Gilberto Gil
Gilberto Gil
1968

Ranking nas Listas
Por Que Esse Disco é Importante
Lançado em 1968 pela Philips, o álbum "Gilberto Gil" representa um marco indelével na trajetória da música brasileira e no cenário da Tropicália, movimento do qual Gilberto Gil é um dos pilares. Este trabalho não é apenas o segundo disco de estúdio do artista, mas uma declaração sonora que desbravou novos territórios, consolidando o "rock maluco" como uma linguagem vital para a experimentação musical brasileira. A obra se destaca pela fusão inovadora de rock psicodélico, sonoridades tradicionais brasileiras e arranjos orquestrais vanguardistas de Rogério Duprat, contando com a participação enérgica d'Os Mutantes. A complexidade sônica e a ousadia estética do álbum foram cruciais para redefinir os rumos da MPB, servindo como uma perfeita evocação do conceito de "Geleia Geral": cosmopolita, exuberante e profundamente enraizado na brasilidade. O disco é uma das primeiras obras-primas de Gilberto Gil, lançado um mês antes do álbum-manifesto coletivo *Tropicália ou Panis et Circensis*, e elevou exponencialmente a sofisticação musical do artista.
A certa altura de “Pega a Volta Cabeludo”, o baterista Dirceu resume a vanguarda e a brejeirice: “O som psicodélico é redondo que só uma gota”.
Alexandre Matias · Rolling Stone Brasil
Contexto
O ano de 1968 no Brasil era marcado pela sombra da ditadura militar, um período de repressão que cerceava a liberdade de expressão. Nesse cenário de efervescência política e cultural, a Tropicália floresceu como um ato de resistência e uma nova perspectiva para a música nacional. Gilberto Gil, já um artista em ascensão, havia se destacado no III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record em 1967, conquistando o 2º lugar com a canção "Domingo no Parque". Essa apresentação, ao lado d'Os Mutantes e com o uso de guitarras elétricas, causou grande impacto e introduziu publicamente o início do movimento tropicalista. A audácia de Gil ao incorporar elementos do rock internacional gerou polêmica, com acusações de que estaria "traindo a música brasileira", mas o artista soube capitalizar essa controvérsia para ganhar projeção. O álbum representou um ponto de inflexão na carreira de Gil, que em seu disco de estreia, *Louvação* (1967), havia se inclinado para o ideário nacional-popular, e agora propunha uma revisão estética radical. Inspirações vieram tanto do contato com a tradicional Banda de Pífanos de Caruaru em 1967 quanto da influência do *Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band* dos Beatles.
Gravação
As gravações de "Gilberto Gil" ocorreram no início de 1968 nos estúdios da Companhia Brasileira de Discos (CBD), em São Paulo, utilizando técnicas de quatro canais que permitiam uma maior experimentação sonora. A produção esteve a cargo de Manoel Barenbein, uma figura lendária da indústria fonográfica brasileira, enquanto os arranjos e a regência foram assinados pelo visionário maestro Rogério Duprat. A participação d'Os Mutantes foi fundamental, com a banda assumindo o papel de grupo de apoio de Gilberto Gil e injetando as guitarras elétricas que se tornariam uma marca do Tropicalismo. Barenbein teria questionado o grupo: "O que a gente põe a mais na salada?", incentivando a transgressão e a inserção de ruídos e efeitos sonoros que conferem ao disco um ar lúdico e pós-moderno. A capa do álbum, um elemento visual tão icônico quanto a música, foi concebida pelos artistas Antonio Dias e Rogério Duarte, com fotografia de David Drew Zingg, apresentando Gil em um uniforme militar, em uma alusão irônica à capa dos Beatles em *Sgt. Pepper's* e à "cultura oficial" do Estado.
Músicas
O álbum se abre com a vibrante "Frevo Rasgado", uma composição de Gilberto Gil e Bruno Ferreira que une o ritmo pernambucano do frevo a uma melancolia nostálgica de um amor perdido. A icônica "Domingo no Parque", já consagrada no III Festival da Record de 1967, narra um drama passional com uma estrutura quase cinematográfica, misturando o som do berimbau da capoeira com a distorção da guitarra elétrica. Outras faixas notáveis incluem "Pega a Voga, Cabeludo" (com Juan Arcon), descrita como um "pop eufórico" e um groove rock "desembestado", que transforma o folclore amazonense em uma celebração da contracultura. "Domingou", parceria com Torquato Neto, oferece uma crônica leve de um domingo carioca, com vocais de apoio d'Os Mutantes, enquanto "Coragem pra Suportar" e "Marginália II", também com Torquato Neto, abordam temas de resiliência e a complexa identidade brasileira, com ironia e crítica social. A regravação de "Procissão" do disco anterior de Gil exemplifica sua transformação artística, inserindo raízes nordestinas no "rock malucão" com o solo de guitarra de Sérgio Dias. As letras, conforme Gil declarou em 1968, privilegiavam a expressão do que precisava ser dito, mesmo que isso implicasse em maior extensão, e as composições, mesmo com estruturas harmônicas tradicionais, eram enriquecidas por ruídos, guitarras e orquestrações dissonantes.

