Jards Macalé
Jards Macalé
1972

Porque Merece Estar na Lista
Lançado em 1972, o álbum de estreia solo de Jards Macalé é um marco absoluto na música brasileira, apresentando uma proposta que subverte a lógica linear da MPB da época. Distingue-se por inaugurar uma vertente pós-tropicalista de "fossa", marcada por um tom melancólico e profundo, em nítido contraste com o clima festivo de outros lançamentos contemporâneos, como Acabou Chorare dos Novos Baianos. O disco é um trabalho ousado, transgressor e anti-comercial, que misturou rock, samba, eruditismo, jazz, bossa-nova e o próprio tropicalismo, elementos que Jards Macalé tece em uma tapeçaria sonora única e desafiadora. Com uma sonoridade elétrica e um repertório politizado e poético, o álbum é considerado um dos trabalhos mais inusitados da história da música brasileira, fundando uma "vanguarda macaleana" que redefiniu as fronteiras da arte musical no país. Macalé não apenas cantava, ele "dissolvia a forma", com sua música se desviando das expectativas melódicas e harmônicas convencionais, consolidando-se como um pilar de uma obra de personalidade ímpar na MPB.
Contexto
Antes de gravar seu disco homônimo, Jards Macalé já era uma figura atuante no cenário musical brasileiro, tendo suas composições gravadas por artistas de peso como Eliseth Cardoso, Nara Leão e Gal Costa. No início da década de 1970, sua experiência mais notável foi como diretor musical de Caetano Veloso na gravação do álbum Transa, em Londres, onde também tocou ao lado dos músicos Tutty Moreno na bateria e Lanny Gordin na guitarra. Contudo, a colaboração em Transa resultou em uma desavença com Caetano Veloso, pois Macalé sentiu-se desprezado por não ter seu nome incluído na ficha técnica do disco. De volta ao Brasil, e em meio ao período de repressão da ditadura militar, Macalé reuniu Tutty e Lanny para dar vida ao seu primeiro LP solo, transformando essa experiência em uma oportunidade para expressar sua visão artística de forma plena e sem concessões.
Gravação
O álbum Jards Macalé foi concebido com uma formação enxuta e poderosa, centrada na sintonia do trio composto por Jards Macalé no violão e vocal, Lanny Gordin no baixo elétrico e violão de aço (tocando como guitarra), e Tutty Moreno na bateria. Os três músicos foram responsáveis pelos arranjos de todas as faixas, criando uma sonoridade crua, elétrica e com toques de rock, jazz e samba, quase como uma "jam session" gravada nos estúdios da Phonogram. O empresário Guilherme Araújo foi o produtor do disco. A gravação foi feita às pressas, com um prazo apertado e características minimalistas. Um dos maiores desafios enfrentados durante a produção foi a censura imposta pelo regime militar. A canção "Revendo Amigos", com letra de Waly Salomão, por exemplo, precisou ser revisada doze vezes até ser finalmente aprovada, demonstrando a luta dos artistas contra as imposições da época.
Músicas
O repertório do álbum Jards Macalé é uma amálgama de composições originais e parcerias com grandes nomes da poesia e música brasileiras, como Capinam, Waly Salomão, Torquato Neto, Duda Machado, Luiz Melodia e Gilberto Gil. As letras são carregadas de questões existenciais e uma melancolia profunda, refletindo o desconforto com a censura e a ditadura militar da época. Dentre as faixas que se destacam, "Farinha do Desprezo" abre o disco com uma mistura arrojada de rock, samba e jazz, evidenciando o dedilhado de Lanny Gordin e as quebras de tempo de Tutty Moreno. "Mal Secreto" é um blues marcante, posteriormente regravado por Gal Costa, assim como "Hotel das Estrelas". "Let's Play That", parceria com Torquato Neto, é notável pela letra que parafraseia versos de Carlos Drummond de Andrade. A união de "Farrapo Humano" (de Luiz Melodia) e "A Morte" (de Gilberto Gil, nunca gravada pelo autor) também exemplifica a eletricidade roqueira e a profundidade poética do disco.
Legado
A recepção inicial do álbum Jards Macalé foi desafiadora. Com seu caráter ousado e anti-comercial, o disco teve uma vendagem baixa e foi rapidamente retirado de circulação. Essa performance resultou na rescisão do contrato de Jards Macalé com a gravadora Phonogram. Como consequência direta, e desempregado, Macalé idealizou e reuniu diversos artistas para a gravação do histórico álbum Banquete dos Mendigos, lançado no ano seguinte em celebração aos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Apesar do insucesso comercial inicial, o tempo fez justiça ao trabalho de Macalé. Hoje, o álbum é universalmente reconhecido como um dos grandes clássicos e "melhores discos da MPB em todos os tempos". É frequentemente citado como um norte para a discografia do artista e como um disco fundamental para o surgimento de um "rock autenticamente brasileiro", influenciando gerações de músicos e consolidando Jards Macalé como um "maestro da vanguarda" e uma força desestabilizadora na música brasileira.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Lanny Gordin
Tutty Moreno
Jards Macalé
Guilherme Araujo
Joaquim Figueira
Paulo Sergio
João Moreira
Luciano Figueiredo, Oscar Ramos
Eduardo Clark
