Cadáver Pega Fogo Durante o Velório

Fernando Pellon

1984

Capa de Cadáver Pega Fogo Durante o Velório
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Cadáver Pega Fogo Durante o Velório, lançado em 1984, é um álbum que se destaca na Música Popular Brasileira por sua abordagem lírica inusitada e transgressora. Fernando Pellon, com este trabalho, recusou-se a trilhar o caminho convencional do mercado fonográfico, entregando um repertório que flerta com a morte, as dores dos oprimidos e a morbidez escrachada, características que o tornam singular em seu estilo. A obra é considerada um disco antológico e um trabalho musical de referência, conhecido por seu título impactante e por suas letras que nomeiam as "doenças" sociais, remetendo à escrita de Augusto dos Anjos. O álbum transita entre o samba e a MPB, mas com uma linguagem própria que chocou a "hipocrisia generalizada" vendida como bom gosto na época, como apontou o crítico Tárik de Souza.

Contexto

Fernando Pellon iniciou sua carreira artística em 1974, aos 18 anos. Cadáver Pega Fogo Durante o Velório foi produzido durante a fase mais criativa do coletivo de artistas Malta da Areia, um grupo de poetas e músicos de Niterói, Região Metropolitana do Rio de Janeiro, do qual Pellon fazia parte. O lançamento do disco ocorreu durante o período final da ditadura militar no Brasil (1964-1985), o que trouxe desafios significativos. A música "Com Todas as Letras" foi vetada pela Censura Federal, e o álbum só foi liberado após cerca de oito meses de um longo processo, com a intervenção do musicólogo e pesquisador Ricardo Cravo Albin no Conselho Superior de Censura.

Gravação

O álbum foi produzido pelo jornalista e crítico de música Roberto M. Moura (1947-2005) e contou com a direção musical do violonista João de Aquino (1945-2022). Na base instrumental, o disco reuniu músicos de excelência, como Raphael Rabello no violão de sete cordas, Helvius Vilela no piano, Marcelo Bernardes nos sopros e Oscar Bolão na bateria, além do próprio João de Aquino. O álbum foi lançado pelo selo independente Vento de Raio.

Músicas

As nove canções do álbum, como "Porta Afora", "Altivez", "Com Todas as Letras", "Carne no Jantar", "Cicatrizes", "Vã Esperança", "Tal Como Nazareth", "Prazer Qualquer" e "Flores de Plástico ao Amanhecer", revelam um compositor que se recusa ao lugar-comum. As letras são marcadas por um pessimismo profundo, angústia existencial e obsessão pela morte, muitas vezes com um humor ácido. A faixa "Com Todas as Letras", por exemplo, aborda o tema do suicídio de forma explícita, o que resultou em sua censura inicial pela ditadura. Outro destaque é a canção "Carne no Jantar", que em um estribilho como "Disfarça e olha" condensa as contradições da vida, reconhecendo o magnetismo da desgraceira e o pudor social em encará-la.

Legado

Cadáver Pega Fogo Durante o Velório é considerado um disco "cult" e continua sendo muito bem avaliado pela crítica musical, cultuado por fãs, inclusive de rock. A obra garantiu a Fernando Pellon o troféu Chiquinha Gonzaga. O álbum é citado em listas de melhores trabalhos autorais independentes da MPB e faz parte de uma série online da Rádio UFMG Educativa como um dos quatro discos brasileiros "clássicos, importantes e influentes" de cada ano a partir de 1965. A sonoridade e as temáticas do disco consolidaram uma tradição de "morbidez escrachada" na música popular brasileira, com letras que chocam entre humor e morte, traçando paralelos com autores como Augusto dos Anjos, Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Arranjo

João de Aquino, Paulinho Lemos

Produção

Roberto Moura

Texto do Encarte

Tárik de Souza

Referências