A Revolta dos Dândis

Engenheiros do Hawaii

1987

Capa de A Revolta dos Dândis
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

A Revolta dos Dândis é um marco fundamental na discografia dos Engenheiros do Hawaii e na cena do rock brasileiro dos anos 80. Lançado em 1987, este álbum não apenas consolidou a banda no cenário nacional, mas também representou uma audaciosa guinada estilística que redefiniu sua identidade sonora. Abandonando as influências mais diretas de reggae e ska presentes em seu trabalho de estreia, o disco mergulha em uma sonoridade setentista, com forte pendor para o folk rock, o que o distingue de muitos de seus contemporâneos na época. Essa mudança radical foi impulsionada pela entrada do guitarrista Augusto Licks e pela assunção de Humberto Gessinger ao baixo, uma formação que traria uma complexidade musical e poética sem precedentes para o grupo. A Revolta dos Dândis não é apenas um álbum de rock, mas uma obra que dialoga com a inteligência e a sensibilidade, apresentando letras introspectivas e arranjos elaborados que preparam o terreno para a fase mais icônica da banda. Sua relevância reside na capacidade de inovar e de provocar o pensamento, estabelecendo um novo padrão para o rock engajado no Brasil.

Contexto

O período que antecedeu a gravação de A Revolta dos Dândis foi de transição crucial para os Engenheiros do Hawaii. Enquanto estavam em turnê em maio de 1987, o relacionamento entre Humberto Gessinger e Carlos Maltz, de um lado, e o baixista Marcelo Pitz, do outro, já se desgastava. Em abril, a decisão de que Pitz deixaria a banda após o encerramento da turnê em junho já estava tomada, abrindo espaço para uma nova configuração musical. Foi durante uma participação em um disco de Nei Lisboa, no Rio de Janeiro, que Augusto Licks, que já havia colaborado com Nei e com a própria banda, foi formalmente convidado a integrar os Engenheiros. A entrada de Licks e a subsequente mudança de Gessinger para o baixo (uma revelação para Licks apenas no primeiro ensaio) marcaram o início de uma nova era para o trio gaúcho, impulsionando a experimentação sonora que culminaria no álbum.

Gravação

As sessões de gravação de A Revolta dos Dândis ocorreram em julho de 1987, nos Estúdios RCA em São Paulo, seguidas pela mixagem no mês seguinte. O produtor musical Reinaldo Barriga guiou o processo, que foi repleto de desafios e decisões que moldaram a sonoridade singular do disco. Augusto Licks, recém-chegado à banda, tinha o objetivo de minimizar overdubs para que as canções pudessem ser reproduzidas fielmente nos shows ao vivo, o que contribuiu para um som mais direto e orgânico. Ainda se adaptando ao baixo, Humberto Gessinger tocava o instrumento com palheta e afinado uma oitava acima do padrão. Essa particularidade, combinada com a dificuldade de controlar o volume do baixo na mesa de som sem comprometer a qualidade, resultou em uma presença marcante e em primeiro plano do instrumento nas gravações. A necessidade de Licks de "se virar" para encaixar sua guitarra nas bases já gravadas por Gessinger e Maltz, juntamente com as influências do rock dos anos 70 e de Bob Dylan que Gessinger ouvia, conferiu ao álbum uma sonoridade distinta e inovadora para o rock nacional da época.

Músicas

As particularidades instrumentais e criativas permeiam A Revolta dos Dândis, com cada faixa apresentando detalhes que enriquecem sua proposta musical. Em "A Revolta dos Dândis I", por exemplo, Augusto Licks não só utiliza um violão Martin, mas também uma gaita Hohner, que ele molhava em água para destacar os vibratos, uma técnica incomum. Já em "Terra de Gigantes", o uso de duas guitarras com mixagem estéreo e um delay aplicado erroneamente, mas que acabou agradando, ilustra a atmosfera de experimentação. "Infinita Highway", um dos maiores sucessos do álbum, destaca a técnica de Licks de tocar guitarra com os dedos através de dois amplificadores Fender Twin Reverb, preenchendo o espaço do trio sem a necessidade de overdubs excessivos. "Refrão de Bolero" se notabiliza pelo uso intencional de microfonia para preencher a sonoridade e um solo de guitarra com Gibson Les Paul em um Marshall, remetendo ao rock pesado. Em "Vozes", a combinação de uma guitarra de doze cordas de Gessinger com o órgão Hammond de Licks e um vocoder no final da música traz uma atmosfera clássica do rock dos anos 60 e 70. A faixa "Quem Tem Pressa Não se Interessa" inova ao manter apenas baixo e bateria, com um solo de bateria gravado no banheiro do estúdio, conferindo uma sonoridade de garagem. Esses elementos demonstram a riqueza composicional e a inventividade instrumental que definem o álbum.

Legado

A Revolta dos Dândis foi um sucesso comercial, vendendo mais de 50 mil cópias em seu primeiro ano de lançamento e impulsionando três singles, "A Revolta dos Dândis I", "Terra de Gigantes" e "Infinita Highway", a uma boa execução nas rádios. A recepção crítica, no entanto, foi mista e gerou controvérsias. A banda, já rotulada de "direitista" por trabalhos anteriores, passou a ser acusada de elitismo e até fascismo devido às citações filosóficas nas letras de Gessinger e um tom autoirônico que muitos interpretaram como crítica ao próprio movimento de rock brasileiro da década. Apesar das polêmicas, o álbum recebeu elogios significativos de veículos especializados. Marcel Plasse, da revista Bizz, destacou o resultado "enxuto" e a riqueza de referências do trabalho, enquanto Thales de Menezes, da Folha de S.Paulo, caracterizou "Infinita Highway" como "sensacional". Jamari França, no Jornal do Brasil, descreveu o disco como "pesado e poético ao mesmo tempo". O reconhecimento de seu impacto se estendeu por décadas, sendo tema de um programa "Discoteca MTV" em 2008 e incluído em uma lista da Superinteressante dos principais álbuns de rock brasileiro dos anos 80. Em 2017, Humberto Gessinger realizou uma turnê comemorativa de 30 anos do álbum, reafirmando sua importância duradoura.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Produção

Reinaldo Barriga

Baixo, Vocal Principal, Violão de 12 Cordas

Humberto Gessinger

Bateria, Percussão

Carlos Maltz

Guitarra, Violão, Gaita, Órgão

Augusto Licks

Arte

Carlos Maltz, Imageria

Fotografia

Eurico Salis

Referências

Livros