Psicoacústica
Ira!
1988

Porque Merece Estar na Lista
Psicoacústica, o terceiro álbum de estúdio do Ira! lançado em 1988, é uma obra que se destaca por sua ousadia e visão, posicionando-se como um dos discos mais cultuados da banda. Em um período onde o rock nacional explorava sonoridades mais convencionais, o Ira! optou por uma abordagem experimental, incorporando faixas em estilos pouco usuais para a mídia da época. Seu aspecto hermético conferiu-lhe uma aura anticomercial, mas solidificou sua reputação como um trabalho inovador. O álbum marca uma notável transição no direcionamento musical do grupo, que, embora mantendo raízes no rock, não hesitou em flertar com diversos gêneros como reggae, hard rock, rock psicodélico e até mesmo uma fusão de rock, rap e embolada nordestina. Essa amplitude sonora, combinada com a pioneira utilização de samplers em gravações brasileiras, demonstra a ambição e a criatividade do Ira! em expandir os horizontes do rock produzido no Brasil. Quatro faixas do disco empregaram esses recursos, que adicionaram uma camada de complexidade e modernidade à sonoridade.

A influência do cinema de Rogério Sganzerla (“Rubro Zorro”), do hip-hop (“Advogado do Diabo”) e a capa com hologramas fez do álbum um dos mais ousados de sua época.
Leonardo Dias Pereira · Rolling Stone Brasil
Contexto
O lançamento de Psicoacústica ocorreu meses após as impactantes apresentações do Ira! no festival Hollywood Rock, em janeiro de 1988, um momento de efervescência para a cena musical brasileira. Neste cenário, a banda se encontrava em um ponto de inflexão criativa, buscando explorar novas direções após a sonoridade mais calcada na música mod de seus dois primeiros álbuns.
Gravação
Psicoacústica foi um dos primeiros álbuns brasileiros a incorporar samplers em suas gravações, um recurso tecnológico inovador para a época. Quatro faixas do disco fizeram uso desses elementos, frequentemente inseridos pelo vocalista Nasi, que contribuíram para a complexidade e a textura sonora do trabalho. Trechos de áudio foram extraídos de diversas fontes, como o filme O Bandido da Luz Vermelha, ouvidos em canções como "Rubro Zorro" e "Pegue Essa Arma", com falas como "trata-se de um faroeste do terceiro mundo!" e "E o terceiro mundo vai explodir!". A canção "Advogado do Diabo" encerra-se com um discurso do presidente da LBV, Paiva Netto, transmitido em rádio AM, enquanto "Farto do Rock 'n' Roll" reproduz sons de plateia em um show. Outro fator notável que influenciou a concepção do álbum foi o "verão da lata", ocorrido entre 1987 e 1988, um período marcado pelo incidente do naufrágio do navio Solana Star, que trouxe grandes quantidades de maconha asiática às praias brasileiras.
Músicas
O álbum Psicoacústica é um mosaico de estilos, com o Ira! transitando por gêneros variados. É possível encontrar o reggae em "Receita Para Se Fazer um Herói", o hard rock na única canção não cantada por Nasi, "Farto do Rock 'n' Roll" interpretada por Edgard Scandurra, e o rock psicodélico em "Mesmo Distante". Apenas "Manhãs de Domingo" e "Poder, Sorriso, Fama" mantêm a sonoridade mod dos trabalhos anteriores da banda, com a primeira trazendo a expressão "amigos invisíveis" empregada por Edgard, que viria a nomear seu primeiro disco solo. Um dos pontos altos do ecletismo do disco é "Advogado do Diabo", que de forma vanguardista mistura elementos de rock, rap e embolada nordestina. Essa faixa foi particularmente reverenciada por Chico Science, que a incluiu em apresentações da Nação Zumbi, evidenciando a conexão do Ira! com o futuro movimento manguebeat. A incursão no rap se deu pela admiração de Nasi e André Jung pela cultura hip-hop, enquanto Edgard Scandurra, visivelmente incomodado com essa exploração, expressou seu descontentamento na letra de "Farto do Rock 'n' Roll", deixando um "recado" aos colegas de banda.
Legado
Psicoacústica é amplamente reconhecido como um dos álbuns mais importantes do rock brasileiro, figurando na lista dos 100 maiores discos da música nacional pela Rolling Stone Brasil, na 81ª posição. Apesar de seu sucesso crítico, as vendagens iniciais foram modestas, alcançando apenas 50 mil cópias, refletindo a sua "aura anticomercial" na época do lançamento. A recepção crítica foi extremamente positiva. Arthur Dapieve, do Jornal do Brasil, elogiou a forma como o estúdio foi usado para "sujar o som com infinitos efeitos neo-psicodélicos", ressaltando a evolução da banda. Thales de Menezes, da Folha de S. Paulo, destacou a ousadia do Ira! em romper com estruturas tradicionais, criando arranjos meticulosos e segmentos rítmicos por vezes antagônicos. Além disso, a canção "Advogado do Diabo" exerceu uma influência notável sobre o movimento manguebeat, sendo elogiada e apresentada ao vivo por Chico Science, solidificando o papel do Ira! como um precursor para futuras gerações de músicos.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Ira!, Paulo Junqueiro
Nasi
Ricardo Gaspa
André Jung
Edgard Scandurra
Roberto Firmino, William Forghieri
Don Harris
