Quem é Quem
João Donato
1973

Porque Merece Estar na Lista
Quem é Quem, o décimo álbum de João Donato lançado em 1973, marca um momento crucial na carreira do instrumentista, apresentando pela primeira vez sua voz ao público. Donato, conhecido por sua maestria ao piano, especialmente o elétrico Fender Rhodes, que estava em alta na época, explora um terreno vocal inédito, enriquecendo sua já reconhecida identidade musical. Este disco é um reencontro vibrante de Donato com o samba-jazz, um gênero que ele ajudou a moldar, agora "envenenado por seus experimentos elétricos no exterior". O álbum não se limita a revelar a faceta vocal de Donato, mas também o consolida como um artista que soube integrar suas vivências internacionais com suas raízes brasileiras. A fusão de elementos tradicionais do samba-jazz com as sonoridades eletrônicas angariadas em sua temporada nos Estados Unidos confere a Quem é Quem um caráter inovador e distintivo, um marco na discografia do artista.

Donato se permite cantar, inaugurando um estilo inconfundível.
Bruno Natal · Rolling Stone Brasil
Contexto
O lançamento de Quem é Quem se deu em um período de profundas transformações pessoais para João Donato. Após dez anos residindo nos Estados Unidos, o pianista enfrentou o divórcio e retornou ao Rio de Janeiro no Natal de 1972, deixando a esposa Patrícia e a filha Jodel nos EUA. Foi em terras brasileiras, reencontrando o amigo e cantor Agostinho dos Santos, que surgiu a ideia inovadora de Donato colocar sua própria voz em um disco, algo até então inédito em sua carreira dominada pelo instrumental. O processo de criação das canções foi um "corre-corre" para buscar parceiros, com Donato optando por distribuir as melodias para letristas como Paulo César Pinheiro, Lysias Ênio, João Carlos Pádua, Geraldo Carneiro e Marcos Valle, em vez de compor em conjunto como Tom Jobim e Vinicius de Moraes.
Gravação
Produzido por Marcos Valle e Milton Miranda para a gravadora Odeon, Quem é Quem contou com uma diversidade de talentos nos arranjos, incluindo Dori Caymmi, Lindolfo Gaya, Laércio de Freitas, Ian Guest e o próprio Donato em algumas faixas. A instrumentação é rica, destacando a guitarra de Hélio Delmiro, a harmônica de Maurício Einhorn, a percussão de Naná Vasconcelos e a participação especial de Nana Caymmi na voz da canção "Mentiras". Um fato notável da gravação foi o uso proeminente do piano elétrico Fender Rhodes por Donato. Apesar da qualidade e do cuidado na produção, o disco não obteve grandes vendagens na época. Diante da falta de apoio para a promoção, Donato, seguindo a sugestão do sambista J. Canseira, realizou um "lançamento" inusitado: arremessou uma caixa de discos do alto do outeiro da Igreja da Glória, no Rio de Janeiro, com cobertura da jornalista Paula Saldanha.
Músicas
O repertório de Quem é Quem é uma mistura equilibrada de temas instrumentais e canções com a voz de Donato, além de uma participação especial. O disco abre com "Chorou, Chorou" e "Terremoto", parcerias com Paulo César Pinheiro. Faixas como "A Rã" e "Amazonas" são exemplos do brilhantismo instrumental de Donato, enquanto "Até Quem Sabe?", escrita com seu irmão Lysias Ênio, apresenta sua voz em destaque. Além de sua própria interpretação, Donato cede espaço para a voz marcante de Nana Caymmi em "Mentiras", outra parceria com Lysias Ênio. O álbum também inclui "Cala Boca Menino", de Dorival Caymmi, e "Cadê Jodel", que expressa uma homenagem à sua filha. As letras e melodias refletem o período de retorno e reencontro com suas raízes brasileiras, abordando temas de amor, saudade e a efervescência musical da época.

Este disco é um divisor de águas na carreira do acreano João Donato, um dos pais da bossa com sua batida suingante, que incorporaria outro sotaque após estágio nos EUA com a ala caribenha do jazz de Tito Puente a Mongo Santamaria.
Tárik de Souza · 300 Discos Importantes
Legado
Apesar de não ter alcançado grandes vendagens em seu lançamento, Quem é Quem consolidou um valor simbólico ao longo dos anos. Em 2007, a revista Rolling Stone brasileira reconheceu sua importância ao elegê-lo na 90ª posição em sua lista dos 100 Maiores Discos da Música Brasileira. Essa distinção póstuma solidificou o status do álbum como uma obra essencial na discografia de João Donato e na história da MPB. O reconhecimento pela crítica especializada, mesmo décadas após seu lançamento inicial, sublinha a relevância duradoura de sua sonoridade única e da ousadia de Donato em explorar novas frentes artísticas, como sua própria voz e a fusão de estilos musicais.
Ranking nas Listas
Faixas
Créditos
Lindolfo Gaya
Z. J. Merky
Milton Miranda
Marcos Valle
Lula Nascimento
João Donato
Hélio Delmiro
Naná Vasconcelos
Dacy Rodrigues, Reny R. Lippi, Toninho
Nivaldo Duarte
Joel Cocchiararo
Alexandre De Souza Lima
