Legal

Gal Costa

1970

Capa de Legal
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Legal, o álbum de Gal Costa lançado em 1970, representa um momento crucial e de transição na carreira da cantora, consolidando sua identidade artística pós-Tropicália. O disco é um amálgama vibrante de rock psicodélico, MPB e elementos pop, que demonstram a versatilidade de Gal em um período de intensa efervescência cultural e política no Brasil. Ele emerge com uma atmosfera elétrica única, mostrando uma artista que, embora derivasse do experimentalismo tropicalista, já ensaiava novos caminhos e se afirmava como uma força musical singular. Embora por vezes seja considerado um dos trabalhos mais subestimados de sua fase clássica, sua importância reside precisamente nessa multiplicidade de estilos e na ousadia em explorar diferentes sonoridades. Este trabalho não apenas solidifica a voz de Gal como uma das mais potentes e adaptáveis do cenário brasileiro, mas também marca sua estreia como compositora com a faixa "Love, Try and Die". Legal é um retrato da inquietude da artista aos 25 anos, onde ela navega entre rocks, baiões, frevos e bossas com uma atitude desprendida e inovadora, características que a fariam atravessar décadas como uma das maiores intérpretes do país. O álbum é uma ponte entre a Gal mais radical e a musa do desbunde, revelando uma artista em plena evolução e desafiando as expectativas.

Contexto

O lançamento de Legal em 1970 ocorreu em um dos períodos mais sombrios da história brasileira, sob a égide do Ato Institucional Número Cinco (AI-5) da ditadura militar, instaurado há pouco mais de um ano. Nesse contexto de repressão, censura e exílio forçado de grandes nomes como Caetano Veloso e Gilberto Gil, Gal Costa assumiu o papel de carregar o estandarte do Tropicalismo e da contracultura, quase sozinha, no Brasil. A artista, que havia passado o réveillon de 1969 para 1970 com Caetano e Gil em Londres, sentia o peso da "caretice" e da angústia física impostas pelo regime. Nesse cenário de "Anos de Chumbo", a música e a arte se tornaram formas de resistência, muitas vezes por meio de mensagens cifradas e subtextos. O próprio título do álbum, "Legal", pode ser interpretado como um protesto sutil ou uma ironia em relação à ditadura, além de ser uma gíria da época para algo "bacana" ou uma referência ao seu próprio nome artístico. Legal, portanto, não é apenas um disco musical, mas um documento de seu tempo, refletindo a necessidade de criar e resistir em um ambiente de opressão, com Jards Macalé, um dos arranjadores, comentando que eles procuraram fazer o melhor possível naquele clima de ditadura militar.

Gravação

A produção de Legal foi dirigida por Manoel Barenbein, com os talentosos Ary Carvalhaes, João Moreira e Mazzolla na engenharia de gravação, tudo realizado no Estúdio CDB. A ficha técnica do álbum revela uma colaboração musical de peso, com os arranjos de base a cargo de Lanny Gordin e Jards Macalé, que imprimiram uma sonoridade elétrica e inovadora ao disco. Os arranjos de orquestra, por sua vez, foram elaborados por Chiquinho de Moraes, adicionando camadas de sofisticação e diversidade aos temas. A banda que acompanhou Gal era formada por músicos de destaque, incluindo Norival na bateria, Claudio no baixo e Lanny Gordin na guitarra. Chiquinho de Moraes também contribuiu com o piano na faixa "Love, Try and Die". As participações especiais são um capítulo à parte, com Erasmo Carlos, Tim Maia, Jards Macalé, Lanny Gordin e Nana Caymmi emprestando seus talentos aos vocais da faixa "Love, Try and Die", criando um coral de vozes memorável. A concepção visual do álbum também é notável, com a capa assinada pelo renomado artista plástico Hélio Oiticica. Considerada pelos críticos como uma das capas mais artísticas de Gal Costa, ela é uma colagem que, segundo alguns, pode ter camuflado imagens de protesto ou de um desaparecido da ditadura militar, adicionando uma camada de significado e resistência à obra.

Músicas

Legal apresenta um repertório eclético que demonstra a capacidade de Gal Costa em transitar por diversos gêneros e moods, com canções que se tornariam marcantes em sua voz. O álbum abre com uma versão rock de "Eu Sou Terrível", de Roberto e Erasmo Carlos, que parece dar continuidade à radicalização sonora do álbum psicodélico anterior de Gal, mostrando sua faceta mais vigorosa e desbravadora. Outros destaques incluem "Língua do P" e "Mini-Mistério", ambas composições de Gilberto Gil, que refletem a inventividade lírica e melódica da época. "London, London", de Caetano Veloso, é uma das canções mais icônicas do disco, um hino de melancolia e esperança que ressoa profundamente com o exílio e as tensões políticas do período. A regravação de "Falsa Baiana", de Geraldo Pereira, revela uma Gal que revisita as raízes do samba com uma interpretação que remete à delicadeza da bossa nova, e a canção persistiria em álbuns posteriores. O álbum também traz "Hotel das Estrelas" e "The Archaic Lonely Star Blues", colaborações de Jards Macalé e Duda Machado, que contribuem para a atmosfera diversificada. Um momento singular do disco é "Love, Try and Die", a primeira composição de Gal Costa, em parceria com Jards Macalé e Lanny Gordin. Esta faixa, com a participação vocal de Erasmo Carlos, Nana Caymmi, Tim Maia e Jards Macalé, é um testemunho da experimentação e da colaboração artística que marcaram a época. "Deixa Sangrar (Carnaval 1971)", de Caetano Veloso, é outro ponto alto, sendo a primeira de muitas músicas inspiradas no frevo que Gal gravaria, e uma brincadeira com a canção "Let It Bleed" dos Rolling Stones, mostrando a inteligência e o bom humor presentes no disco.

Legado

Legal foi um álbum de grande sucesso comercial para Gal Costa, com o compacto simples de "London, London" alcançando o primeiro lugar entre os mais vendidos no Rio de Janeiro e a 13ª posição em São Paulo em 1970, demonstrando a imediata aceitação popular. Criticamente, o álbum é frequentemente elogiado por sua audácia e por capturar um momento de transição e reinvenção para a artista. A revista Allmusic, por exemplo, concedeu-lhe 4 de 5 estrelas. Considerado por Assucena Assucena da banda As Bahias e a Cozinha Mineira como um trabalho "genial, contemporâneo e perturbador", Legal solidificou a imagem de Gal Costa como uma "musa da contracultura" durante os turbulentos "Anos de Chumbo" da ditadura militar. O álbum, com sua mistura de gêneros e sua postura artística desafiadora, pavimentou o caminho para o icônico show e álbum ao vivo "Fa-Tal - Gal a Todo Vapor", lançado no ano seguinte, que é amplamente reconhecido como um dos maiores discos ao vivo da história da música brasileira. Assim, Legal permanece como um disco fundamental na discografia de Gal, não só pelo seu impacto imediato, mas por sua duradoura relevância artística e cultural.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Arranjo [Base]

Jards Macalé, Lanny Gordin

Arranjo [Orchestra]

Chiquinho De Moraes

Produção [Production Director]

Manoel Barenbein

Participação [Special Participation]

Erasmo Carlos, Jards Macalé, Lanny Gordin, Naná Vasconcelos, Tim Maia

Baixo

Claudio Bertrami

Bateria

Norival Ricardo D'Angelo

Guitarra

Lanny Gordin

Piano

Chiquinho De Moraes

Gravação

Ary Carvalhaes, João Moreira, Mazzola

Capa [Cover & Back-cover]

Helio Oiticica

Referências

Livros