Beleléu, Leléu, Eu
Itamar Assumpção
1980

Porque Merece Estar na Lista
Beleléu, Leléu, Eu, o álbum de estreia de Itamar Assumpção lançado em 1980 com a banda Isca de Polícia, é uma obra seminal que redefiniu os contornos da música popular brasileira. Considerado um marco incontornável da Vanguarda Paulistana, o disco irrompeu na cena musical com uma proposta sonora ousada, misturando elementos de MPB, soul, reggae e jazz de uma maneira única e intrinsecamente experimental. Sua chegada representou um rompimento com a estética musical predominante na época, abrindo um caminho singular para o artista e para a música brasileira. Este trabalho de estreia não é apenas o mais famoso do cantor, mas também uma declaração artística que expõe toda a verdade de Itamar Assumpção, com um rigor e uma franqueza que o tornam perenemente atual. Suas composições são um caldeirão de influências, apresentando modulações inusitadas, colagens de falas, arranjos vocais complexos e flertes com a música atonal, tudo embalado por uma atitude art-rock e uma entrega performática visceral. É um álbum que, como sua filha Anelis Assumpção bem observou, possui uma construção literária robusta, crônicas urbanas e uma representação profunda e crua da cidade de São Paulo, elementos que garantem sua relevância mesmo décadas após seu lançamento.

o disco lhe garantiria espaço definitivo entre os grandes compositores brasileiros e o papel de desequilibrador da relação entre crítica e público.
Márcio Cruz · Rolling Stone Brasil
Contexto
Lançado no auge da efervescência cultural da Vanguarda Paulistana, entre 1979 e 1985, Beleléu, Leléu, Eu surge em um Brasil que começava a vislumbrar a redemocratização após anos de ditadura militar. O movimento, centrado em São Paulo e com o Teatro Lira Paulistana como um de seus principais redutos, reuniu artistas que buscavam romper com o controle da indústria fonográfica e com os padrões da MPB hegemônica, optando pela produção independente e por uma postura estética e política contestadora. Itamar Assumpção, nascido em Tietê em 1949, já carregava uma trajetória rica antes deste disco. Após uma juventude em Londrina onde se aventurou no teatro, mudou-se para São Paulo em 1973, onde conheceu e colaborou com Arrigo Barnabé. Sua figura, frequentemente associada ao alter ego 'Nego Dito', representava o artista negro e independente que desafiava as imposições da indústria cultural, escolhendo a autonomia criativa como um pilar de sua obra. A formação da banda Isca de Polícia em 1979 foi um passo crucial, preparando o terreno para a explosão criativa de seu primeiro álbum.
Gravação
Beleléu, Leléu, Eu é emblemático não apenas por sua sonoridade, mas também por sua gestação: foi lançado de forma totalmente independente em 1980, um selo distintivo da Vanguarda Paulistana. O disco marcou a estreia do selo Lira Paulistana, uma iniciativa do produtor Wilson Souto Jr. (conhecido como 'Gordo'), que criou a gravadora para dar vazão aos trabalhos dos artistas ligados ao teatro de mesmo nome. A produção independente, para os músicos da Vanguarda, não era apenas uma escolha, mas uma necessidade estética e prática diante da falta de interesse das grandes gravadoras. A gravação contou com o próprio Itamar Assumpção em diversas funções, assumindo vocais, baixo, guitarra, violão, acordeon, piano acústico, bateria e percussão, demonstrando sua versatilidade e controle criativo. Acompanhando-o, a Isca de Polícia incluía Paulo Barnabé na bateria e percussão (e acordeon), Luis Lopes nos pianos acústico e elétrico, e Luiz A. Rondó Monteiro e Jean Trad nas guitarras. Vocais adicionais foram feitos por Mari (Maria Alice Souto), Gordo, Eliana e Turcão, com Kiko e Pamps no contrabaixo em algumas faixas. A filha de Itamar, Anelis Assumpção, relatou que o pai demonstrava um rigor especial na produção e registro das canções deste primeiro disco, buscando que ele refletisse verdadeiramente seu pensamento artístico.
Músicas
As faixas de Beleléu, Leléu, Eu são um mergulho na complexidade e originalidade de Itamar Assumpção. O álbum é intercalado por vinhetas, um recurso que pontua a narrativa sonora do disco. Canções como "Fico Louco" rapidamente se destacaram, chegando a ser trilha de novela, o que atesta a força melódica de Itamar mesmo dentro de sua proposta experimental. "Nego Dito", por sua vez, é um exemplo da persona que Itamar construiu, com um refrão marcante que evoca seu alter ego e desafia a passividade. Outras composições como "Embalos" expressam as sensações e os desafios do cotidiano da metrópole paulistana, revelando a capacidade de Itamar de traduzir a experiência urbana em poesia e ritmo. Suas letras são frequentemente metalinguísticas, abordando as próprias preocupações do compositor e a poluição sonora da cidade. A obra de Itamar é caracterizada por superposições rítmicas, melódicas e discursivas, com arranjos vocais que lembram naipes de sopros, breques e jogos rítmicos de um groove experimental, e até flertes com a música atonal. Essa complexidade estrutural e a riqueza de significados tornam cada audição uma nova descoberta.

Ironicamente, ele queria ser um compositor popular, mas sua obra ficou associada à “vanguarda paulista”, o suposto movimento surgido ao final dos anos 1970, do qual também teriam feito parte o compositor Arrigo Barnabé, grupos musicais como Rumo e Premeditando o Breque, ou cantoras como Eliete Negreiros e Tetê Espíndola, entre outros nomes, mas que jamais foi um movimento articulado.
Carlos Calado · 300 Discos Importantes
Legado
Beleléu, Leléu, Eu cimentou o status de Itamar Assumpção como uma figura central e inovadora da música brasileira. Seu reconhecimento se solidificou com a inclusão na lista dos 100 Melhores Discos de Música Brasileira da revista Rolling Stone, ocupando a 86ª posição. O álbum também lhe rendeu o Prêmio APCA de Revelação Masculina em 1981, um reconhecimento importante para sua carreira independente. O impacto do álbum é duradouro, com diversos relançamentos em diferentes formatos: em CD no ano 2000 pela Baratos Afins/Atração Fonográfica e, posteriormente, em 2010, como parte do box Caixa Preta, lançado pelo Selo Sesc, que compilou toda a sua discografia. A influência de Itamar Assumpção, manifesta neste disco, ressoa em gerações de artistas, com suas composições sendo reinterpretadas por nomes como Cássia Eller, Zélia Duncan – que dedicou um álbum inteiro às suas músicas – Juçara Marçal e Ney Matogrosso. "Beleléu, Leléu, Eu" não só abriu o próprio caminho para Itamar na música brasileira, mas também se mantém relevante, atravessando os anos com sua visão artística única e sua representação atemporal da realidade urbana.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Chico Pardal, Plínio Chaves, Wilson Souto Jr.
Wilson Souto Jr.
Itamar Assumpção
Eliana Ignácio, Maria Alice Souto, Sergio Feres, Wilson Souto Jr.
Kiko Tupinambá, Pamps
Paulo Barnabé
Jean Trad
Luiz Rondó
Luis Lopes
Helder Marques
José Oswaldo Martins
Gordo, Helder Marques, Itamar Assumpção
Nelson Rentero
A. C. Tonelli, Paulo Priolli
