Refavela

Gilberto Gil

1977

Capa de Refavela
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Porque Merece Estar na Lista

Refavela, lançado em 1977 por Gilberto Gil, transcende a mera obra musical para se firmar como um manifesto cultural de profunda relevância na discografia brasileira. Integrante da aclamada trilogia "RE" – que inclui também Refazenda (1975) e Realce (1979) – este álbum é um divisor de águas, propondo uma imersão nas raízes africanas e na experiência da negritude urbana, em contrapartida ao foco rural-nordestino de seu antecessor Refazenda. O disco é uma fusão sonora audaciosa, misturando a MPB característica de Gil com elementos pulsantes de afrobeat nigeriano, o suingue do juju, a energia do funk americano e as batidas envolventes do reggae. Com essa amálgama de ritmos e linguagens, Gilberto Gil não apenas explorou novas fronteiras musicais, mas também consolidou uma declaração artística única, que se tornou um marco na forma como a identidade afro-brasileira é expressa e celebrada na música.

#54

É um álbum de ponto de vista urbano, cantando dores e prazeres da vida na cidade, mas sem a visão apocalíptica da inevitabilidade da metrópole: Gil encara ruas e prédios como criação humana e, portanto, da natureza.

Alexandre Matias · Rolling Stone Brasil

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Contexto

O ano de 1977 encontrava o Brasil sob o regime da ditadura militar, um período em que o "mito da democracia racial" era frequentemente invocado para mascarar as tensões e conflitos raciais inerentes à sociedade. Em meio a esse cenário, Gilberto Gil, que já havia experimentado o exílio em Londres no início da década de 70, onde aprofundou sua autopercepção como um sujeito periférico e explorou diversas manifestações musicais, vivia um momento de efervescência criativa e reconexão com suas origens. A grande catalisadora para a concepção de Refavela foi a participação de Gil no 2º Festival Mundial de Arte e Cultura Negra (FESTAC '77), realizado em Lagos, Nigéria. O evento reuniu cerca de 50 mil artistas da diáspora africana e do continente, expondo Gil a ícones como Fela Kuti, cuja sonoridade afrobeat e juju influenciou profundamente o álbum. A experiência em Lagos, onde Gil se hospedou em um conjunto habitacional que o remeteu aos blocos do BNH nas periferias brasileiras, deu origem ao neologismo que intitula o disco e reflete sobre a condição do negro na urbanidade. Paralelamente, o Brasil via a ascensão do Movimento Black Rio e a "reafricanização" do carnaval baiano por blocos como Ilê Aiyê e Filhos de Gandhy, movimentos que ecoavam no trabalho de Gil, conectando Salvador, Lagos, Kingston e os bailes black cariocas em uma circulação atlântica de ideias e ritmos.

Gravação

Refavela foi gravado em 1977 nos estúdios da gravadora Phonogram, com a produção musical a cargo de Roberto Sant'Ana. Gilberto Gil não apenas liderou o processo criativo, mas também se envolveu ativamente na fase de mixagem, sendo creditado como técnico. A banda que acompanhou Gil neste trabalho contou com músicos de destaque como Perinho Santana (guitarra, coro), Cidinho Teixeira (piano, ARP String Ensemble), Rubão Sabino (baixo), Djalma Corrêa (percussão) e Paulinho Braga (bateria), com Robertinho Silva também participando na bateria em uma das faixas. Embora o disco tenha sido lançado com Gilberto Gil à frente de sua direção, o artista não ficou plenamente satisfeito com a mixagem original do álbum. Essa insatisfação foi tamanha que, em 1984, quando a Warner Music decidiu relançar o LP, Gil fez um pedido incomum para a época: que o disco fosse remixado.

Músicas

As dez faixas de Refavela compõem um mosaico lírico e rítmico que aborda a negritude em suas múltiplas facetas urbanas e ancestrais. A faixa-título "Refavela" é um "baiãozinho" que capta o deslocamento da população negra pobre para conjuntos habitacionais, o desejo de ascensão social e a vitalidade da cultura black jovem, incluindo o fenômeno do Black Rio. "Babá Alapalá" é uma ode à ancestralidade africana, reunindo orixás e fazendo uma ponte com a influência de candomblés visitados por Gil, transformando-se em um samba-dança influenciado pelo funk de Lagos. Já "Balafon" celebra o instrumento africano que Gil recebeu de presente na Nigéria, construindo uma estrutura polirrítmica com compasso 3/4 que gira em torno de sua sonoridade. Outras canções de destaque incluem "Ilê Ayê (Que Bloco É Esse?)", composição de Paulinho Camafeu que se tornou um hino em louvor ao lendário bloco afro de Salvador, e cuja inclusão por Gil ajudou a legitimar e projetar essa estética para o circuito nacional. "Aqui e Agora" é descrita como uma balada de rumba congolesa, de balanço lânguido e sonhador, enquanto "No Norte da Saudade" revela um Gil nostálgico de seu Nordeste infantil. O álbum transita entre o coletivo e o íntimo, como em "Sandra", uma canção mais pessoal e de voz baixa, dedicada à sua ex-mulher, em contraste com os temas de movimentos de massa e transformações raciais que permeiam a obra. As letras de Refavela, em seu conjunto, valorizam a identidade negra, expressam a beleza e a força da cultura afro-brasileira e, sutilmente, expõem as estruturas de racismo, classismo e colonialidade na sociedade.

Legado

No momento de seu lançamento, Refavela não obteve unanimidade entre a crítica especializada, com algumas vozes esperando uma postura política mais explícita e enérgica por parte de Gilberto Gil. Contudo, com o passar do tempo, o álbum se firmou como uma obra seminal, sendo considerado um dos trabalhos mais importantes da carreira do artista e da música brasileira do século XX. Ele foi fundamental para a solidificação da consciência negra no Brasil, tornando-se um disco icônico que inspirou e continua a ressoar em músicos e movimentos culturais subsequentes. A relevância de Refavela se estende por décadas, como evidenciado pelo documentário "Refavela 40", produzido por seu filho Bem Gil, que celebrou os quarenta anos do álbum e sua influência duradoura. O disco é reconhecido por ter dado forma estética às reivindicações políticas afro-brasileiras e por legitimar estéticas de blocos afros, como o Ilê Aiyê, no cenário nacional. Quase cinquenta anos após seu lançamento, Refavela permanece atual, levantando discussões pertinentes sobre as relações Brasil-África, a contínua criminalização da juventude negra e as manifestações artísticas que emergem da periferia em ambos os lados do Atlântico.

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