Sampa Midnight - Isso Não Vai Ficar Assim
Itamar Assumpção
1983

Porque Merece Estar na Lista
Lançado em 1983, Sampa Midnight - Isso Não Vai Ficar Assim é o terceiro álbum de estúdio de Itamar Assumpção e representa um marco fundamental na obra do artista e na história da Vanguarda Paulistana. O disco encapsula a essência do experimentalismo e da postura independente que definiram Itamar, consolidando sua voz singular no cenário musical brasileiro. Misturando gêneros como art rock, funk rock, reggae e jazz-rock, o álbum se destaca pela sonoridade inovadora e pelas letras que mergulham em questões filosóficas e urbanas, características intrínsecas ao seu trabalho. "Sampa Midnight" transcende a mera categoria musical, propondo uma experiência auditiva que é ao mesmo tempo desafiadora e profundamente reflexiva. Sua lírica, permeada por "perguntas intermináveis" e uma "narrativa bem menos conclusiva" sobre temas como amor e violência, revela uma maturidade poética que sua filha, a cantora Anelis Assumpção, considera um ponto alto da discografia paterna. O álbum não apenas solidifica a identidade artística de Itamar, o "Nego Dito", mas também ressoa como um testamento de sua visão à margem da indústria cultural.
Contexto
O lançamento de Sampa Midnight em 1983 ocorreu em um período efervescente de transição política no Brasil, marcando a fase final da ditadura militar e o início da "abertura" democrática. Culturalmente, a cena musical paulistana vivenciava a consolidação da Vanguarda Paulistana, um movimento de efervescência artística que buscava alternativas à crise da indústria fonográfica, com artistas como Itamar Assumpção promovendo a produção independente. Itamar Assumpção já era uma figura central desse movimento, tendo lançado seus dois primeiros álbuns de forma igualmente independente: Beleléu, Leléu, Eu (1980), com a banda Isca de Polícia, e Às Próprias Custas S.A. (1981 ou 1982), este último caracterizado por sua sonoridade propositalmente "difícil" e "não comercial". Sampa Midnight, portanto, surge como a continuidade de uma trajetória artística que recusava os ditames do mercado, preferindo a experimentação e a autoria.
Gravação
O álbum Sampa Midnight - Isso Não Vai Ficar Assim foi originalmente lançado em 1983 pela Mifune Produções Artísticas (MPA), um selo que reforçava a natureza independente do trabalho de Itamar. A produção foi realizada sob a batuta de Itamar Assumpção em conjunto com Luiz Calanca, da Baratos Afins, que também relançaria o disco posteriormente. Os arranjos, cruciais para a sonoridade peculiar do álbum, foram desenvolvidos pelo próprio Itamar em parceria com Paulinho Le Petit. A gravação do disco contou com uma formação de músicos que incluía Itamar Assumpção nos vocais, percussão, e pontualmente no piano e baixo; Gigante na bateria e vocais; Paulinho Le Petit no baixo, violão e vocais; Luiz L. B. Raio Lazer nas guitarras, violão e vocais; Denise Assumpção nos vocais e percussão; e Bocato no trombone. Este conjunto de talentos, atuando em condições que uma pesquisa descreve como "bastante precárias", reflete a realidade da produção independente da época, onde a criatividade muitas vezes suplantava a falta de recursos, resultando em uma mixagem co-assinada por Élcio, Rui e Itamar.
Músicas
Com quinze faixas, Sampa Midnight é um convite a um universo lírico denso e musicalmente diversificado, que perpassa por art rock, funk rock e reggae, incorporando experimentações de jazz-rock e flertes com a música atonal. As letras são um dos pontos altos, apresentando narrativas menos conclusivas e um caráter filosófico que indaga sobre a existência, o amor, a violência e a vida urbana em São Paulo. Entre as canções que se destacam, a faixa-título "Sampa Midnight" é um retrato vívido da metrópole, narrando a jornada de amigos embriagados pela noite paulistana, com um estilo que mistura samba de breque e rock. Já a poderosa "Isso Não Vai Ficar Assim" apresenta versos impactantes sobre as vidas individuais e a mortalidade, convidando a um beijo "como se fosse essa noite a última vez". Outras parcerias notáveis incluem "Prezadissimos Ouvintes" (com Domingos Pellegrini), "Navalha na Liga" (com Alice Ruiz) e "Movido à Água" (com Galvão), demonstrando a riqueza de colaborações do álbum.
Legado
Apesar de não ter alcançado o sucesso comercial massivo esperado pela imprensa que o via como "Arrigo Barnabé com suingue", a música de Itamar Assumpção foi aclamada pela crítica, e Sampa Midnight - Isso Não Vai Ficar Assim é hoje considerado um álbum de culto e uma peça essencial para entender a música brasileira experimental. A própria filha do artista, Anelis Assumpção, o aponta como seu favorito, ressaltando sua maturidade poética e profundidade filosófica. O disco se tornou um símbolo da produção musical independente dos anos 80, em um cenário de crise da indústria fonográfica e fechamento de espaços como o Teatro Lira Paulistana, onde a Vanguarda Paulistana floresceu. Sua sonoridade é descrita como atemporal, com influência perceptível em gerações posteriores de artistas, de Funk Como Le Gusta a Curumim. Atualmente, o álbum continua sendo objeto de estudos acadêmicos, que exploram sua relevância para a música independente, a representação da negritude e o experimentalismo na cultura urbana.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Itamar Assumpção, Paulo Lepetit
Denise Assunção, Itamar Assumpção
Itamar Assumpção
Paulo Lepetit
Gigante Brasil
Tonho Penhasco
Luiz L. B. Raio Lazer
Itamar Assumpção
Bocato
Elcio Alvarez Filho, Itamar Assumpção, Rui Mifune
Eduardo Lima
