A Bad Donato
João Donato
1970

Porque Merece Estar na Lista
A Bad Donato, lançado em 1970, representa um marco na discografia de João Donato e na música brasileira como um todo. O álbum é notável por sua ousada fusão de MPB com elementos de jazz, funk rock e eletrônica, criando uma sonoridade vanguardista que rompeu com o tradicional. Ele se estabeleceu como um clássico da música instrumental brasileira, incorporando o que Donato absorvia de diversos gêneros da época, como bossa nova, samba, tropicália, lounge, rock 'n' roll, psicodelia, funk e jazz. Este trabalho marcou uma quebra em relação ao estilo anterior de Donato, revelando-se uma "experiência psicodélica e funky" que viria a ser considerada cult. Foi um álbum crucial tanto para a carreira de Donato quanto para a evolução da fusão musical brasileira, demonstrando sua capacidade de inovar e de empurrar os limites do jazz fusion com maestria.

O disco (tido como um marco do jazz fusion) faz uma fusão genial do funk com a música brasileira.
Bruno Natal · Rolling Stone Brasil
Contexto
João Donato já residia nos Estados Unidos desde 1959, período em que a bossa nova despontava no Brasil e ele se consolidava na cena internacional. Após quase uma década morando e colaborando com músicos como Chet Baker e Astrud Gilberto, Donato sentia uma inquietude criativa e uma necessidade urgente de explorar novas direções musicais. Ele buscava ir além de trabalhos como seu elogiado *Piano of João Donato: The New Sound of Brazil* (1965), explorando novos territórios com pianos, órgãos e teclados. A efervescência do funk de artistas como James Brown e Sly Stone no final dos anos 1960 teve grande influência sobre Donato. Foi durante uma turnê no Japão com Sérgio Mendes que Donato chamou a atenção de Bob Krasnow, da Blue Thumb Records, que lhe ofereceu "carta branca" para gravar o que quisesse. O objetivo de Donato era buscar o gosto popular, já que a bossa nova se tornava mais vocal e ele queria explorar a intensidade de acordes mais agressivos em um caldo híbrido. Durante seu tempo nos EUA, ele também reincorporou a musicalidade afro-cubana ao jazz, algo que não havia conseguido fazer plenamente no Brasil.
Gravação
A Bad Donato foi gravado em 1970, nos A&M Studios em Los Angeles, sob o selo da Blue Thumb Records. Apesar de Donato ter admitido que não tinha um plano claro de como o álbum seria, a gravadora ofereceu total apoio e liberdade criativa. O músico e produtor Emil Richards é creditado como produtor do LP. Eumir Deodato teve um papel fundamental na sonoridade do álbum, oferecendo-se para fazer os arranjos após ouvir as demos de Donato. Deodato, que já estava imerso no rhythm & blues e funk nos EUA, afirma ter introduzido Donato ao funk, usando instrumentos como o sax barítono para criar um som de "funk jazz" que surpreendeu o próprio Donato no estúdio. A orquestração contou com um time estelar de músicos, incluindo os percussionistas Dom Um Romão, o saxofonista Bud Shank e o pianista Oscar Castro Neves. Outros nomes notáveis foram Ron Carter no contrabaixo e Paulinho Magalhães, além de um naipe de metais robusto com Jimmy Cleveland e Ken Shroyer nos trombones, Jack Nimitz e Bill Hood nos barítonos, e Ernie Watts e Don Menza nos tenores.
Músicas
Todas as dez faixas do álbum são composições autorais de João Donato, que à época ainda tinha muitos de seus temas instrumentais antes de receberem letras. Com uma duração total de 28 minutos e 26 segundos, o disco apresenta "paisagens lounge-funky com um toque tropical", demonstrando a habilidade técnica de Donato e seu desejo de explorar novas fronteiras na fusão de gêneros. Entre as faixas que se destacam estão "The Frog (A Rã)", uma de suas composições mais conhecidas, "Celestial Showers", "Bambu", "Lunar Tune" e "Cadê Jodel? (The Beautiful One)". A instrumentação rica e os arranjos inovadores permeiam o álbum, tornando cada faixa um exemplo da sua visão musical singular.
Legado
A Bad Donato solidificou seu lugar na história da música brasileira e internacional. Em 2007, foi eleito pela revista Rolling Stone Brasil como o 76º melhor entre os 100 maiores discos da música brasileira. O álbum é amplamente considerado um trabalho cult e uma referência essencial para instrumentistas, tendo sido chamado de "uma bíblia para instrumentistas" pelo baixista Luiz Alves, da banda Som Imaginário. O impacto do álbum se estendeu, influenciando tanto músicos brasileiros quanto americanos, como Raul de Souza, Stanley Clarke e George Duke. Sua recepção crítica cresceu significativamente desde o lançamento, e *A Bad Donato* provou ser um álbum fundamental na carreira de João Donato, impulsionando-o a se tornar diretor musical de Gal Costa e a gravar outros clássicos como *Quem é Quem*. A relevância do trabalho foi reafirmada com seu relançamento em 2024, como parte da aclamada série Verve by Request.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Eumir Deodato
João Donato
Emil Richards
João Donato
Oscar Castro-Neves
Chuck Domanico
Bob Krasnow, Tommy LiPuma
Dom Um Romao, Mark Stevens, Paulinho Magalhães
Warren Klein
Bud Shank
Emil Richards, Joe Porcaro
Bill Hood, Don Menza, Ernie Watts, Jack Nimitz
Jimmy Cleveland, Kenny Shroyer
Conte Candoli, James Zito, Pete Candoli
Hank Cicalo
Gary Kellgren
