Memória Das Águas

Fernando Falcão

1981

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Por Que Esse Disco é Importante

Memória Das Águas, lançado em 1981 por Fernando Falcão, é um álbum singular e profundamente experimental na música brasileira. Sua sonoridade transcende gêneros, incorporando elementos de música tradicional brasileira, pós-modernismo clássico, ambient, jazz, experimentações com fita e sons abstratos, muitos deles oriundos de instrumentos criados pelo próprio artista, como o inovador balauê. Este trabalho se destaca por sua capacidade de fundir influências afro-brasileiras e latino-americanas com a sofisticação da música erudita europeia, criando uma linguagem musical que ainda hoje soa revolucionária. Embora tenha tido uma repercussão modesta em seu lançamento, o álbum é hoje reconhecido como uma obra-prima de originalidade ímpar, conquistando o status de "objeto de culto" entre colecionadores e apreciadores da música brasileira mais autoral e exploratória. É uma audição que convida à imersão em paisagens sonoras aquáticas e texturas rítmicas complexas, revelando a visão artística de um músico que não se preocupava em seguir convenções estilísticas, mas sim em desbravar novos caminhos sonoros.

Contexto

Fernando Falcão, natural da Paraíba, teve uma trajetória marcada por seu engajamento político contra a ditadura militar no Brasil. Em 1969, após a promulgação do AI-5, ele foi forçado ao exílio em Paris, onde permaneceu por 12 anos. Durante esse período na França, Falcão aprofundou sua pesquisa musical e artística, colaborando com seu sogro, o escultor François-Xavier Lalanne, na criação de instrumentos de percussão únicos, como o balauê, uma versão horizontal do berimbau. Ele também participou de trabalhos de outros artistas, como no LP "Saudades de Pernambuco" de Alceu Valença, gravado também em Paris em 1979. O lançamento de Memória Das Águas, em 1981, coincidiu com seu retorno ao Brasil após mais de uma década de exílio, marcando um reencontro com sua terra natal e o público brasileiro.

Gravação

O álbum Memória Das Águas foi gravado em 1979 no Studio Acousti, em Paris, refletindo o período de exílio de Fernando Falcão na capital francesa. O lançamento, no entanto, ocorreu somente em 1981, de forma independente, pelo selo Poitou. A produção e os arranjos do disco foram concebidos por Fernando Falcão, em colaboração com o maestro José Luis Castiñeira de Dios. A instrumentação é rica e variada, incluindo o balauê, orquestra de águas, camaleão, garrafas e outras percussões criadas pelo próprio Falcão, além de vozes, contrabaixo, piano, saxofone, flauta, corne inglês, cordas e metais. Uma curiosidade é a inclusão de gravações de campo, como na faixa "Mercado (Gravado No Mercado Tanger)", que captura a atmosfera sonora de um movimentado bazar, evidenciando o caráter experimental e inovador do trabalho.

Músicas

As oito faixas de Memória Das Águas são composições de Fernando Falcão, que explora uma vasta gama de texturas e narrativas sonoras. A faixa-título, "Memória Das Águas", inicia-se com sons atmosféricos e percussivos que remetem à água, antes de se desdobrar em arranjos exuberantes de cordas, evocando uma grandiosidade que lembra composições clássicas contemporâneas. "Amanhecer Tabajara (À Alceu Valença)" infunde influências afro-brasileiras e latino-americanas, enquanto "Mercado (Gravado No Mercado Tanger)" transporta o ouvinte para um cenário vívido com suas gravações de campo. Um dos pontos altos do álbum é "Curimão (Sons Onomatopaicos E Folk Da Guiné)", uma peça acelerada de samba com sopros marcantes, percussão vibrante e palmas, que incorpora sons onomatopaicos e elementos folclóricos da Guiné, demonstrando a fusão cultural e a energia rítmica do disco. A faixa "Revoada" oferece um contraste, combinando o erudito dos violinos com percussão que imita o trinar de pássaros, antes de mergulhar em sonoridades nordestinas com flauta e violão, ilustrando a diversidade musical e a riqueza poética do álbum.

Legado

Inicialmente, Memória Das Águas não obteve grande projeção, permanecendo como uma obra obscura para a maioria do público e dos críticos. No entanto, ao longo das décadas, o álbum consolidou-se como um item de colecionador extremamente valioso e procurado, com exemplares originais atingindo altos preços no mercado. O reconhecimento de sua importância cresceu exponencialmente, levando a reedições em 2019 por selos como Optimo Music e Selva Discos, o que permitiu que uma nova geração de ouvintes descobrisse sua genialidade. O álbum é hoje considerado um dos 100 melhores discos da música brasileira, figurando em diversas listas e sendo aclamado como uma obra-prima digna de um lugar de destaque na história musical. Sua combinação única de estilos e a abordagem revolucionária de Fernando Falcão continuam a inspirar e fascinar, afirmando seu status como um marco da experimentação sonora brasileira.

Faixas

Créditos

Arranjo, Diretor Musical, Cabasa, Vocais, Percussão

Fernando Falcão

Arranjo, Diretor Musical, Direção

José Luis Castiñeira De Dios

Coro

Andorinha, Dudu, Jakô, Lucas, Mary, Nancy

Vocais, Coro, Jug [Garrafa]

Valérie Kling

Congas [Tumba], Pandeiro, Ganzá

Tiche Ramos

Contrabaixo

Enrique Perico Arteche

English Horn

M. Saint-Michel

Flauta, Concert Flute

Raymond Guiot

Metais

Alex Perdigon, Bardot, Eric Mula, Kako Bessot

Piano, Coro

Susana Lago

Saxofone

Steve Potts

Cordas

B. Constantin, M. Derries, Marc Togonal, Michel Michalakakos, Philippe Nadal

Timpani

P. Bandeirac

Violino

Jorge Pinchevsky

Engenheiro de Som

Gibe

Coordenação

Amado Maita, Ivan Negro Isola, Pedro D'Alessio

Design

Percival Giddings

Fotografia

Fernando Lebolo

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