Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa...
Emicida
2015

Porque Merece Estar na Lista
Lançado em 2015, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa... é o segundo álbum de estúdio do rapper Emicida e representa um marco crucial na sua discografia, consolidando a fusão de elementos do rap com a rica musicalidade brasileira e africana. O disco não é apenas uma coleção de canções, mas uma jornada poética e sonora que explora temas profundos como ancestralidade, identidade negra, maternidade e questões sociais, tudo sob uma perspectiva ao mesmo tempo pessoal e universal. Este trabalho se destaca por expandir os horizontes musicais do artista, que já vinha experimentando sonoridades em projetos anteriores. Emicida mergulha em ritmos afro-brasileiros e cabo-verdianos, incorporando piano, teclado, percussão, violão e theremin, o que confere ao álbum uma riqueza instrumental e um frescor melódico notáveis para o gênero. A produção musical, com Emicida e Xuxa Levy à frente, cria uma tapeçaria sonora que é acessível e desafiadora, mantendo a potência lírica característica do rapper enquanto dialoga com diferentes públicos.
Contexto
Antes de Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa..., Emicida já era uma figura proeminente no cenário do hip hop brasileiro, reconhecido por suas batalhas de rimas e mixtapes que o estabeleceram como uma das maiores revelações da cena na década de 2000. Em 2009, ele e seu irmão Evandro Fióti fundaram a Laboratório Fantasma, um selo independente que se tornaria fundamental para a produção e distribuição de sua obra. Seu primeiro álbum de estúdio, O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013), já sinalizava uma abertura musical e aprofundamento temático. A concepção de Sobre Crianças... foi fortemente influenciada por uma viagem de Emicida a Angola e Cabo Verde, realizada em março de 2015. O objetivo era refazer o caminho da diáspora africana, buscando uma conexão profunda com suas raízes e colhendo experiências sonoras e culturais que seriam a espinha dorsal do álbum. Essa imersão transformou sua vida e serviu de inspiração para repensar a herança africana e as relações de poder na sociedade contemporânea, imprimindo uma nova camada de significado à sua arte.
Gravação
O processo de gravação do álbum envolveu uma cuidadosa produção, com Emicida e Marcos Xuxa Levy atuando como produtores musicais e Emicida também como coprodutor. A sonoridade do disco é enriquecida por uma gama diversificada de instrumentos, incluindo piano Rhodes, teclado, órgão, berimbau, theremin, sintetizadores, kalimba, ukulele, flauta, violão, baixo, bateria, guitarra, cavaco, percussão e scratches de DJ Nyack. Diversas vozes adicionais, incluindo Dona Jacira (mãe de Emicida), Anna Tréa, e as Batucadeiras do Terrero dos Órgãos de Cabo Verde, contribuíram para a riqueza vocal e cultural do projeto. As gravações ocorreram com a colaboração de engenheiros como Maurício Cersósimo, Alejandra Luciani, Valdemar Vilela, Gabriel De Barros e Caio Teaser. A mixagem foi realizada por Maurício Cersósimo e Alejandra Luciani, e a masterização por Tony Dawsey. A faixa "Mufete", por exemplo, foi gravada no estúdio angolano Letras e Sons, destacando a autenticidade da imersão de Emicida na cultura africana. Essa colaboração internacional e a diversidade de talentos envolvidos foram essenciais para a concretização da visão artística do álbum, que busca desterritorializar a música e aprofundar o diálogo entre diferentes culturas.
Músicas
As 14 faixas de Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa... formam uma narrativa coesa, que transita entre a homenagem pessoal e o protesto social. A abertura com "Mãe", uma emocionante homenagem à Dona Jacira, mãe do artista, que inclusive faz uma participação, estabelece um tom de reverência e autobiografia. Essa faixa pode ser vista como uma continuação de "Crisântemo", do álbum anterior, que falava sobre o pai de Emicida. A doçura continua na curta "Amoras", inspirada em sua filha Estela e focada na representatividade e autoestima de crianças negras. O álbum também apresenta parcerias marcantes, como "Baiana" com Caetano Veloso, que incorpora elementos de MPB, e "Passarinhos" com Vanessa da Mata, um reggae que aborda a esperança e as oportunidades de mudança de vida. Faixas como "Casa" utilizam coros infantis, como o dos alunos da escola Penta Grana de Cabo Verde, para criar um contraste com batidas mais pesadas e abordar a busca por pertencimento da população negra. Já "Boa Esperança" é um hino de protesto, com a participação de J. Ghetto, que discute o racismo velado e a intolerância religiosa no Brasil, reafirmando o compromisso de Emicida com a crítica social. Outros destaques incluem "Mufete", que remete às gingas da África e pede respeito ao povo negro, e "Mandume", que aborda o desrespeito às mulheres e a resistência. O interlúdio "Sodade", com a voz da líder das Batucadeiras do Terrero dos Órgãos, Neusa Semedo, lamenta a saudade em crioulo cabo-verdiano, utilizando percussão que imita o som da água, enquanto "Salve Black (Estilo Livre)" encerra o disco com um samba celebratório da coragem e união negra.
Legado
Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa... foi amplamente aclamado pela crítica, sendo reconhecido como uma obra completa que equilibra a denúncia social com a celebração da negritude e da diáspora africana. Sua originalidade e profundidade resultaram na indicação ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Urbana em 2016, uma prova do reconhecimento internacional da qualidade e relevância do trabalho de Emicida. O álbum solidificou a posição de Emicida como um dos mais importantes artistas brasileiros contemporâneos, capaz de transitar entre o hip hop e a MPB, ampliando seu público sem abrir mão de suas mensagens. A abordagem de temas como racismo, identidade e ancestralidade, aliada à sua musicalidade inovadora, abriu novos caminhos para o rap nacional e influenciou discussões sobre representatividade e autoestima, especialmente para crianças negras, como ilustrado na posterior transformação da canção "Amoras" em livro infantil. O disco é considerado uma das maiores obras sobre ancestralidade negra no Brasil e no mundo, impactando a compreensão da identidade nacional.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Emicida
Xuxa Levy
Emicida, Evandro Fióti, Renata Almeida
Tony Dawsey
Mauricio Cersosimo
Alejandra Luciani
Adriel Nunes
Black Madre Atelier
Emicida, Evandro Fióti
