Gil & Jorge: Ogum, Xangô

Gilberto Gil & Jorge Ben Jor

1975

Capa de Gil & Jorge: Ogum, Xangô
Top 100

Porque Merece Estar na Lista

Gil & Jorge: Ogum, Xangô é um álbum duplo de 1975 que representa um encontro seminal entre dois dos maiores ícones da música brasileira, Gilberto Gil e Jorge Ben Jor. Lançado pela Philips Records, este trabalho se destaca por seu caráter profundamente experimental e improvisacional, quase uma jam session estendida que captura a química inegável e a genialidade espontânea dos artistas. Com faixas que frequentemente ultrapassam os dez minutos, o disco transcende as convenções da MPB da época, mergulhando em uma sonoridade crua e orgânica que mescla samba, samba-rock e outras influências brasileiras. A colaboração entre Gil e Jorge é um testemunho da admiração mútua e da confluência de seus estilos singulares. Enquanto um é frequentemente associado a Ogum, o orixá da guerra e do trabalho, o outro é ligado a Xangô, orixá da justiça e do trovão, elementos que, simbolicamente, se entrelaçam na potência rítmica e na profundidade lírica do álbum. A obra oferece uma escuta cativante, onde os violões, vozes e percussões tecem um diálogo constante e fascinante, com John Bush do Allmusic destacando seu ritmo intenso e suas raízes nas antigas tradições populares brasileiras.

#60

Duplo, este álbum representa o feliz encontro de dois mestres do suingue no melhor de suas formas.

Antônio do Amaral Rocha · Rolling Stone Brasil

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Contexto

Em 1975, tanto Gilberto Gil quanto Jorge Ben Jor estavam em momentos cruciais de suas carreiras. Gilberto Gil, que havia retornado do exílio em Londres no início da década, já havia lançado álbuns importantes como Expresso 2222 e estava prestes a iniciar a aclamada trilogia "Refazenda", "Refavela" e "Realce", com "Refazenda" sendo lançado no mesmo ano. Jorge Ben Jor, por sua vez, já era um artista consagrado, vindo de uma sequência de álbuns inovadores, incluindo o seminal A Tábua de Esmeralda (1974) e Solta o Pavão (1975). Este período na música brasileira foi marcado por uma efervescência criativa, apesar do regime militar que ainda impunha censura e restrições. O encontro de Gil e Jorge, cujas trajetórias já haviam se cruzado em eventos como o festival Phono 73, representou a união de duas forças criativas que, com suas raízes no samba, no rock e nas tradições afro-brasileiras, buscaram na improvisação e na liberdade artística uma forma de expressão autêntica e visceral.

Gravação

O álbum Gil & Jorge: Ogum, Xangô foi gravado nos Phonogram Studios, no Rio de Janeiro, em 1975, e chama a atenção pela sua simplicidade e espontaneidade. A gravação se deu praticamente sem overdubs ou ensaios extensos, resultando em uma sonoridade orgânica e crua, como se o ouvinte estivesse imerso na mesma sala com os artistas. A ficha técnica revela a produção de Paulinho Tapajós e Perinho Albuquerque, com a direção de arte de Jorge Vianna e fotografia de João Castrioto. Os músicos que acompanharam os gigantes foram o percussionista Djalma Corrêa e o contrabaixista Wagner Dias, complementando os violões e vozes de Gilberto Gil e Jorge Ben Jor. Essa formação enxuta, primariamente acústica, com a exceção do baixo elétrico em algumas faixas, reforça o caráter minimalista e focado na interação musical, um aspecto fundamental para a atmosfera improvisada do disco.

Músicas

O repertório de Gil & Jorge: Ogum, Xangô é uma mistura intrigante de canções inéditas e releituras que ganham novas roupagens através da lente improvisacional da dupla. O álbum apresenta apenas quatro faixas originais: "Meu Glorioso São Cristóvão", "Jurubeba", "Filhos de Gandhi" e "Sarro". As demais são regravações que se transformam profundamente na interação entre os artistas. Entre as regravações, destacam-se "Nega", presente no álbum homônimo de Gilberto Gil de 1971, e "Essa É pra Tocar no Rádio", que seria lançada meses depois no disco Refazenda, também de Gil. Do lado de Jorge Ben Jor, o álbum resgata "Quem Mandou (Pé na Estrada)", que já havia sido lançada por Wilson Simonal em 1973, e as clássicas "Taj Mahal" e "Morre o Burro, Fica o Homem", ambas do álbum Ben de 1972. O experimentalismo é evidente na duração de muitas faixas, com quatro das nove canções ultrapassando os dez minutos, permitindo que os músicos explorassem riffs de guitarra hipnóticos e grooves intermináveis, como na versão estendida de "Nêga", onde a palavra "Cabo Frio" é repetida de forma quase mantra.

Legado

Embora sua recepção comercial no lançamento possa ter sido mais discreta, Gil & Jorge: Ogum, Xangô é, hoje, universalmente reconhecido como uma obra-prima e um marco incontestável da MPB. A crítica moderna elogia o disco por conter música excelente e performances que capturam Gil e Jorge em seus picos de criatividade. É amplamente considerado um álbum que consegue ser experimental e minimalista ao mesmo tempo, mantendo uma ligação profunda com as antigas tradições populares brasileiras, conforme notado por John Bush do Allmusic. O álbum é frequentemente apontado como uma das maiores obras colaborativas da música brasileira, celebrado pela inovação sonora e pela coragem artística de dois violonistas rítmicos em seu auge, improvisando e se divertindo em um registro que teria sido gravado em apenas dois dias. A autenticidade do processo criativo elevou este trabalho a um patamar de culto, e sua influência se estende como um exemplo de liberdade e genialidade musical. Foi relançado em CD em 1992 pela Verve Records, atestando seu valor duradouro no cenário musical.

Ranking nas Listas

Faixas

Créditos

Produção [Production Direction]

Paulinho Tapajós, Perinho Albuquerque

Guest [Special Participation], Contrabaixo

Wagner Dias

Guest [Special Participation], Percussão

Djalma Correa

Corte

Joaquim Figueira

Técnico [Recording]

Ary Carvalhaes, João Moreira, Luigi Hoffer, Luis Cláudio Coutinho

Técnico [Studio Assistant]

Jairo Gualberto, Paulinho Chocolate

Arte

Jorge Vianna

Capa

Aldo Luiz, Rogério Duarte

Fotografia

João Castrioto

Podcasts

Referências

Livros