolerância em um país fragmentado. O sucesso do álbum foi potencializado pelo documentário "AmarElo: É Tudo Pra Ontem", lançado em 2020 pela Netflix, que recebeu críticas elogiosas por sua representação inspiradora da luta contra o racismo e a desigualdade, solidificando o trabalho de Emicida como um "antídoto para séculos de amnésia e embranquecimento racial".