Os beatlemaníacos perceberam logo. Na capa de seu segundo álbum, gravado durante os primeiros meses de efervescência do movimento tropicalista, Gilberto Gil surge vestindo um fardão semelhante ao dos vetustos membros da Academia Brasileira de Letras.
Carlos Calado · 300 Discos Importantes
Legado
"Gilberto Gil" foi aclamado pela crítica, com a AllMusic concedendo-lhe a pontuação máxima de cinco estrelas e afirmando que o álbum contém "algumas das melhores canções" da carreira do artista. Sua importância no panorama musical brasileiro foi reiterada em outubro de 2007, quando a revista Rolling Stone Brasil o incluiu na 78ª posição de sua lista dos "100 Maiores Discos da Música Brasileira". Em 2017, o site Pitchfork reconheceu seu impacto internacional, colocando-o na 99ª posição da lista dos "200 Melhores Álbuns da Década de 1960", elogiando-o por transcender as convenções da estrutura e dos temas da música popular brasileira. O disco não apenas redefiniu o lugar de Gilberto Gil e d'Os Mutantes no cenário musical, mas também expandiu significativamente o leque de sonoridades a serem exploradas pela MPB nas décadas subsequentes, solidificando-o como um marco para o Tropicalismo e para a música brasileira em geral. O álbum registrou um momento de intensa aceleração política e cultural no Brasil, pouco antes do endurecimento do regime militar com o AI-5.
Faixas
Créditos
Rogério Duprat
Manoel Barenbein
Os Mutantes
Antônio Dias, David Drew Zingg
Júlio Pio
Estampa (Gaúcho)
Rogério Duarte
Vídeos
3000 Best Albums [2537] Gilberto Gil - Gilberto Gil (1968) Dan's Mini Album Review
Dan's Mini Album Reviews
Filmes

Gilberto Gil Antologia Vol.1
2019
O documentário biográfico apresenta um panorama da vida e da obra de Gilberto Gil. O filme se apoia em pesquisa de acervo e materiais históricos inéditos, resultando num filme de montagem de conteúdo original.

Gilberto Gil: Tempo Rei
1996
Celebrando os 30 anos de carreira de Gilberto Gil, relembrando suas origens, influências, grandes sucessos e parcerias.

Amor e Sorte com Gilberto Gil
2020
A música e a poesia de Gilberto Gil na voz de diferentes gerações de artistas e a sua sabedoria em sua própria voz.
Livros

Os 500 Maiores Álbuns Brasileiros de Todos os Tempos
Ricardo Alexandre · 2022
A maior eleição de música brasileira já feita: 162 especialistas, entre jornalistas, críticos, músicos, produtores e podcasters, indicaram, cada um, 50 discos essenciais, apoiados por uma masterlist de mais de 2.000 obras. Encabeçada por Ricardo Alexandre, com tabulação de Sérgio Jomori, foi publicada em dezembro de 2022 em um livro de 200 páginas em capa dura, com projeto gráfico de Fernando Pires.

Gilberto bem perto
Gilberto Gil, Regina Zappa · 2013
Autobiografia de Gilberto Gil, coescrita com Regina Zappa. O livro oferece uma visão aprofundada da vida e carreira do artista, desde suas origens na Bahia até sua trajetória como um dos fundadores da Tropicália e, posteriormente, como Ministro da Cultura. É uma fonte essencial para entender o contexto e a criação de seus álbuns seminais, como o de 1968, que marca uma fase crucial de experimentação e inovação.

300 Discos Importantes da Música Brasileira
Charles Gavin, Tárik de Souza, Carlos Calado, Arthur Dapieve · 2008
Idealizado pelo baterista dos Titãs e pesquisador musical Charles Gavin, o livro de 434 páginas reúne capas e resenhas de discos lançados entre 1929 e 2007. Os textos ficaram a cargo dos jornalistas Tárik de Souza, Arthur Dapieve e Carlos Calado.
Análises
Gilberto Gil – Wikipedia
Wikipédia, a enciclopédia livre
Gilberto Gil – Os 100 Maiores Discos da Música Brasileira
Alexandre Matias · Rolling Stone Brasil
A certa altura de “Pega a Volta Cabeludo”, o baterista Dirceu resume a vanguarda e a brejeirice: “O som psicodélico é redondo que só uma gota”.
"Gilberto Gil" (1968), Gilberto Gil - A música de
amusicade.com
Se, neste primeiro álbum, Gil buscou reunir composições, sonoridades e temáticas ligadas ao ideário nacional-popular, no "disco da farda", ou LP Gilberto Gil, de 1968, propôs uma revisão estética dos elementos que fariam parte do caldeirão cultural da MPB.
"Gilberto Gil" (Philips, 1968), Gilberto Gil
discosessenciais.blogspot.com
Gilberto Gil aborda a luta interna para superar momentos de tristeza com coragem. Os versos que retratam a vida árdua no sertão nordestino contrastam com uma base instrumental intensa, inspirada no rock internacional, com destaque para a guitarra e o baixo.
Gilberto Gil - Gilberto Gil (1968) - by Rafael Morettini
umcatalogo.substack.com
Em retrospecto, "Gilberto Gil" acabou funcionando como síntese de um intervalo curto da cultura brasileira: os meses imediatamente anteriores ao endurecimento definitivo da ditadura.