Bicho de Sete Cabeças
Itamar Assumpção
1993

Porque Merece Estar na Lista
Lançado em 1993, Bicho de Sete Cabeças é o primeiro volume de uma trilogia que marca um período de intensa renovação e experimentação na prolífica carreira de Itamar Assumpção. O álbum, que conta com a banda As Orquídeas do Brasil, formada exclusivamente por mulheres, solidifica a reputação de Itamar como um dos mais originais e ousados criadores da música brasileira, um artista que desafia classificações fáceis. Nesta obra, Itamar mergulha em uma sonoridade radicalmente artesanal, amalgamando samba, rock, funk, reggae, blues e baião de uma maneira peculiar, sempre mantendo sua inconfundível marca musical. Suas composições são um convite a um universo poético denso, recheado de sátira e crítica social, onde o lirismo se entrelaça com o cotidiano urbano e as reflexões existenciais. Bicho de Sete Cabeças não é apenas um disco, mas uma declaração artística que reflete a liberdade criativa de Itamar Assumpção. Sua musicalidade excêntrica, sintética e teatral, combinada com letras que desprezam obviedades, faz deste álbum uma peça fundamental para compreender a singularidade de um dos maiores inovadores da MPB.
Contexto
Itamar Assumpção, nascido em Tietê, São Paulo, em 1949, e radicado em Londrina, Paraná, antes de se mudar para São Paulo em 1973, consolidou-se como uma figura central da Vanguarda Paulista. Este movimento cultural, que floresceu no Teatro Lira Paulistana, foi um celeiro para artistas que buscavam uma expressão musical independente e experimental, distante dos circuitos comerciais. Antes de Bicho de Sete Cabeças, Itamar já havia lançado discos marcantes de forma independente, como Beleléu leléu eu (1980), Às Próprias Custas S.A. (1983) e Sampa Midnight (1986), frequentemente acompanhado pela banda Isca de Polícia. Ao longo de sua trajetória, ele conquistou a alcunha de "maldito da MPB" por sua recusa em fazer concessões às tendências de mercado, cultivando uma obra autoral e intransigente.
Gravação
O álbum Bicho de Sete Cabeças foi lançado pelo selo independente Baratos Afins, uma parceria que já era marca da trajetória de Itamar Assumpção com a produção autônoma e fora dos grandes conglomerados. A produção ficou a cargo de Luiz Calanca, figura conhecida por seu envolvimento com a música independente paulistana. Um dos aspectos mais distintivos do projeto é o acompanhamento da banda As Orquídeas do Brasil, composta exclusivamente por mulheres, que adicionou uma camada singular de vozes e instrumentação à sonoridade do disco. As Orquídeas, cujas integrantes incluíam Cibele Cássia, Tatá Fernandes, Míriam Maria, Nina Blauth, Simone Julian, Lelena Anhaia, Geórgia Branco, Simone Soul, Clara Bastos e Adriana Sanchez, foram essenciais na criação da atmosfera peculiar dos álbuns. O preciosismo de Itamar estendia-se também à estética visual do trabalho. O encarte do disco, por exemplo, apresentava as letras das canções e as fichas técnicas completas em letra manual, um detalhe que reforçava o caráter artesanal e pessoal da obra. Além disso, a capa e o encarte utilizavam técnicas de colagem e sobreposição de símbolos, com uma linguagem que remetia ao afrofuturismo.
Músicas
A trilogia Bicho de Sete Cabeças, da qual este álbum é o primeiro volume, abrange um total de 22 composições que exploram a riqueza lírica e musical de Itamar Assumpção. Entre as canções, destacam-se parcerias com nomes importantes da poesia e da música brasileira, como Alice Ruiz em faixas como "Vou Tirar Você Do Dicionário", "Milágrimas" e "Tua Boca", e Paulo Leminski em "Custa Nada Sonhar". O álbum também é enriquecido por participações especiais notáveis, incluindo Jards Macalé em "Estrupício", Tom Zé em "É Tanta Água" e Ná Ozzetti em "Quem Canta Seus Males Espanta", que contribuem para a diversidade e profundidade sonora do trabalho. As letras de Itamar, muitas vezes metalinguísticas, refletem suas preocupações de compositor e são permeadas por sátira e crítica social, evitando clichês e obviedades. Musicalmente, as composições apresentam uma notável variedade rítmica, transitando entre funk, samba, soul, reggae, rock, blues e baião, sem cair no ecletismo oportunista. A voz das Orquídeas do Brasil complementa a interpretação de Itamar, muitas vezes em diálogos provocativos, reforçando o impacto teatral das canções. "Onda Sertaneja", por exemplo, ironiza com humor a comercialização da música popular.
Legado
Bicho de Sete Cabeças e a trilogia que o sucede são considerados obras de referência e um marco essencial da Vanguarda Paulistana, reafirmando Itamar Assumpção como uma figura incontornável na história da música brasileira. Embora este álbum específico não seja explicitamente citado com prêmios de vendas, a repercussão crítica da obra de Itamar e seu reconhecimento pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) com o prêmio de Melhor Compositor em 1998 e Melhor CD do Ano em 1996, por Ataulfo Alves por Itamar Assumpção – pra sempre agora, atestam a importância de sua produção. Sua influência é inegável, tendo canções interpretadas por grandes nomes da MPB, como Ney Matogrosso, Cássia Eller ("Já deu pra sentir" e "Aprendiz de Feiticeiro"), Monica Salmaso e Zélia Duncan ("Código de Acesso"). A relevância de sua discografia foi reforçada com o relançamento integral pelo Selo Sesc em 2010. Documentários como Daquele Instante em Diante (2011) e estudos sobre sua obra continuam a cimentar seu lugar como um dos gênios mais singulares e influentes da música popular brasileira.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Itamar Assumpção
Miriam Maria, Nina Blauth, Tata Fernandes
Itamar Assumpção
Simone Julian
Simone Julian
Simone Soul
Clara Bastos, Lelena Anhaia, Mário Campos
Adriana Sanchez
Nina Blauth
