Vivendo e Não Aprendendo
Ira!
1986

Porque Merece Estar na Lista
Vivendo e Não Aprendendo, o segundo álbum de estúdio da banda Ira!, lançado em 1986, representa um marco fundamental na carreira do grupo e no cenário do rock brasileiro dos anos 80. O disco solidificou a identidade sonora da banda, mesclando a energia crua do punk rock e do pós-punk, que marcou suas primeiras composições, com uma notável evolução melódica e arranjos mais elaborados. Essa fusão resultou em um trabalho que, sem perder a atitude contestadora e a efervescência de sua origem, alcançou um público mais vasto e consolidou o Ira! como um dos pilares da cena musical daquela década. O álbum se destaca por sua sonoridade coesa e pela maturidade lírica, abordando temas que variam da crítica social a reflexões existenciais e o desabrochar de emoções mais introspectivas. A capacidade de transitar entre a urgência de faixas como "Dias de Luta" e a delicadeza orquestrada de "Flores em Você" demonstra a versatilidade do Ira! em um período de grande experimentação no rock nacional. Vivendo e Não Aprendendo é, portanto, uma obra essencial para compreender a evolução estética da banda e sua contribuição para a diversidade musical brasileira da época.

Por essas e outras, se tornou o disco de cabeceira de muitos roqueiros durante os anos 80.
José Julio do Espírito Santo · Rolling Stone Brasil
Contexto
Lançado em meados dos anos 80, Vivendo e Não Aprendendo emergiu em um período de intensa efervescência cultural no Brasil, marcado pela transição política da ditadura militar para a redemocratização. Esse cenário de novas liberdades e questionamentos sociais impulsionou o surgimento de uma prolífica cena do rock nacional, onde bandas como o Ira! se tornaram a voz de uma geração. O álbum anterior da banda, Mudança de Comportamento (1985), já havia introduzido sua sonoridade distintiva, baseada no punk e pós-punk, mas foi com este segundo trabalho que o grupo paulistano consolidou sua proposta e se preparou para alcançar um patamar de reconhecimento mais amplo.
Gravação
A produção de Vivendo e Não Aprendendo foi um processo intenso e, por vezes, conturbado, capturado entre maio e junho de 1986, majoritariamente no Estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro. A banda, fortemente influenciada por grupos como The Jam, buscava uma sonoridade específica que, para o produtor Liminha, soava como "desafinada", gerando atritos significativos. Os desentendimentos estéticos e as intervenções de Liminha no processo criativo, especialmente durante a gravação de "Flores em Você", levaram a tensões que culminaram na transferência da mixagem e parte da gravação para São Paulo, sob a supervisão de Pena Schmidt. O registro de "Flores em Você" é particularmente emblemático desses conflitos. A canção, que seria um dos maiores sucessos do álbum, foi construída sobre um arranjo de quarteto de cordas, acompanhando o vocal de Nasi e o violão de Edgard Scandurra. A complexidade do arranjo e a visão artística da banda para a faixa, apesar do sucesso posterior, selaram a ruptura definitiva na relação entre o Ira! e Liminha durante a produção. Além das sessões de estúdio, o álbum incluiu duas faixas, "Gritos na Multidão" e "Pobre Paulista", gravadas ao vivo em 3 de maio de 1986, na casa de shows Broadway, em São Paulo, adicionando uma dimensão energética e autêntica ao trabalho final.
Músicas
O repertório de Vivendo e Não Aprendendo é uma amálgama de faixas que se tornaram hinos do rock brasileiro, demonstrando a versatilidade e a profundidade composicional de Edgard Scandurra. "Flores em Você", por exemplo, é um dos pontos altos do álbum, notável por seu arranjo sofisticado de quarteto de cordas, que remete a influências de "Eleanor Rigby" dos Beatles e "Smithers-Jones" do The Jam. Sua melodia marcante e letra poética a transformaram em um sucesso estrondoso, consolidando-se como tema de abertura de novela e uma das canções mais executadas nas rádios brasileiras em 1987. Outros grandes destaques incluem a urgência de "Dias de Luta", cujo título inspirou o livro sobre a história da banda, e a introspecção de "Envelheço na Cidade", ambas canções que encapsulam a energia e a melancolia características do Ira! daquela época. O álbum também revisita canções de seu compacto de estreia, como "Gritos na Multidão" e "Pobre Paulista", apresentadas em vibrantes versões ao vivo. A faixa "Pobre Paulista", composta por Edgard Scandurra em sua juventude, gerou uma polêmica significativa por trechos que foram interpretados como bairristas. No entanto, a banda sempre defendeu que a letra era uma crítica velada à opressão governamental e aos apoiadores da ditadura militar, e não um ataque xenofóbico.
Legado
Vivendo e Não Aprendendo não apenas solidificou a carreira do Ira!, mas também deixou um legado duradouro na música brasileira. O álbum foi um estrondoso sucesso de público e crítica, vendendo cerca de 180 mil exemplares na época de seu lançamento e alcançando o status de "disco de ouro", mantendo-se como o álbum mais vendido da banda por mais de uma década, até o Acústico MTV. Sua importância é reconhecida até hoje, sendo incluído na lista dos 100 maiores discos da música brasileira pela revista Rolling Stone Brasil, na 94ª posição. A repercussão do álbum se estendeu para além das vendas, com episódios que marcaram a atitude contestadora do grupo, como a recusa em participar do especial de Natal do Cassino do Chacrinha. A controversa apresentação no festival Hollywood Rock de 1988, onde problemas técnicos levaram Edgard Scandurra a quebrar sua guitarra no palco, também se tornou parte da mitologia da banda, reforçando sua imagem de autenticidade e rebeldia. O álbum foi remasterizado e relançado em CD em 2000, com faixas bônus, reiterando sua relevância contínua para novas gerações de ouvintes.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Ira!, Liminha, Paulo Junqueiro, Pena Schmidt, Vitor Farias
André Jung, Edgard Scandurra, Marcos Valadão, Ricardo Gasparini
Edgard Scandurra
Ricardo Gasparini
André Jung
Edgard Scandurra
André Jung
José Oswaldo Martins
