Mudança de Comportamento
Ira!
1985

Porque Merece Estar na Lista
Clandestino, o quarto álbum do Ira!, lançado em 1990, emerge como um trabalho de experimentação e ruptura para a banda, apesar de ter sido gravado em um período de crise criativa reconhecida pelos próprios integrantes. Mesmo diante das dificuldades, o disco demonstra uma busca por novas sonoridades, desdobrando o estilo da banda em direções inesperadas. O álbum se destaca pela ousadia em incorporar elementos de diversos gêneros musicais. Canções como "Melissa" flertam com ritmos de capoeira através da melodia vocal de Nasi e do uso do berimbau, enquanto "Cabeças Quentes" transita do samba para o hard rock de forma surpreendente, evidenciando a versatilidade instrumental do grupo. A exploração de samplers, que já havia marcado o trabalho anterior, reaparece, adicionando camadas sonoras e referências culturais, como o discurso de Salvador Allende e a abertura do "Repórter Esso".
Contexto
Lançado em meio ao conturbado período do Plano Collor no Brasil, Clandestino reflete uma fase de turbulência também dentro do próprio Ira!. A banda vivenciava uma crise criativa, em parte impulsionada pelo lançamento do primeiro disco-solo de Edgard Scandurra, Amigos Invisíveis. Essa escassez de material inédito levou o grupo a revisitar composições antigas, algumas datadas de antes mesmo do primeiro álbum da banda, como "O Dia, A Semana, O Mês", "Nasci em 62" e a faixa-título, composta por Scandurra ainda nos tempos do grupo Subúrbio, o embrião do Ira!.
Gravação
A gravação de Clandestino ocorreu entre outubro de 1989 e fevereiro de 1990, um processo que os próprios membros descreveram como burocrático e realizado por uma banda "aos pedaços". Contou com a participação especial do ator Paulo Villaça, conhecido por seu papel no filme O Bandido da Luz Vermelha, que já havia servido de inspiração para o álbum anterior, Psicoacústica. Os samplers, técnica explorada em Psicoacústica, foram novamente empregados. A faixa-título incorpora um trecho do último discurso de Salvador Allende, extraído do documentário "No", enquanto a introdução de "Nasci em 62" resgata a emblemática abertura do radiojornal "Repórter Esso".
Músicas
O repertório de Clandestino é notável pela reinterpretação de material previamente composto. Canções como "O Dia, A Semana, O Mês", "Nasci em 62" e a faixa-título "Clandestino" foram resgatadas de períodos anteriores da banda, revelando a longevidade das ideias composicionais de Edgard Scandurra. A canção "Cabeças Quentes", por sua vez, foi escrita quatro anos antes do lançamento do disco. Entre as faixas, "Melissa" se destaca pela sonoridade inspirada em rodas de capoeira, com a voz de Nasi e a inclusão de berimbau. Já "Cabeças Quentes" apresenta uma fusão inesperada de samba com elementos de hard rock, que se intensifica a partir da metade da música, e inclui uma citação ao refrão de "Roadhouse Blues" do The Doors. A balada "Tarde Vazia" alcançou uma execução radiofônica razoável, contribuindo para a visibilidade do álbum.
Legado
Com um desempenho comercial modesto, registrando cerca de 30 mil cópias vendidas, Clandestino gerou uma recepção crítica polarizada em seu lançamento. Enquanto publicações como a Folha de S. Paulo, através de Luís Antônio Giron, elogiavam sua musicalidade "despida de proselitismo fácil" e a "trama sonora" do grupo, a revista Veja também destacava os "arranjos enxutos" e a guitarra de Edgard Scandurra. Por outro lado, houve críticas negativas, como a de André Forastieri na revista Bizz, que o considerou "excruciantemente chato" e o "pior disco da banda". Arthur Dapieve, em seu livro BRock, apontou as "constrangedoras letras" e os "instáveis vocais de Nasi" como pontos fracos, embora ressalvasse a qualidade instrumental e momentos positivos em faixas como "Melissa" e "Cabeças Quentes".
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Liminha
Pena Schmidt
Marcos Valadão
Ricardo Gaspa
André Jung
Edgard Scandurra
Marcio Montarroyos
Vitor Farias
Marco Vallada
Rui Mendes

